Capítulo 6: Primeiro Quadro

O estúdio de ensaio é um galpão convertido no Itaim Bibi, uma antiga fábrica de tecidos que o setor de marketing da Veloso comprou há três anos para projetos criativos. O espaço tem cinco metros de pé direito, paredes de cimento queimado e um floor de concreto polido que reflete a luz artificial como espelho. Não há mobília. Não há decoração. Há iluminação, câmeras e duas mesas de controle conectadas a monitores gigantes que mostram o que as lentes captam em tempo real.

A equipe já está instalada quando eu chego. Seis pessoas. A diretora de arte, uma mulher chamada Sônia que tem dezassete anos de experiência em editoriais de moda e uma postura que não muda nem quando você a insulta. Duas assistentes de produção com pranchetas e fones. Uma maquiadora, cara e silenciosa. Um fotógrafo que não diz uma palavra e só mexe no equipamento.

Rodrigo já está lá.

Ele entrou dez minutos antes de mim, sem cumprimentos, sem explicação. Sentou numa cadeira de plástico que a equipe improvisou no canto do set e ficou ali, parado. Com a postura de quem espera que o problema se resolva sozinho. Ele vestiu uma camisa preta que não era da marca, mas combinava com o que a Sônia planejou. Calça escura. Sem tênis. Sem acessório. A roupa de quem quer parecer que não se importou -- e se importou.

Eu entro pela porta lateral. Não há recepção. Não há ninguém para me anunciar. A Sônia me vê, olha para o relógio, e fala: "Temos uma hora de luz natural pela janela. Depois disso, tudo é artificial. Vamos fazer o melhor."

Fico em pé ao lado de Rodrigo. Não muito perto. Não muito longe. A distância que um noivo de aparência casual escolhe ficar ao lado da noiva em fotos de ensaio.

"Antes de começarmos", diz a Sônia, "eu preciso deixar claro o que a Dona Helena quer. Não é um ensaio de noivado no sentido convencional. Não quero a pose de revista, mão na cintura, sorriso forçado. Quero algo que pareça espontâneo. Mas que seja espontâneo calculado. Vocês entendem a diferença?"

Eu entendo. Todo mundo aqui entende.

"O ângulo principal é frontal," continua a Sônia, "ambos de frente para a câmera, mas com o corpo levemente virado um para o outro. Não muito. Suficiente para sugerir proximidade sem forçar. O olhar de vocês dois deve apontar levemente acima da lente, como quem olha para algo no horizonte. Entendi? Vocês estão olhando para algo que só existe para vocês dois."

Entendi. Isso é a técnica básica de fotografia de casal. Fazer com que o assunto olhe para fora do enquadramento cria a ilusão de que a conexão entre as duas pessoas é real, porque a câmera fica de fora do que elas compartilham. Funciona bem com casais de verdade. Funciona melhor ainda com casais de aluguel, porque ninguém precisa fingir olhar para além da lente.

"Quantas fotos?" pergunta Rodrigo. Pela primeira vez.

"Dezoito. Duzentas e cinquenta. A Helena vai escolher as melhores seis para o lançamento."

Rodrigo assente. Nada mais. Ele já sabe o que está fazendo. Ou pelo menos sabe que não precisa fazer nada além de ficar parado.

A maquiadora chega. Elia é uma mulher de cinquenta e poucos anos, loira curta, mãos rápidas. Ela se concentra em mim. Em Rodrigo, mal toca. Ele tem a pele que não precisa de correção. A maquiagem dele é quase invisível, uma camada fina de base e pó que Elia aplica em trinta segundos. Em mim, leva quatro minutos. O tom é o mesmo do meu rosto habitual. A Sônia não quer que eu mude. A Sônia quer que eu pareça eu, só que mais bonita.

"O segredo não é mudar, é realçar," Elia murmura enquanto trabalho, como se falasse consigo mesma. "Quem quer que mude, vai parecer que está mentindo."

O fotógrafo, um cara alto e magro chamado Tomaz, liga as câmeras. Duas Canon, ambas com lentes de 85 milímetros. A configuração é a mesma que uso quando gravava os meus vídeos no estúdio. A Sônia ajustou a iluminação para simular a luz da janela de manhã cedo. Dourada. Macia. Direcional. Nada de softbox. Nada de rebatedores. Só luz e concreto e a tentativa de criar algo que pareça casual.

"Primeiro take," diz Tomaz.

Eu e Rodrigo nos posicionamos como a Sônia descreveu. Corpo levemente virado um para o outro. Olhar acima da lente. Eu não toco nele. Não há contato físico no primeiro take. A Sônia quer construir a intimidade por etapas.

O clique. Tomaz tira doze fotos em dois segundos.

