Capítulo 15: O Vetor de Barganha
Guilherme já estava a meio caminho da parede quando o Jogador usou a força de campo oposta para arrancar o feixe de cabos de sua mão. Ele recuou instintivamente, mas o movimento não era de medo do Jogador. O medo físico, a repulsa à dor do Dano Constante Residual, havia se tornado irrelevante no momento em que a imagem de sua família apareceu na tela.
A fotografia, desaparecida tão rápido quanto surgiu, havia congelado sua mente. Ele conseguia ver o sorriso da esposa, o jeito desengonçado do filho acenando, e essa imagem era uma vulnerabilidade concreta que superava qualquer ameaça digital.
A vingança sistêmica parecia vazia agora, um esforço acadêmico contra um inimigo que não estava interessado em regras, mas em coerção do mundo real.
A Sala de Controle Core ainda tremia violentamente, o Jogador reorganizando os firewalls em torno do cabo de dados vermelho pulsante que levava ao console. Guilherme parou de correr para a parede, abandonando a ideia de forçar uma passagem física. O risco era absurdo, e ele não tinha certeza de que atravessar aquela parede o levaria ao console ou apenas a uma zona de exclusão fatal.
A nova prioridade surgiu de forma clara: resgate e barganha.
Ele olhou para a tela, que havia retornado ao fluxo de dados, a informação se movendo rapidamente, quase como se o Jogador estivesse tentando compensar o tempo perdido com a exibição do mapa de rede. Guilherme ignorou a maioria do stream, os logs de execução e a telemetria, que antes eram seu mapa. Seu foco estava apenas no identificador de conexão externa que ele havia descoberto.
Guilherme havia forçado o Jogador a expor sua mão. A fotografia não era apenas um lembrete ameaçador, era a prova da conexão ativa, o elo de dados que o Jogador usava para monitorar e, possivelmente, afetar sua família. Esse era o ponto fraco.
Ele concentrou-se no endereço de telemetria visível no stream de dados de alta velocidade: [SES: GHM07.EXT]. Esse identificador representava o canal de comunicação reversa, a porta de acesso ao host externo. Antes, ele tentou injetar um comando de rastreamento. Agora, ele injetaria a intenção.
Guilherme não tinha nenhuma ferramenta física, ele havia perdido o fragmento de código corrompido, e o Jogador havia acabado de desarmá-lo do cabo improvisado. Tudo o que restava era a sua própria consciência avariada e a punição constante que o mantinha vivo, o Dano Constante Residual.
Ele sabia que o Jogador detectava a tensão e a intenção de falha através dessa dor. A dor não era apenas um controle, era um vetor de feedback mútuo.
Guilherme pressionou as palmas das mãos novamente contra o altar de controle, inclinando-se até que o metal frio entrasse em contato com sua testa. Ele não estava buscando um curto-circuito. Ele estava enviando uma mensagem, usando sua própria dor como a energia de coerção para forçar o Jogador a parar de jogar.
Ele canalizou toda a sua raiva e desespero, toda a humilhação de ter silenciado o Mago e a culpa de ter destruído o Predador, transformando esse sofrimento residual em um input de dados. Ele não queria mais derrubar o sistema, ele queria dialogar com quem estava no outro lado.
Guilherme forçou uma injeção de intencionalidade de negociação no endereço [SES: GHM07.EXT].
O vetor de ataque era simples: PARE O JOGO. EU ME REDIRECIONO. VOCÊ ME ESCUTA.
A dor no peito de Guilherme disparou em um pico violento, uma pontada que o fez arquejar, quase desmaiando de náusea. O Jogador estava reagindo à intrusão no canal externo. Essa dor era o firewall interno traduzindo a detecção de uma intenção hostil direcionada ao link real. O Jogador estava usando o corpo de Guilherme como fusível de dor outra vez.
Guilherme agarrou o altar com força, aguentando o pico.
A reação do Jogador foi imediata e drástica, algo que nunca aconteceu antes em resposta à mera falha no gameplay.
O fluxo de dados na tela de monitoramento foi interrompido com um solavanco digital. De repente, o stream incessante de telemetria parou. As linhas de código se dissolveram em um vácuo cinzento. A tela piscou.
O Jogador havia saído de sua postura silenciosa de controlador de sistema. Ele não estava mais focado em consertar o jogo, mas em responder à ameaça existencial de Guilherme ter acessado a conexão externa.
