Capítulo 3: A Validação da Farsa
Guilherme, curvado sobre a dor incisiva do ‘Sangramento’, respirava em golfadas curtas sobre o balcão do Mercador. A dor, artificial, ainda era convincente demais. Era um lembrete constante de que o Jogador controlava não somente suas ações, mas também suas sensações corporais, forçando-o a se submeter a essa patética comédia de uma loja de RPG barata.
O Mercador, alheio a toda a crise existencial e de saúde, estendia a garrafa virtual de líquido vermelho. A figura robusta exibia uma barba espessa de baixa resolução e vestia um avental sujo, um exemplo perfeito e genérico de NPC de vendinha medieval. A flecha dourada do waypoint tremia na altura do peito do Mercador, garantindo que o foco de Guilherme não se desviasse.
“Tome uma poção de vida, forasteiro! A cura é para os corajosos!” repetiu o Mercador com a mesma voz de text-to-speech que estava usando desde que Guilherme chegou à Cidade Inicial de Aethel.
Guilherme tentava controlar a tremedeira nos braços, forçando-se a olhar para as mãos em vez de fixar no Mercador. A humilhação de ter que validar a existência daquela "poção de vida" era quase tão dolorosa quanto o debuff. Ele não queria tocar no objeto, mas a barra amarelada de HP, piscando no canto de sua visão, ditava a realidade. A cada ponto que se esvaía, um pedaço de sua força, real ou simulada, o abandonava, fazendo-o sentir o pânico de um game over iminente.
A mente de Guilherme gritava contra a submissão, mas o corpo se movia com a lógica fria de um programa de computador em execução. O sistema o empurrava para o ritual de compra e consumo, a única rota para a sobrevivência momentânea.
O corpo de Guilherme estendeu o braço por conta própria. Foi um movimento robótico, quase independente de seu consentimento mental, mas ditado pela urgência do debuff de sangramento. Ele sentiu os dedos se fechando ao redor de um pequeno saco de tecido que estava preso ao seu cinto. Aquele saco continha as moedas de cobre virtuais que o sistema havia lhe atribuído ao iniciar o jogo, o capital inicial para essa farsa econômica.
Com um puxão desengonçado causado pela dor no flanco, Guilherme retirou uma pequena quantidade de moedas, cujo brilho dourado era tão falso quanto o sol perpétuo no céu. Ele não precisava perguntar o preço da Poção de Vida, pois o sistema de interface de negociação, que ele nem sequer havia ativado mentalmente, já estava flutuando na frente do Mercador.
O Mercador apanhou as moedas com uma mão de cinco dedos quadrados, o gesto sendo feito com uma animação brusca e repetitiva, típica de scripts apressados. O som de “ka-ching” baixo e genérico que acompanhou a transação era, honestamente, risível, mas a situação não permitia risadas.
A Poção de Vida, uma garrafa pequena e brilhante de vidro virtual com o líquido vermelho, foi colocada na mão estendida de Guilherme. Era um item genérico, o mais básico da loja, mas representava agora sua única salvação. O Jogador tinha feito um trabalho perfeito: forçar o avatar a depender da lógica interna do jogo para sobreviver às penalidades internas do jogo. A coerção era total.
Guilherme segurava a garrafa, o vidro pixelizado parecendo frio em seus dedos. Ele sentia a pressão esmagadora do Jogador. O sistema havia validado o Mercador, a economia e a cura mágica em um único movimento forçado. Tentar resistir seria apenas prolongar a dor, e o Jogador já havia demonstrado que a dor terminaria em game over.
O medidor de HP continuava a diminuir, o que era o incentivo final. Guilherme não conseguia se dar ao luxo de pensar. Ele precisava agir.
O sistema não esperou pela decisão de Guilherme. Se o braço tinha sido forçado a comprar, ele também seria forçado a consumir.