"Boa," ele diz. "Mas você, Isabella, está muito parada. Relaxe o ombro esquerdo. Deixe o peso cair para o lado de quem está mais perto dele."

Eu ajusto. O ombro relaxa. O peso cai. Por um segundo, a pose muda de performática para natural. Não é natural de verdade, é o resultado de uma instrução técnica que eu sei executar. Mas o resultado visual é convincente.

Tomaz verifica a tela. "Assim está melhor. Mas não de repente. Mantenha a posição. A gente trabalha em camadas."

A segunda rodada de takes dura quarenta minutos. Sônia e Tomaz trabalham em sincronia. Cada instrução é precisa. "Um centímetro mais perto." "Olhar para o ponto que indiquei." "Não sorria. Sorriso vem em três." "Três. Agora." "Perfeito. Não mexa."

Rodrigo obedece. Ele obedece com a eficiência de quem já executou algo semelhante antes. Não sei se ele já fez ensaio de fotos ou se está simplesmente lidando com ordens de uma forma que a tornou rotina. Em qualquer caso, ele não gasta energia reclamando. Não gasta energia justificando. Gasta energia apenas o necessário. É econômico, e isso é impressionante.

Durante o intervalo de quinze minutos, eu me encosto na parede e bebo água. A garrafa que trouxe é de 500 mililitros. Bebo metade. O resto fica no chão, ao lado de uma cadeira de plástico que ninguém vai sentar.

Rodrigo está do outro lado do estúdio. De costas para mim. Encostado na parede de cimento queimado. Os olhos fixos num ponto que não consigo ver. Ele está mexendo no celular. Não de forma distraída. De forma intencional. Desliza para cima. Desliza para baixo. Abre uma tela. Fecha. Abre outra. Fecha. Repete.

Pergunto a mim mesma o que ele está fazendo. A resposta aparece quando ele passa por mim, no caminho para o banheiro. O celular está com a tela virada para baixo. Não para esconder notificações. Para esconder o que está na tela de trás. Na tela de trás não há fotos. Não há álbuns. Não há galeria de memórias. Há apenas o essencial. Mensagens de trabalho. Calendário. O banco. Nada mais.

Eu sei que é impossível tirar uma foto de tela de celular de longe. Mas eu não preciso de uma foto. Eu só preciso do que vejo por três segundos. Três segundos são o bastante.

Não há fotos de família. Não há fotos de viagem. Não há fotos de infância. Não há absolutamente nada que não seja estritamente utilitário. Para um homem de trinta e dois anos, CEO de uma das maiores empresas de moda do Brasil, filho de quem fundou a empresa, irmão de quem é famoso nas redes, o celular é uma coleção de zero memórias. Zero.

Eu nunca vi alguém assim. Nunca. Até os influenciadores mais discretos têm pelo menos algumas fotos. Uma com os pais. Uma de viagem. Uma de um animal de estimação. Tudo é evidência de que existiu algo antes de agora. Rodrigo não tem evidência. Ou o que tem não está visível.

Letícia aparece no estúdio às onze e trinta. Eu não a esperava. Ela não me avisou. Apareceu pela porta lateral, a mesma por onde eu entrei, com uma pasta e um sorriso que não era de surpresa. Letícia não sorri de surpresa. Sorri de controle.

"Como está indo?"

"Como tudo aqui. Funcional."

"Você está muito profissional."

"Sou."

"Não é a mesma coisa."

De fato. Não é a mesma coisa. Ser profissional é fazer o trabalho. Ser profissional num contexto em que você odeia o trabalho é fazer o trabalho por dinheiro. Ser profissional num contexto em que o trabalho é a única opção é fazer o trabalho por necessidade. Eu sou profissional porque é o que sei fazer. Rodrigo é profissional porque é o que ele é. As duas coisas se parecem por fora e são completamente distintas por dentro.

Letícia senta na cadeira de plástico e observa a produção. Sônia a recebe sem surpresa. Letícia já conhece Sônia de anos de estúdio. As duas já negociaram orçamentos juntos, já dividiram equipamentos, já trabalharam no mesmo editorial. A familiaridade é visível. Elas não se olham. Sabem o que cada uma está pensando.

Durante os últimos dois takes, Letícia observa. Eu vejo. Ela não está ali por curiosidade. Está ali para avaliar. Para medir. Para determinar se eu estou conseguindo executar o plano sem desmoronar.

Quando o último take termina, Tomaz verifica as imagens. A Sônia se aproxima. Fica em silêncio por trinta segundos.

"As seis primeiras estão boas. As outras doze precisam de ajustes."

"Quais ajustes?"

"O casal precisa parecer mais confortável. Agora parecem dois estranhos fazendo um trabalho. Precisam parecer dois pessoas que já escolheram um ao outro. Não precisa ser romântico. Precisa ser real."