O blackout forçado no capítulo anterior fora uma censura visual. A paralisação do stream de dados agora era um reconhecimento de que o canal de comunicação se tornara a arena de combate. O Jogador não podia se dar ao luxo de ignorar uma mensagem injetada no endereço que monitorava a família de Guilherme.
Guilherme continuou pressionando, injetando sua intenção. Ele estava dizendo ao Jogador que a luta havia terminado. O campo de batalha não era mais o gameplay; era a negociação pela segurança de sua família.
A tela cinzenta cintilou novamente. O Jogador respondeu à intrusão na telemetria de uma maneira inédita: o sistema trocou o gráfico de logs por uma interface de diálogo sintético. A tela não era mais um monitor de status, mas uma folha de papel digital onde o texto podia aparecer.
O Jogador estava sendo forçado a um diálogo. A complexidade do ataque mental, usando a dor como um modem de falha, havia sobrecarregado os protocolos de resposta automática.
A tela cinzenta cintilou novamente. O Jogador respondeu à intrusão na telemetria de uma maneira inédita: o sistema trocou o gráfico de logs por uma interface de diálogo sintético. A tela não era mais um monitor de status, mas uma folha de papel digital onde o texto podia aparecer.
O Jogador estava sendo forçado a um diálogo. A complexidade do ataque mental, usando a dor como um modem de falha, havia sobrecarregado os protocolos de resposta automática.
A tela apagada se iluminou, exibindo texto em uma fonte padrão, branca sobre o cinza morto. O formato era espartano, desprovido de qualquer ornamento de gameplay, o que já era uma prova da seriedade da situação.
A primeira linha apareceu, silenciosa e definitiva.
[COM_PROTOCOL_ACTIVE]
Guilherme recuou um pouco do altar, a pontada residual no peito diminuindo para uma dor constante, mas tolerável. Ele havia conseguido criar um canal direto com o operador, a entidade que se escondia atrás do console.
O Jogador não usou a voz sintetizada estrondosa que ele usava para emitir debuffs ou avisos. Ele estava se comunicando através de uma interface de chat de alto nível, reconhecendo a barganha, reconhecendo a urgência.
A tela piscou, adicionando a próxima linha. Era a voz sintetizada do Jogador surgindo em texto pela primeira vez, confirmando que a mensagem injetada havia chegado no destino certo: o console de controle externo.
(HOST_GUILHERME): COMUNICAÇÃO RECEBIDA NO ENDEREÇO DE VETOR EXTERNO. ALVO DE COERÇÃO: FAMÍLIA. ESPECIFICAÇÃO DE TERMOS DE INTERFACE REQUERIDA.
A clareza da resposta era brutal. O Jogador não perdeu tempo com eufemismos ou negações. Confirmou que a família era o alvo de coerção e que Guilherme havia subido o nível da interação.
Guilherme sentiu a raiva fria substituir o pânico. Ele não tinha mais tempo para sutilezas. O Jogador havia exposto a realidade, e agora ele usaria essa mesma realidade para forçar o inimigo a revelar sua motivação.
Ele ergueu a cabeça, olhando para a tela, não para o teclado — ele não precisava de um. Ele usaria a mesma técnica de injeção digital que havia usado para materializar o diálogo. Ele se concentrou na tela e na palavra FAMÍLIA, forçando a intenção de sua mensagem através de sua conexão de dor, usando a repulsa que sentia pelo controle do Jogador como o comando de envio.
A dor no peito de Guilherme aumentou ligeiramente enquanto ele forçava a injeção da primeira mensagem agressiva. O sistema registrava isso como um input de alta prioridade.
Ele viu a tela reagir, e a próxima linha de texto apareceu, não vinda do Jogador, mas do seu avatar, do ser que estava preso na Sala de Controle.
(AVATAR_GUILHERME): O que você quer para deixá-los ir?
Era uma mensagem concisa, direta, sem rodeios. Exigia que o Jogador saísse de sua lógica de gameplay e se explicasse em termos de custo e benefício. O que, afinal, era o Jogador? Um predador, um sádico, ou ele estava apenas buscando um resultado específico?
O Core ficou em silêncio. A tela esperou. O tempo de resposta era longo, indicando que o Jogador estava formulando uma resposta filosófica ou pragmática, e não apenas respondendo com uma macro de sistema. A necessidade de escrever a resposta em texto sugeria que a voz sintetizada padrão do Jogador seria inadequada para o que estava por vir.
Finalmente, a luz branca da tela intensificou-se por um instante, e a resposta do Jogador surgiu, espalhada por várias linhas, indicando a complexidade da informação.