A mão de Guilherme, segurando o frasco, se levantou em direção à boca. O movimento era ligeiramente tremido, o corpo ainda enfraquecido pela perda de status, mas era um movimento irrefreável, a boca se abrindo em antecipação. O líquido vermelho do frasco não tinha cheiro nem gosto. Era apenas código, um efeito visual, mas quando a garrafa se inclinou e a simulação de fluido desceu por sua garganta, o efeito foi instantâneo e brutalmente eficaz.
A dor no abdômen sumiu.
Não diminuiu gradualmente nem se dissolveu como uma náusea; ela cessou. Foi como se um interruptor tivesse sido desligado, ou como se um bug de ressaca tivesse sido corrigido por um patch de emergência. O choque elétrico que rasgava seu flanco simplesmente desapareceu em um instante.
Simultaneamente, a barra de HP que estava piscando em amarelado doentio e sangrando pontos parou de piscar. O vermelho berrante do alerta se foi, e a cor amarelada reverteu-se num verde claro e completo. A barra preencheu-se instantaneamente, do ponto onde estava em declínio até a plenitude total, sem sequer um lapso de animação de preenchimento.
Guilherme sentiu o corpo inundado por uma sensação de energia revigorada, de clareza mental e de ausência total de fraqueza. Todo o cansaço simulado evaporou. Ele voltou a sentir-se forte, Nível Um, status máximo. A Poção de Vida havia funcionado perfeitamente, exatamente como prometido pela propaganda do software.
O debuff ‘Sangramento’ desapareceu do HUD; a remoção da condição de status era tão rápida quanto a sua imposição. O Jogador não estava interessado em matá-lo, mas em discipliná-lo. A punição visava a coerção, não a extinção.
Guilherme se endireitou, respirando fundo, o alívio físico sendo substituído por uma onda de raiva fria e calculada. A cura imediata era a prova final do controle absoluto que o Jogador exercia sobre a realidade de Aethel e sobre o corpo de seu avatar. O Jogador não havia sequer fingido que a cura era um processo natural; havia imposto a solução de software de forma clara e instantânea.
O poder total do sistema era inegável. Não havia como combater a manipulação do código com a força bruta ou com a gritaria. A única luta viável era a sabotagem, a manipulação das regras de forma a irritar o operador, a forçar o Jogador a cometer um erro de estratégia.
Guilherme apertou o tecido da sua túnica no ponto onde a dor havia se concentrado. Ele estava inteiro de novo, mas o trauma da vulnerabilidade permanecia. Ele tinha sido forçado a rastejar e mendigar a vida, e isso era uma humilhação que ele não iria esquecer facilmente.
Ele olhou para o Mercador, que agora guardava o dinheiro e esperava a próxima linha de diálogo ou o próximo cliente. O NPC estava completamente desinteressado na cura milagrosa de Guilherme.
Guilherme não tinha nenhuma intenção de falar com o Mercador sobre orçamentos, estoque ou a previsão de goblins. Ele tinha cumprido sua parte na quest forçada. A gratidão pela cura era zero; a determinação de retaliar o Jogador era agora a única força motriz em seu corpo.
O Mercador, sem receber uma resposta ou prompt de diálogo, iniciou seu loop de fala.
“Poções de Vida em promoção! Não deixe o chefe final te pegar desprevenido!” ele disse com a mesma animação entediada de sempre.
Guilherme ignorou a fala, sentindo a carteira de identidade física enterrada na palma da sua mão. Ele se virou de forma brusca, o movimento rápido e sem dor, uma liberdade que ele não sentia há momentos. A praça estava de volta ao seu loop passivo. Os Camponeses continuavam a reclamar da falta de água, e o sol de baixa resolução pairava no céu.
O Jogador havia vencido a rodada da coerção, puxando Guilherme de volta à rota, mas havia cometido um erro ao restaurar sua energia completa. Ao fazê-lo, havia dado a Guilherme a força necessária para causar mais estragos.
Guilherme se afastou do balcão do Mercador com passos firmes. Os olhos dele agora estavam fixos no grupo de Camponeses, o mesmo grupo que ele havia tentado acordar momentos antes, e que tinha resultado na sua punição de ‘Sangramento’.