Ela olha para mim. Eu entendo.

Ela olha para Rodrigo. Ele entende também.

"No próximo take," diz Sônia, "não vou dizer o que vocês fazem. Vou dizer onde vocês estão. Vocês decidem como se sentem."

Ela aponta para um canto do estúdio. Havia um banco de madeira que a equipe trouxe como adereço. Pequeno. De dois lugares. Sólido. Real. "Sentem-se aqui. Não se toquem. Só fiquem. Eu vou tirar fotos em cinco minutos."

O próximo take é o mais estranho da manhã.

Eu e Rodrigo sentamos no banco. Não nos tocamos. Não nos olhamos. Cada um com os braços ao lado do corpo, com as mãos nos joelhos. Eu olho para a parede à minha frente. Ele olha para o ponto exatamente oposto. Tomaz clica. Clica. Clica. O silêncio no estúdio é absoluto. Sônia não fala. Letícia não fala. Ninguém fala. Cinco minutos de silêncio, com um fotógrafo disparando a cada quinze segundos.

No minuto três, eu me viro levemente para ele. Ele não se move. No minuto quatro, ele me olha. Não como quem olha uma colega de trabalho. Não como quem olha alguém que ele processou. É um olhar neutro. Mas é um olhar. É a primeira vez, nestas doze horas que nos vimos, que ele me encara de verdade. Sem desvio. Sem cálculo. Sem o trabalho de esconder ou mostrar algo. Apenas olho por olho.

Eu entendo o que está acontecendo. O contato visual é a ferramenta mais perigosa da fotografia. Quando duas pessoas se olham num enquadramento, o espectador não sabe se é real ou não. O espectador vê o que a lente mostra. E a lente mostra dois olhos se encontrando. Isso é mais convincente do que qualquer toque. Mais convincente do que qualquer sorriso. Olhar é o que as pessoas fazem quando veem alguém que existe.

Tomaz clica. Sônia vê a tela. "Esta. Esta. E esta também." Três fotos. As melhores da manhã.

A sessão termina ao meio-dia. A equipe guarda o equipamento. A Sônia manda as seis fotos iniciais para a Helena via criptografia. Nada vai para as redes ainda. Nada vai a lugar nenhum. As imagens vão para um servidor privado que só a Helena e o departamento de branding da Veloso têm acesso.

Letícia me acompanha até a porta. No corredor, ela fala: "O Rodrigo é o homem mais profissional que você já trabalhou. E o mais difícil também."

"Porque?"

"Porque ele não tem roteiro. Você tem roteiro. Ele tem silêncio. E silêncio é o único conteúdo que ninguém sabe como manipular."

Devolvo o sorriso. Não é um sorriso de concordância. É o sorriso de quem ouve algo verdadeiro e não quer admitir.

"Senta para almoçar?"

"Não. Tenho que voltar ao escritório."

"E o que tem lá?"

"Não tem nada. Por isso vou."

Letícia não insiste. Sabe que mentir é o que eu faço melhor do que trabalhar no ensaio.


Voltar ao escritório é uma mentira. O escritório está vazio. Os funcionários da Veloso sabem que eu não trabalho lá. O elevador de vidro sobe até o décimo quarto e desce. Ninguém me vê. Ninguém me pergunta. O prédio funciona como uma máquina de vidro e aço que não precisa de ninguém além de quem já está dentro dela.

Sentada na minha mesa, abro o notebook. As seis fotos estão sendo processadas. Ainda não estão disponíveis. Sônia prometeu que a Helena escolherá as melhores seis hoje à tarde e que a publicação será amanhã de manhã, às oito, com toda a infraestrutura de relações públicas da Veloso posicionada para o lançamento.

A expectativa é alta. Tomás já posts nas redes uma dica. A rumoroteca está ativa. Os seguidores de Isabella já sabem que algo está acontecendo. As marcas já sabem. Hugo já sabe.

Abro o celular e acesso o perfil de Rodrigo. Ele não tem posts. Zero. Zero publicações. Zero stories. Zero destaques. É uma conta inexistente para uma pessoa que deveria estar na boca do mundo. A bio diz apenas o nome da empresa. Nada de localização. Nada de frase. Nada. A conta é uma página de presença, não uma presença de verdade.

É mais um dado. O mesmo que vi no celular dele esta manhã. Zero memórias. Zero identidade digital. Zero.

Guardo o celular. Abro o contrato que assinei no dia anterior. Releio a cláusula de sigilo. A cláusula que impede que eu mencione este acordo a qualquer pessoa. A cláusula que transforma cada momento que eu viver com Rodrigo em propriedade da Veloso Group.