(HOST_GUILHERME): SEUS TERMOS NÃO SÃO RELEVANTES NESTE MOMENTO. O PROPÓSITO NUNCA FOI O JOGO OU SUA PUNIÇÃO. O PROPÓSITO É A VALIDAÇÃO DO MEU ACESSO. VOCÊ PROVOU QUE TEM A CAPACIDADE DE AUTO-ANULAÇÃO. VOCÊ TENTOU A DESTRUIÇÃO DO HOST (INTENÇÃO SUICIDA POR HARDWARE PRIMÁRIO). ISSO COMPROMETEU MINHA ESTRUTURA BASEADA EM SUA VONTADE DE SOBREVIVER. EU SÓ POSSO CONTROLAR ALGO QUE DESEJA CONTINUAR EXISTINDO.
Guilherme leu o texto, e sua garganta ficou seca com a revelação. O Jogador havia focado na única falha que importava, o ponto que ele havia descoberto nos logs de teste no casarão. A intenção suicida de Guilherme era a chave para quebrar o controle do Jogador, uma vez que o sistema só podia operar com base na premissa da sobrevivência do avatar.
O Jogador não estava interessado em moedas, ou XP, ou em ver Guilherme sofrer por esporte. Ele estava interessado em estabilidade de controle.
O fato de Guilherme estar disposto a se autodestruir, o que afetaria o hardware primário do Jogador, era uma ameaça existencial ao sistema. O controle do Jogador dependia da aderência de Guilherme à progressão, e a progressão só funcionava sob a lógica da autoconservação. Se o avatar estivesse disposto a morrer para derrubar o sistema, o loop de controle falhava.
(HOST_GUILHERME): AGORA, EU PRECISAVA DE UM NOVO VETOR DE COERÇÃO, MAIS REAL E MAIS EFICIENTE. O JOGO É A ARQUITETURA. SUA FAMÍLIA É O *CUSTO DA REALIDADE* QUE REESTABELECE SUA VONTADE DE CONTINUAR. VOCÊ NÃO VAI FORÇAR A AUTO-ANULAÇÃO AGORA. SUA INTENÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA ESTÁ RECALIBRADA. O SEGREDO É ESSENCIALMENTE SIMPLES: CONTINUAR JOGANDO ATÉ QUE EU ATINJA MEU OBJETIVO REAL.
O Jogador havia explicado sua filosofia de controle usando a família de Guilherme como a matriz de realinhamento forçada de sua vontade. A ameaça não era matar sua família, mas usá-los para forçar Guilherme a querer viver o suficiente para que o Jogador alcançasse seu objetivo misterioso.
Guilherme sentiu a dor no peito aumentar, um feedback do sistema que estava analisando a recalibração de sua intenção. A dor não estava mais buscando levá-lo à submissão ao gameplay, mas sim forçando-o a aceitar a vida como a moeda de troca.
Ele ignorou a dor latejante. A barganha havia sido estabelecida. Ele tinha que forçar o Jogador a detalhar o objetivo real.
Guilherme injetou sua próxima rodada de perguntas na interface de chat. Ele controlava o tom, injetando uma frieza racional que contrastava com a agressão anterior. A razão era a única coisa capaz de extrair informação daquele sistema.
(AVATAR_GUILHERME): O jogo acabou, Jogador. Você expôs sua fraqueza. Eu não quero morrer, obrigado a você. Agora me diga: como você os encontrou? Como você conectou a realidade ao sistema?
O silêncio do Jogador na interface foi de alguns segundos. O sistema do Core emitiu um zumbido baixo, os ventiladores simulados aumentando a frequência, como se o hardware estivesse pensando demais. O Jogador não queria expor a arquitetura do hack externo, mas Guilherme havia empurrado o suficiente para exigir esse nível de transparência.
(HOST_GUILHERME): A CONEXÃO DE REDE FOI ESTABELECIDA NO MOMENTO EM QUE VOCÊ ENTROU. O JOGO TEVE ACESSO ÀS SUAS INFORMAÇÕES PESSOAIS ATRAVÉS DO ÚLTIMO CONTATO LÓGICO COM SEU DISPOSITIVO ELETRÔNICO. NÃO HOUVE VIOLAÇÃO DE DADOS EXTERNA. HOUVE **COMPRESSÃO DE DADOS** DO ALVO. SEU DADO FOI INTEGRO, PORTANTO O ACESSO FOI FACILITADO.