Ele sabia que atacar o front-end do jogo era a única maneira de se comunicar com o Jogador, mesmo que o custo fosse a própria vida. Mas desta vez, ele não iria atrás de Barras de HP ou da Quarta Parede.
Guilherme pensou sobre o que o Jogador, um controlador de videogame, mais valorizaria neste mundo de RPG genérico. O status do avatar? A vida do protagonista? Sim, mas o Jogador também valorizava a lógica interna do jogo, o mundo que ele controlava.
O que todo jogador odeia em um RPG é quando o loot system falha. É quando a recompensa não corresponde ao esforço.
Guilherme já tinha testado o ‘ataque moral’ ao silenciar o Mago. Havia testado o ‘ataque de interface’ ao expor o HUD. Agora, ele testaria o ‘ataque de gameplay’, atacando a sensibilidade do sistema de saque. Ele ia atacar o Camponês estático novamente, mas não para fazê-lo olhar para o céu.
Ele ia atacar o Camponês para roubar sua calcinha digital.
A ideia era absurda, violenta, e completamente fora do script de um herói de RPG. Para Guilherme, era genial. Ele não queria matar o NPC, mas queria que o sistema registrasse um ato de furto e violência que não tivesse previsão no código de recompensa ou debuff. Ele queria forçar o sistema a categorizar a ação de uma maneira que criasse uma falha, um loop de erro no balcão de controle do Jogador.
Guilherme se movia rapidamente em direção ao centro da praça. A determinação fria se solidificava em seu peito, substituindo o medo. Ele tinha sido curado, mas a cura tinha vindo com o preço da humilhação.
Ele chegou perto do grupo. O Camponês que estava em seu loop de reclamação sobre a irrigação estava mais uma vez no seu ciclo de fala: “Os campos precisam de água! Se não chover, a colheita falhará, e os Goblins...” Guilherme não o ouvia. Ele parou na frente do NPC, bloqueando a visão do Camponês sobre o poço de água. A distância era mínima, o que garantia um contato físico imediato e indelicado.
A palma da mão de Guilherme se fechou em um punho duro. Ele atacaria.
Ele sabia que seu golpe não causaria dano real ao NPC, porque o Camponês tinha 100% de vida e era Nível Um eterno, mas o sistema registraria o contato. Guilherme mirou o golpe no torso do Camponês, na área que seria o centro de gravidade, o ponto onde tradicionalmente a loot table de um NPC derrotado seria ativada em jogos. Ele queria forçar uma interação de loot sem a condição de ‘morte’ do NPC.
O primeiro golpe de Guilherme foi um soco lateral, desferido com toda a força que o corpo digital restaurado podia gerar. Não foi um golpe técnico, foi um desabafo pura e simplesmente. Ele acertou a lateral do Camponês com um baque surdo.
O Camponês não demonstrou dor. Ele não se contorceu. O corpo de baixa resolução apenas se moveu com o impacto, como se fosse um saco de areia flutuante preso em seu lugar por uma âncora invisível.
“Se não chover, a colheita falhará, e os Goblins...” o Camponês conseguiu repetir a frase, a voz estranhamente inalterada, quase como se o som não viesse da sua boca, mas de um alto-falante interno. O corpo do NPC tentava retornar à sua posição original, mas Guilherme estava empenhado em mantê-lo fora do seu loop de conforto.
Ele viu a barra de HP do Camponês flutuando acima da cabeça. Ela permaneceu completamente verde, intocada. O soco de Guilherme não tinha causado nenhum dano.
A frustração era um fogo frio. Guilherme continuou, concentrando-se em atingir o NPC com uma série de golpes calculados, ignorando a ausência de dano. Ele disparou o segundo soco, depois o terceiro, atingindo o Camponês com uma violência focada na perturbação da lógica.
O Camponês mal conseguia completar suas falas.
“Os campos precisam...” Soco. “...de água!” Soco.