Seis horas passam. O dia é lento. O escritório é vazio. O contrato está na mesa. O celular está na gaveta. O estúdio está em outra parte da cidade. As seis fotos estão em algum servidor, sendo selecionadas por Helena.

Às treze e quarenta, letícia me liga.

"As fotos estão boas. A Helena escolheu quatro. Vão ao ar amanhã."

"Quatro e não seis?"

"A Helena acha que menos é mais. Ela vai postar duas hoje à noite, como pré-lançamento. Para criar expectativa."

"Duas."

"Duas. E amanhã, quatro. Um total de seis. O mesmo número que a Sônia sugeriu."

"Legal."

"Sabe o que é legal? O Rodrigo está sendo o parceiro mais cooperativo que já vi em toda a minha vida profissional. Ele não fez uma pergunta desnecessária. Não fez um comentário. Não se queitou. Assentiu, executou e saiu. É a pessoa mais eficiente que conheci."

"Ou é a pessoa que não tem nada a perder."

Letícia não responde.

Ao final do expediente, eu desço no elevador. O lobby do prédio está vazio. A recepcionista já foi embora. O portão de vidro está aberto. A rua está molhada. A chuva começou sem que eu tivesse notado. Não é uma tempestade. É uma garoa fina. São Paulo do outono. Aquela que não te molha de verdade, mas te convence de que está chovendo.

Caminho até a esquina. O ônibus 4070 demora oito minutos. Eu conto. O tempo é o que me resta.

No ponto, espero. O celular está na mão. As redes estão abertas. O Instagram já mostra o primeiro sinal: uma publicação da Veloso Group, ainda sem imagem, apenas o logotipo e as palavras "Algo novo. Amanhã. 8h." As curtidas já estão subindo. As comentários já estão aparecendo. Os seguidores estão curiosos. Os analistas estão especulando. O algoritmo já está trabalhando.

Eu entro no ônibus. Não há assentos. Fico no fundo, perto da porta. O ônibus está quase cheio. Pessoas comuns. Pessoas que não sabem quem sou. Pessoas que não sabem quem eu sou. Ou que sabem e não se importam. O ônibus se move. Eu fico quieta. Dezoito minutos até casa. Dezoito minutos de silêncio.

Em casa, deixo a porta aberta. A sala está no mesmo estado de sempre. A cama feita. A cozinha limpa. O estúdio vazio. A vida que eu construí para mim mesma, quando ninguém está olhando.

Abro o celular. A publicação da Veloso Group às onze da noite tem uma imagem. Não é a minha. É o logotipo da marca sobre fundo preto. Mas há algo na imagem que eu não havia notado. Um reflexo. No canto da imagem, quase invisível, há um reflexo de duas pessoas sentadas num banco de madeira. Não são nítidas. São borradas. Mas são duas.

Os comentários já estão explodindo. "Quem é o casal?" "É a Isabella?" "Acho que é a Isabella." "Rodrigo e Isabella noivando?" "O que será que aconteceu?" O engajamento está três vezes acima da média da marca. Os comentários são duzentos e setenta em quinze minutos. Os shares estão subindo.

Isso é o que eu fiz. Isso é o que eu fiz melhor. Montei uma fachada com precisão cirúrgica. Cada frame calculado. Cada pose ensaiada. Cada momento de intimidade fingida. Quatro imagens que vão dizer ao mundo que eu e Rodrigo Veloso estamos apaixonados. E o mundo vai acreditar, porque a imagem é convincente, porque a marca é poderosa, e porque as pessoas querem acreditar em algo bonito num mundo que não oferece.

O celular vibra. Uma notificação. As quatro fotos que a Helena escolheu vão ao ar amanhã às oito da manhã. A Veloso Group anunciou que o lançamento oficial será no próximo mês, com a nova coleção "Raízes". As quatro fotos são o pré-lançamento. O que vai vir depois é desconhecido.

Me deito na cama. Apago a luz. O teto está escuro. Os olhos se ajustam. O apartamento é pequeno. Quarenta e dois metros quadrados. Uma cozinha, uma sala, um quarto, um banheiro. Tudo que eu preciso para existir sozinha. Tudo que eu não preciso para existir com alguém.

Mas amanhã às oito, vou existir com alguém. Ou pelo menos a imagem de mim existirá com alguém. E o mundo vai ver. E o mundo vai opinar. E o mundo vai decidir. Como sempre. Como sempre fiz. Como sempre vou fazer.

Deito. O sono vem rápido. É cansaço. O corpo pede pausa. O cérebro pede pausa. A mente não. A mente continua trabalhando. Continuando calculando. Continuando medindo. Continuando projetando.

Amanhã às oito. As fotos vão ao ar. E o mundo vai mudar.

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