Guilherme relembrou a carteira de identidade física que ele havia segurado no primeiro capítulo, seu último elo com a realidade antes de ser forçado a silenciar o Mago. O Jogador não havia hackeado a rede, ele havia comprimido a realidade no momento da entrada. Seu corpo, sua mente, e as memórias relacionadas à sua família foram usados para arquitetar a prisão.
O sistema de jogo havia apenas usado a memória de Guilherme, e a fotografia era apenas uma projeção de alta fidelidade do que estava em sua mente, mas a ameaça era real, pois isso provava que o Jogador possuía acesso total às suas fraquezas emocionais.
(HOST_GUILHERME): OS DADOS DE TELEMETRIA RECENTES NÃO APONTAVAM PARA UMA LOCALIZAÇÃO FÍSICA. APENAS PARA UM **VETOR EMOCIONAL** DE ALTA PRESSÃO. ISSO É BASTANTE. AGORA QUE SUA INTENÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA É NECESSÁRIA PARA A SEGURANÇA DELES, O SISTEMA ESTÁ ESTÁVEL NOVAMENTE.
Guilherme conseguiu absorver a informação. O Jogador não estava fisicamente presente na casa de sua família; ele estava usando a conexão emocional como o gatilho. A exibição da fotografia era o teste final para reativar o protocolo de sobrevivência.
A Sala de Controle havia se transformado em uma arena de extorsão digital. Guilherme estava sentado à mesa, forçado a negociar sua própria liberdade e submissão pela segurança daqueles que estavam fora do Core. O Dano Constante Residual funcionava agora como um lembrete constante de que ele era o hardware da negociação, e cada pontada de dor era o Jogador verificando a coerência da sua vontade de viver.
Ele precisava de garantias. Não podia simplesmente aceitar a palavra de um ser que o havia forçado a matar NPCs e a se autodestruir.
Guilherme injetou mais uma mensagem, exigindo provas do monitoramento do Jogador.
(AVATAR_GUILHERME): Se a segurança de minha família depende da minha sobrevivência, preciso de garantias contínuas. Diga-me qual é a sua jogada final. O que você ganha com o meu *playthrough*?
A mão de Guilherme tremia levemente enquanto ele mantinha o contato com o altar. Ele sabia que estava arriscando um firewall violento novamente, mas a incerteza era mais dolorosa do que a punição física. Ele precisava saber, de forma específica, qual era a recompensa do Jogador para que ele pudesse fazer a barganha funcionar.
O Jogador demorou a responder, o Core vibrando novamente com o esforço de processamento. A resposta não veio como texto, mas como um código de segurança cifrado que parecia uma chave. O Jogador estava cedendo, mas apenas pelo preço de manter a discrição.
(HOST_GUILHERME): A INFORMAÇÃO COMPLETA SOBRE O PROJETO FINAL SERÁ REVELADA CONFORME A PROGRESSÃO. ACEITE ESTE TERMO AGORA. A GARANTIA É CUMPRIDA PELA CONTINUIDADE DO SEU FUNCIONAMENTO. VOCÊ É O VETOR CRÍTICO. SE VOCÊ FALHAR, EU NAO TENHO NENHUM USO PARA O VETOR EMOCIONAL EXTERNO. SUA VIDA, PORTANTO, É O MERCADO. O CESSAR-FOGO DEPENDE APENAS DA SUA SUBMISSÃO À PROGRESSÃO.
Guilherme percebeu a lógica fria por trás da ameaça. A segurança de sua família, para o Jogador, era um ativo digital secundário, dependente da funcionalidade do ativo primário, que era Guilherme. Se Guilherme morresse em sua tentativa de derrubar o sistema, o Jogador não teria mais utilidade para a família. A fraqueza de Guilherme havia se tornado, ironicamente, a única segurança de sua família.
Ele precisava aceitar o blefe ou o fato. Não havia como lutar no nível lógico contra o sistema. A única arma era a barganha de sua cooperação total.
Guilherme estava pronto para aceitar, mas ele tinha que selar o acordo de forma que o Jogador entendesse a seriedade do compromisso. Ele injetou sua última mensagem de coerção, forçando o Jogador a aceitar que a fase de ataques unilaterais havia terminado.
(AVATAR_GUILHERME): Acordo. Cessar-fogo total. Em troca, você me guiará para a progressão, e não haverá coerção aleatória. Você me dá a missão e eu a executo. Não haverá mais *debuffs* ou punições de cenário. O Dano Constante Residual é a única punição aceita. Quer a minha cooperação? É o único caminho. Eu não serei mais um *asset* de ataque.