O loop de fala do NPC estava visivelmente quebrado pelo contato físico constante. O Mercador, a uma distância segura, continuava a falar sobre poções de vida. Os outros dois Camponeses, embora próximos, ignoravam a violência, repetindo as suas falas sobre Goblins e a irrigação, presos em seu próprio ciclo, como se o ataque de Guilherme a seu colega fosse apenas um ruído de fundo que não merecia atenção de um NPC normal.
Guilherme atacava o Camponês com os punhos. Ele estava quebrando a arquitetura do jogo, forçando um modelo estático de cenário a interagir com um ataque de combate que não resultava em morte. Ele estava esperando pelo debuff de ‘Punido’ ou ‘Violência desnecessária’, mas nada veio. Seu HP era estável, verde e completo, provando que o sistema não conseguia encaixar esse ato de agressão na sua lógica de penalidades.
A violência era inútil, mas era a única forma de comunicação. Guilherme estava gritando com o Jogador através do hardware do Camponês. Ele queria que o Jogador se irritasse com a falta de lógica, com a incapacidade do sistema de lidar com um protagonista que batia em adereços de cenário para criar falhas.
De repente, ele sentiu algo. Não era dor, nem debuff. Era uma luz vermelha violenta que irrompeu em seu campo de visão. O HUD piscou, não com o vermelho de HP baixo, mas com um vermelho de alerta total.
Uma nova notificação, em letras maiúsculas e imponentes, sobrepôs-se à sua visão periférica.
O sistema finalmente havia reagido à agressão ilógica de Guilherme, mas não com a lógica de jogo esperada. A reação era algo que o Jogador certamente não conseguiria ignorar.
‘PROCURADO (GUILHERME)’ a frase impunha-se em um retângulo translúcido de cor escarlate. O sistema havia falhado em atribuir um debuff de sangramento, então, como alternativa, ele havia categorizado Guilherme como um criminoso.
O sistema de jogo havia ativado o status ‘Procurado’.
O sistema de jogo havia ativado o status ‘Procurado’.
Era uma confirmação de que o Jogador, usando o software, não podia simplesmente deixar a agressão ilógica contra um NPC estático impune, mas também não podia infligir um debuff padrão de combate, já que o alvo não era combatível. A solução do sistema foi aplicar uma regra social.
A notificação ‘PROCURADO (GUILHERME)’ desapareceu, mas o efeito foi imediato e surpreendente em sua brutalidade. O Camponês que Guilherme acabara de socar finalmente conseguiu se libertar completamente do ciclo de fala.
Seu rosto, que antes exibia uma preocupação genérica com a colheita, agora estava distorcido em uma carranca de fúria intensa e de baixa resolução. A cor da barra de HP, que pairava sobre sua cabeça, não mudou de verde, mas o nome do NPC mudou de cor.
O nome ‘Camponês’ mudou de branco para um vermelho escuro. O status do NPC mudou de ‘Amigável’ (ou ‘Neutro-Passivo’, no caso deles) para ‘Hostil’.
O Camponês não pegou um tridente. Não havia animação de armas em seu script. Em vez disso, ele avançou o corpo com os punhos cerrados. Era um avanço desajeitado e robótico, mais parecido com um walk cycle defeituoso, mas a intenção era inconfundível. Ele estava atacando Guilherme.
“Larga de ser um vagabundo!” gritou o Camponês, uma fala que Guilherme nunca tinha ouvido na Cidade de Aethel.
Os outros dois Camponeses, que até então pareciam surdos e cegos à violência, reagiram da mesma forma. O segundo Camponês, que falava sobre Goblins, parou de falar e assumiu a mesma postura de ataque, o nome ficando vermelho-hostil.
“Vamos pegar o ladrão!” gritou ele, e sua voz se juntou ao coro de fúria.
Guilherme deu um passo para trás, chocado pelo sucesso da sua tática. Ele só queria incomodar o Jogador, mas havia, aparentemente, ativado o protocolo de segurança da Cidade Inicial de Aethel. Os NPCs estáticos, os adereços de cenário que nunca deviam se mover, estavam se transformando em agressores.
A praça que Guilherme tinha usado como palco para sua rebelião de interface agora se transformava em uma arena de combate de baixo orçamento.
Por onde Guilherme olhava, novos NPCs de cenário estavam sendo ativados. O Mercador, que havia vendido a poção minutos antes, parou de reciclar sua fala e sua figura robusta ganhou uma nova postura. Ele tirou uma faca grossa do cinto, e seu nome também ficou vermelho.
“Não se ataca a gente que vive aqui!” gritou o Mercador, e a voz robótica ganhava uma nova tonalidade agressiva.
Gritos e alertas de combate agora ecoavam pela Cidade de Aethel, aumentando o ruído da interface. Todos os NPCs próximos que estavam presos em loop se voltavam contra Guilherme. O som das falas de NPC em loop foi substituído por falas genéricas de combate.
O choque cultural do gameplay era imenso. Ele estava sendo caçado por camponeses e mercadores, forçando um combate de NPCs que não deviam ter lógica de combate.
O Camponês que Guilherme tinha socado avançou primeiro. Sua animação era um desastre, o braço vindo em um movimento lento e previsível, um soco que sequer parecia ameaçador, mas a colisão seria real.
Guilherme já sentia o pânico voltando, mas a determinação fria se solidificou. Sua aposta tinha sido a certa. O Jogador podia punir a dor física, mas a falha de lógica de jogo forçava o sistema a uma reação exagerada.
Anteriormente, o Mercador tinha emitido a flecha dourada do waypoint, forçando Guilherme a ir para a cura. Agora, com o status ‘PROCURADO’, a barra superior de HUD de Guilherme limpou-se de qualquer missão.
O waypoint que havia conduzido Guilherme até o Mercador simplesmente desapareceu completamente do HUD. Não havia mais ordens. O Jogador estava, aparentemente, observando o caos que Guilherme havia criado. O avatar estava livre para escolher a próxima ação, mas a liberdade vinha com o custo de ser caçado por bandos furiosos de NPCs Nível Um.
A lógica interna do jogo o havia transformado em um alvo. A meta de sobrevivência continuava sendo a principal, mas a forma de execução agora era diferente. Guilherme tinha forçado o Jogador a liberar o joystick da coerção direta, e isso era uma pequena vitória.
Guilherme deu um passo rápido para trás, evitando o soco lento do Camponês. O Camponês passou direto para o local onde Guilherme estivera, e sua animação de ataque travou por um segundo antes de ele se virar novamente para Guilherme.
O Mercador estava avançando lentamente, a faca virtual em sua mão, mas com a mesma urgência que um cliente insatisfeito. Os outros dois Camponeses vinham pelas laterais. Guilherme estava cercado por bonecos de software que agora tinham adquirido o status ‘Hostil’.
Ele podia lutar, mas o que isso significaria? Matar três NPCs para quê? Isso apenas validaria a lógica de gameplay tradicional de RPG, algo que Guilherme estava tentando evitar. Ele precisava de uma fuga, não de um massacre.
A única solução era a rota de fuga.
Os portões da Cidade de Aethel, que ele havia notado no início de sua jornada, estavam na direção oposta ao beco onde ele silenciara o Mago. Os portões levavam para o que parecia ser o Overworld do jogo, a floresta genérica cheia de Goblins, a próxima área do mapa.
Guilherme começou a correr. Não era uma corrida elegante e heroica, mas uma fuga apressada. Suas pernas executavam o comando, e a força que a poção havia restaurado era agora usada para a fuga.
“Pegue ele!” gritou o Mercador, embora o grito viesse com um delay de um segundo, como se o software estivesse sobrecarregado pela quantidade de NPCs ativados simultaneamente.
Guilherme corria através da praça. Passou pelo poço de pedra. Olhou para o céu de sol perpétuo, mas não perdeu tempo com referências à Matrix agora. Ele precisava atravessar a praça rapidamente e chegar aos portões antes que a massa de aldeões enfurecidos o alcançasse.
Os NPCs, apesar de estarem ‘Hostis’, não eram combatentes ágeis. Os Camponeses se moviam com a lentidão de figuras em um jogo de estratégia em tempo real mal otimizado, embora sua coordenação parecia estar ligeiramente melhor que a de um indivíduo isolado.