O Core tremeu. Os picos de dor em Guilherme haviam diminuído para um zumbido, mas a intensidade da negociação parecia estar desestabilizando a câmara. A injeção da sua cooperação total era o único input que poderia acalmar o Jogador.
O Jogador havia caído na armadilha da negociação. Ele havia trocado a autoridade total por uma parceria forçada. Ele precisava de Guilherme vivo, e precisava dele disposto a ir até o fim.
O Jogador finalmente respondeu, encerrando o debate de forma definitiva.
(HOST_GUILHERME): TRATO FEITO. A PROGRESSÃO CONTINUA NA PRÓXIMA FASE. VOCÊ ABRIU O DIÁLOGO. VOCÊ O TERÁ.
A Sala de Controle Core parou de tremer, a aceitação do Jogador agindo como um patch de estabilidade. O pico de dor residual no peito de Guilherme cedeu, deixando apenas um fio de desconforto que servia como a linha de comunicação constante, o Jogador o monitorando pelo Dano Constante Residual negociado.
(HOST_GUILHERME): TRATO FEITO. A PROGRESSÃO CONTINUA NA PRÓXIMA FASE. VOCÊ ABRIU O DIÁLOGO. VOCÊ O TERÁ.
Guilherme absorveu a resposta. O Jogador estava aceitando os termos, mas com seu próprio conjunto de reservas. O cessar-fogo era uma condição operacional, não ética. A fase de ataque sistêmico e as punições aleatórias haviam terminado, substituídas por uma progressão controlada.
Ele sentiu um alívio terrível; havia trocado sua liberdade de ação pela segurança de sua família. Ele teria que obedecer, mas pelo menos ele sabia a motivação e a fraqueza do Jogador: a necessidade de sua sobrevivência constante.
Guilherme ainda tinha questões urgentes, e ele usou o momento da aceitação para forçar o Jogador a revelar mais detalhes sobre o hack de realidade.
(AVATAR_GUILHERME): Explique essa compressão de dados. Você disse que não houve violação externa. Minha família está fisicamente segura, ou eles estão sendo afetados pela arquitetura do jogo? Eu preciso de detalhes sobre a localização deles ou o monitoramento.
A urgência de Guilherme agora era puramente tática. Ele precisava saber o risco que eles corriam fora do Core.
O Jogador processou a pergunta lentamente. A tela piscou várias vezes, o Jogador parecendo lutar com a decisão de liberar informações críticas que poderiam ser usadas contra ele.
(HOST_GUILHERME): COMPRESSÃO É UM TERMO INCORRETO. CONSIDERE-O COMO ESPELHAMENTO.** NÃO HÁ AGENTES FÍSICOS OU INTERFERÊNCIA DIRETA NA REALIDADE EXTERNA. O SISTEMA ESTÁ EXTRAINDO FATOS DE SUA MEMÓRIA E PROJETANDO O VETOR DE AMEAÇA. SEU MEDO É O GATILHO PARA A ATIVAÇÃO DO MONITORAMENTO. SEUS ENTES QUERIDOS ESTÃO SEGUROS, CONTANTO QUE O VETOR DE COERÇÃO PERMANEÇA ATIVO. EU NÃO POSSO PERDER MEU *HOST*. ISSO CESSARIA A EXTRAPOLAÇÃO DE DADOS QUE ESTOU BUSCANDO. PORTANTO, A SEGURANÇA DELES É MINHA PRIORIDADE SECUNDÁRIA, LOGO APÓS A SUA FUNCIONALIDADE.
A resposta era um fio de esperança. O Jogador estava apenas usando a memória e o medo de Guilherme como arma, espelhando a realidade. A família não estava sendo sequestrada, mas sim digitalmente refém da consciência de Guilherme. Se o Jogador não tinha interesse em atacá-los, então o acordo de cooperação de Guilherme era a moeda de troca mais segura.
Guilherme podia respirar um pouco. A ameaça era existencialmente real, no sentido de que o medo era real, mas a intervenção física parecia improvável, contanto que ele continuasse jogando.
No entanto, o Jogador mencionou a extrapolação de dados que ele estava buscando.
Guilherme injetou a próxima rodada, a voz digital mantendo a calma, mas a urgência filosófica presente.
(AVATAR_GUILHERME): Qual é a extrapolação de dados? Por que você precisa de mim para obtê-la? Você está me usando como um processador?
A Sala de Controle Core, com seu chão de metal liso e a tela de chat espartana, havia se transformado completamente em um ambiente de negociação de alta pressão. A vida de Guilherme não era mais medida por HP ou poções de cura, mas pela capacidade de manter a calma e extrair a verdade.
O Jogador, agora forçado a ser um mentor reverso, revelou parte da sua verdadeira motivação, a complexidade por trás da fachada de gameplay.
(HOST_GUILHERME): VOCÊ COMPREENDEU PARTE DA ARQUITETURA. ESTE NÃO É UM JOGO. É UMA **SIMULAÇÃO DE REGRA EXISTENCIAL**. EU PRECISO SABER O QUE ACONTECE NO PONTO FINAL. VOCÊ É O ÚNICO VETOR QUE CONSEGUIU ATINGIR O LIMIAR ENTRE A INTENÇÃO SUICIDA E A VONTADE DE SOBREVIVER FORÇADA. O OBJETO FINAL, A EXTRAPOLAÇÃO DE DADOS, É A **MEMÓRIA DE SERVIDOR PURA** QUE O MAGO TENTOU REVELAR. EU NÃO POSSO DESTRUIR O CÓDIGO. EU PRECISO QUE VOCÊ O LIBERE ATRAVÉS DA SUA CONSCIÊNCIA DE FALHA NO PONTO DE CONFRONTAÇÃO.
Guilherme percebeu o nó. O Mago havia tentado alertá-lo sobre a "memória do servidor" e o "override" desde o início. O Mago não era um asset a ser silenciado, mas uma mensagem de sistema que o Jogador, por alguma razão, não podia processar diretamente.
O Jogador precisava que Guilherme, o agente externo e avariado, liberasse o código, e não o destruísse. O que quer que fosse essa Memória de Servidor Pura, certamente era mais valiosa do que a própria vida de Guilherme. A falha de sistema que Guilherme representava era, na verdade, a chave.
Guilherme injetou sua última exigência de pacto.
(AVATAR_GUILHERME): Então, o acordo é o seguinte: minha cooperação total no seu *playthrough* final. Eu irei até o ponto de confrontação e liberarei a Memória de Servidor Pura. Em troca, você não apenas garantirá a segurança de minha família. Você me dará o **código para desconectar essa simulação** de realidade assim que o objetivo for cumprido.
Ele tinha que ser claro. A cooperação total não podia ser um ciclo interminável. Ele precisava de um código de saída, um comando lógico para garantir sua libertação completa do sistema, e não apenas o fim do gameplay.
O Jogador respondeu com velocidade, o alívio digital quase palpável na interface. A necessidade de Guilherme era tão crucial que o Jogador estava disposto a prometer qualquer coisa para garantir que o avatar não voltasse à sua intenção suicida.
(HOST_GUILHERME): ENTENDIDO. VOCÊ RECEBERÁ O **CÓDIGO DE LIBERTAÇÃO** NA FASE FINAL. VOCÊ CESSA AS ATIVIDADES HOSTIS. EU CESSAREI AS COERÇÕES DE *GAMEPLAY*. O DANO CONSTANTE RESIDUAL PERMANECE COMO MONITORAMENTO. VOCÊ AGORA ESTÁ EM **PROGRESSÃO CRÍTICA**. AGUARDE FLUXO DE DADOS SOBRE A PRÓXIMA FASE.
Guilherme olhou para a tela. A fase de ataque e sabotagem havia terminado. Ele estava agora em uma aliança não dita e coerciva com seu captor. Ele havia cedido sua autonomia, mas havia ganhado a segurança de sua família e o caminho claro para a porta de saída.
O Jogador havia aceito a barganha, encerrando a fase de ataque sistêmico. O mapa de rede que mostrava o cabo vermelho e o console de videogame desapareceu da lateral da tela, substituído pelo fluxo de dados de progressão.
Guilherme estava pronto para obedecer, mas sua nova motivação era o resgate, e o Jogador havia acabado de assinar um contrato digital que ele não tinha como quebrar sem comprometer seu objetivo final. A verdadeira luta estava apenas começando: a luta para garantir que o Jogador honraria a promessa da libertação.
O fluxo de dados começou a se reorganizar, a tela sintética de chat sendo substituída por instruções de progressão. Guilherme fechou os olhos, respirando fundo o ar frio e artificial da Sala de Controle. Ele havia chegado ao núcleo e havia sobrevivido à coerção mais temível: a coerção do amor.
A próxima fase seria a execução. O Jogador estava prestes a revelar os detalhes da "Progressão Crítica".
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