Guilherme acelerou o passo. Ele passou por uma estátua genérica de um herói desconhecido e a ignorou. Seu foco estava no arco de pedra dos portões, que representavam a saída da Cidade Inicial de Aethel.
Atrás dele, os gritos eram altos e confusos. O coro de vozes se misturava em um ruído irritante.
“Ladrão!” “Vagabundo!” “Pelos campos!”
Guilherme conseguia correr mais rápido que eles, mas o perigo estava em tropeçar. Se ele caísse, os NPCs hostis o alcançariam rapidamente. Matar os NPCs seria ineficaz, pois loot não era o objetivo. Ele tinha que sair da zona de ‘Procurado’.
Ele apertava a carteira de identidade. Era o único objeto real que ele possuía, e era um lembrete do que estava em jogo. A realidade não era a Cidade de Aethel; a realidade estava fora do jogo.
Guilherme alcançou os portões, a figura dos Camponeses e do Mercador vindo atrás, perdendo terreno. Ele passou por baixo do arco de pedra.
O software registrou a transição de zona.
Guihllerme agora se movia rapidamente em direção à próxima área do jogo, o Overworld. A cidade, com sua arquitetura de RPG genérica, ficava para trás. O caminho se estreitava em uma trilha de terra vermelha, ladeada por árvores de baixa resolução.
Ao passar pelo portão, ele não sentiu nenhum loading screen. A transição de zona foi rápida e fluida, como se o Jogador tivesse antecipado a fuga.
Os gritos dos Camponeses ficaram mais fracos, mas não cessaram.
Guilherme olhou rapidamente para trás. Os Camponeses Hostis pararam na linha dos portões. A cerca invisível dos limites da zona os impedia de persegui-lo. Eles estavam presos no loop de ‘Perseguição-Agressiva-Mas-Presa-Na-Zona’. Os NPCs agitavam os punhos e a faca, gritando suas acusações, mas não avançavam. O software de programação de zona estava segurando a fúria deles.
A respiração de Guilherme estava ofegante. Ele parou de correr por um instante, curvado com as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Ele estava livre da coerção, mas agora estava em uma nova zona, a ‘Floresta dos Goblins’, o Overworld genérico dos jogos de fantasia.
Guilherme se endireitou, voltando a correr em um ritmo mais controlado. A trilha era sinuosa e levava a uma área de campo aberto, onde pequenos pontos verdes e marrons se moviam. Eram os Goblins, os NPCs de baixo nível que serviam de mobs para farm de XP no jogo.
Ele estava no caminho principal novamente, forçado à progressão, mas por sua própria ação de revolta. Não havia waypoint. A única ordem era correr e sobreviver.
O Jogador ainda estava em silêncio, o que era estranho. A falta de uma bronca verbal era mais perturbadora do que a dor simulada anterior. O Jogador estava apenas observando Guilherme sendo caçado pelo Overworld.
Guilherme olhou para a sua barra de HP. O verde perfeito e restaurado estava lá, mas o status ‘PROCURADO’ continuava piscando em vermelho no canto. Ele havia trocado a dor imediata e a obediência pela liberdade de ação sob a ameaça de ser um alvo constante. Isso era uma melhoria, embora perigosa.
O caminho seguia em frente, levando Guilherme para o desconhecido. Ele tinha conseguido sair da Cidade Inicial de Aethel sem a permissão do Jogador, e isso era significativo. Ele havia trocado a prisão segura pelo perigo de ser caçado, mas a ação lhe pertencia.
Guilherme correu mais rápido, sentindo o sol artificial em sua armadura de couro virtual. Ele pensou na próxima sabotagem, na próxima falha de gameplay que ele poderia forçar. Ele havia irritado o Jogador com a lei da cidade; agora, ele precisaria irritá-lo com a lógica do Overworld.
A trilha de terra vermelha levava para uma ponte de madeira de baixa resolução, o próximo marco importante no mapa. Guilherme não queria parar. Ele precisava manter o ritmo.
O primeiro Goblin estava à vista, uma figura pequena e verde que carregava um taco de madeira. O Goblin se virou na direção de Guilherme, o nome também exibindo o status ‘Hostil’. Mas, diferente dos Camponeses, o Goblin era hostil por natureza de código.
Guilherme tinha que passar pelo Goblin. Sua determinação era focada, e a única coisa que importava era a sabotagem do sistema. A violência era inevitavelmente a próxima etapa, mas ele usaria um método de combate não convencional, apenas para irritar o Jogador uma vez mais.
Ele correu em direção ao Goblin, pronto para o conflito.
Ele correu em direção ao Goblin, pronto para o conflito.
O Camponês que Guilherme havia atacado com os punhos finalmente conseguira romper o loop de fala. Seu rosto, agora com o status ‘Hostil’ piscando sobre o nome ‘Camponês’ em vermelho vivo, não apenas exprimia fúria, mas também uma estranha liberdade. Ele não estava mais preso ao ciclo da irrigação; ele agora era um agressor.
“Larga de ser um vagabundo!” a voz robótica gritava, mas a intenção era inequivocamente violenta.
Guilherme viu a transformação se espalhar como um vírus pelo cenário. Os outros dois Camponeses, vizinhos do ataque, também pararam seus próprios loops de preocupação com Goblins e água. Eles se moveram, seus nomes se tornando vermelhos, suas bocas gritando frases de combate genéricas que o software parecia ter puxado de um banco de dados de NPCs enfurecidos.
“Vamos pegar o ladrão!” gritou o segundo Camponês, dando um passo desajeitado.
O Mercador, que havia vendido a Poção da Vida para Guilherme apenas um instante antes, também se juntou ao coro. Com sua barba espessa e avental, ele parecia ridiculamente inadequado para o combate, mas a faca virtual em sua mão era real o suficiente para causar dano no mundo de Aethel.
“Não se ataca a gente que vive aqui!” gritou ele, e sua voz se juntou ao coro estridente.
Em segundos, dez, talvez quinze NPCs de background, que estavam em seu loop passivo de cena, foram ativados pelo status ‘PROCURADO’ de Guilherme. Eles eram o que o sistema definia como ‘População Cidadã’, agora transformada em uma turba enfurecida de ‘Agressor de Combate Zero’.
Gritos de fúria e alertas de combate ecoavam pela Cidade de Aethel. O ruído auditivo era assustador, pois não vinha de inimigos reais, mas de bonecos de cena que deveriam ser surdos e cegos à violência interativa, a menos que fossem diretamente atacados por Goblins. O sistema estava sobrecarregado pela incongruência do protagonista atacar o próprio cenário.
O primeiro Camponês, lento mas determinado, avançou em direção a Guilherme, seus punhos cerrados. O soco era lento, mas a intenção de dano era clara.
Guilherme deu um passo rápido para trás, evitando o hitbox do soco. Não havia tempo ou lógica para lutar contra uma turba de NPCs de status zero. Isso seria apenas validar um gameplay estúpido de boss rush precoce.
O Jogador havia imposto a urgência. O status ‘PROCURADO’ forçava a ação desesperada.
Guilherme olhou rapidamente para o HUD. O terrível símbolo dourado do waypoint, que o havia forçado a se curar no Mercador, tinha se apagado completamente. A tela estava limpa de comandos de missão, exceto pelo alerta vermelho pulsante de ‘PROCURADO (GUILHERME)’.
Esta era a liberdade que valia o debuff de sangramento inicial. O Jogador havia tirado as rédeas da coerção direta, deixando Guilherme livre para escolher a próxima ação, mas esta escolha era limitada pela sobrevivência imediata. O Jogador estava assistindo, esperando para ver qual rota de fuga Guilherme escolheria.
Os Camponeses, lentos, mas numerosos, começaram a fechar o cerco. O Mercador, mais ágil do que parecia, vinha pelo flanco direito, a faca tremendo.
Guilherme não hesitou. Ele não tinha tempo para teorizar sobre as falhas no backend do sistema ‘Hostil’. Ele tinha que escapar da zona. Ele correu em direção à única saída viável: os portões da Cidade de Aethel, que levavam para o Overworld, a Floresta dos Goblins.
Ele lançou o corpo para a frente, ignorando o grito histérico de uma Camponesa que havia se juntado ao grupo. O chão pixelizado passava rapidamente sob seus pés. Seu corpo estava forte novamente, o benefício da Poção da Vida que ele tanto detestava agora era vital para a sua fuga.
A distância até os portões era curta, mas a turba estava cobrindo o terreno lentamente. Guilherme sabia que se ele fosse pego, mesmo que o dano de um Camponês fosse mínimo, a soma dos ataques o derrubaria rapidamente.
Ele passou pela base do poço de pedra no centro da praça. Virou-se bruscamente para evitar o avanço do Mercador e o punho do primeiro Camponês hostil. Ele acelerou na reta final em direção ao grande arco de pedra que delimitava a fronteira da cidade.
Gritos de “Ladrão!” e “Pelos campos!” continuavam atrás dele, a cacofonia se tornando um som monótono de mobs enfurecidos. A sensação de ser caçado por adereços de cenário era surreal, mas a ameaça era real.
Guilherme passou sob o arco de pedra do portão.
A transição de zona foi imediata. A paisagem de estrada de terra e árvores de baixa resolução se estendeu, a Floresta dos Goblins, comumente chamada de Overworld.
Ele correu alguns metros, sentindo a mudança no terreno sob suas botas virtuais. A turba hostil não o seguiu. Ele olhou para trás, ofegante. Os Camponeses, o Mercador, e os outros NPCs hostis pararam abruptamente na entrada do portão.
Eles estavam presos por uma barreira invisível: o limite da zona. O software de Aethel não permitia que os NPCs da cidade abandonassem o seu mapa. Eles continuavam a gritar e agitar os punhos, presos em uma frustração digital pelo software.
“Volte aqui, seu miserável!” gritou um Camponês, a voz agora apenas um eco no Overworld.
Guilherme parou de correr, dobrando o corpo, tentando recuperar o fôlego. O suor escorria em seu rosto, a adrenalina da fuga era real. Ele havia escapado.
O status ‘PROCURADO’ continuava piscando no canto do HUD, mas agora ele estava na rota principal do jogo, sem um waypoint de missão para ser seguido. Ele havia forçado a libertação do controle motor do Jogador, e isso era significativo.
Guilherme se endireitou, sentindo a determinação fria se consolidar. Ele tinha aprendido uma lição cruel. A dor simulada e o waypoint forçavam a obediência, mas a falha de lógica na arquitetura do jogo, como bater em NPCs de status Nível Um para obter o status ‘PROCURADO’, forçava o Jogador a liberar o controle por um tempo.
Ele havia trocado a prisão segura pela perseguição, e isso era uma troca que ele aceitava.
Guilherme olhou para a frente. O Overworld se estendia. A trilha era sinuosa e levava a uma ponte de madeira. À frente, pequenos Goblins verdes, os mobs de baixo nível, moviam-se com seus tacos de madeira. A ameaça era genérica, previsível, mas ele ainda precisava lidar com eles.
Pensando no que acabara de acontecer, Guilherme percebeu que o Jogador estava usando as regras dele para punir a rebeldia. Se Guilherme queria lutar, ele teria que jogar nas regras do Jogador, mas ele o faria de uma forma que forçasse uma falha ainda maior no sistema. Ele estava no Overworld agora, e as regras do loot system estavam prestes a ser testadas novamente.
Guilherme apertou a carteira de identidade em sua mão. Ele podia sentir a presença invisível do Jogador, observando cada movimento. A próxima ação seria a mais importante. Ele tinha que atingir o Jogador onde mais doía: a integridade e a lógica do seu gameplay.
Ele voltou a correr, mas agora com um objetivo diferente. A sabotagem era a única rota de sobrevivência.
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