Capítulo 5: Assinatura
A limusine me deixa na porta do prédio de Letícia às catorze e trinta. O mesmo prédio de Vila Madalena onde o estúdio existiu durante os últimos quatro anos. As luzes do lobby estão acesas, mas só tem uma pessoa na recepção. Letícia. Sentada na única cadeira disponível, com os braços cruzados sobre uma pasta.
Não se levanta quando eu entro. Espera eu me sentar.
"Caminhou?"
"Caminhei."
"Cada minuto."
"Sim."
Ela abre a pasta. Dentro há duas pastas adicionais. Uma azul, uma preta. A azul contém a versão final do contrato com a Veloso. A preta contém a versão do processo que Rodrigo protocolou, com todas as cláusulas que podem me destruir de verdade.
"Deixa eu te mostrar a parte que importa primeiro."
Letícia vira a pasta preta e me mostra a página dois. Cláusula quatorze: indenização por danos morais. O valor é de R$ 2.500.000. A cláusula vinte e dois prevê o pagamento em prestações, o que significaria cinco anos de quitações mensais. Eu não tenho cinco anos. Não tenho cinco meses.
"Se não assinarmos, o que acontece?"
"O processo segue. A Justiça vai marcar audiência em três meses. Se condenada, paga dois milhões e meio. Se não pagar, penhora de bens. Você tem bens, Isa?"
"Tenho um carro velho, um apartamento que não consigo pagar e um estúdio que não existe mais."
"Bingo. A execução da dívida penhora tudo. E a pena criminal, se eles provarem dolo, é de dois a oito anos."
"Pena criminal por um vídeo."
"Pelo vídeo e por violação de sigilo. Duas crimes distintos. A chance de condenação criminal é baixa, mas não nula. E baixa, neste contexto, é a mesma que nula para quem está sem dinheiro."
Eu fecho os olhos. A sala de espera do prédio de Letícia é cinza. Cinza nas paredes. Cinza no sofá. Cinza na luminária de chão que pisca de vez em quando. Letícia escolheu este lugar deliberadamente. Um lugar que não promete nada.
"Hugo tem razão. Não há alternativa."
"De quem é a recomendação, de você ou de Hugo?"
"Das duas. Hugo me mandou uma mensagem. Disse que se eu te pressionar para aceitar, ele vai cortar todo o contato comigo. É uma ameaça."
"Ou é uma verdade."
Letícia não responde. Sabe que sou correta.
Eu abro a pasta azul. O contrato de nove semanas está impresso em papel 150g, o mesmo gramagem que contratos de fusão empresarial usam. Isso já diz alguma coisa. Não é um contrato de relacionamento. É um contrato de aquisição de imagem. Nove semanas de uso da minha face, do meu nome e da minha presença. Nada mais.
A primeira página diz "Acordo de Cooperação Institucional entre Veloso Group S.A. e Isabella Negrão Silva." Minha mãe escolheu esse nome. Isabella Negrão para as redes. Isabella Negrão Silva para os documentos. A distinção é pequena e importante. Negrão é o que eu vendi. Negrão Silva é quem eu sou.
As nove semanas estão divididas em fases. Semana um a três: ensaio de fotos e pré-lançamento. Semana quatro a seis: evento de lançamento oficial. Semana sete a nove: coberturas de imprensa e ativações digitais. Em cada fase, eu não tenho liberdade criativa. Cada texto, cada legenda, cada posição é aprovada por Helena Veloso pessoalmente.
"O valor," digo, "é de 450 mil."
"É."
"E não recebo nada antes do final."
"Nada."
"Então é um empréstimo com garantia de assinatura."
Letícia sorri. Não é um sorriso de empatia. É um sorriso de quem reconhece uma equação que finalmente fechou.
"O Rodrigo vai estar lá?"
"Aos sete dias. A primeira sessão de fotos."
"O que ele vai dizer pra mim?"
"Provavelmente nada. Helena pediu que ele seja educado. Nada mais."
"Legal. Polidez. O que fazer quando alguém que destruímos é educado? A gente fica mais confuso."
Letícia vira a pasta. Mostra a cláusula de sigilo.
"Você não pode mencionar este contrato a ninguém. Inclui eu. Inclui o estúdio. Inclui qualquer pessoa na sua lista de contatos. Se vazarem que é um noivado falso, a Veloso pode pedir a rescisão e a devolução integral dos 450 mil."
"Obrigado."
"Não é um elogio."
Passo uma hora lendo o contrato palavra por palavra. Não é uma leitura apressada. Não sou ingênua. Cada linha é uma corda. Se eu assinar, vou andar amarrada e não vou saber até que ponto.
Às quinze e dez, Letícia liga.
"Hugo disse que o Rodrigo vai estar no escritório dele amanhã às nove. Você pode ir?"
"Onde."
"Na sala de Rodrigo. Ele mesmo recebeu sua confirmação."
"Eu não confirmei nada."
"E agora confirmou."
Não confirmei. Mas a confirmação é uma formalidade. O contrato está na minha mão. A assinatura é o próximo passo lógico e o próximo passo lógico é tudo o que me resta.
"Hugo também disse." Letícia faz uma pausa. "Que o Rodrigo não quer isso. Que Helena forçou. Que ele é o único da família que achou a proposta absurda."
"Que importa o Rodrigo?"
"Não importa."
Durmo mal. Não é o contrato que me impede de dormir. É a pergunta que o contrato não responde. O que acontece depois de nove semanas? A assinatura do contrato termina a humilhação. Mas não termina a dívida emocional. Se eu assinar, estou dizendo a mim mesma que posso vender até aquilo que me destruiu. Que o meu valor não depende de princípios, mas de números. 450 mil. O número é bonito. A lógica é terrível.
Às seis da manhã, levanto. O apartamento está no mesmo estado. A cama feita. A cozinha limpa. O contrato está na mesa da sala, sobre a mesa de vidro, com uma caneta em cima. A caneta é preta. A tinta é permanente.
Tomoco um banho. Duzes minutos. Mais do que o habitual. Não porque preciso de limpeza, mas porque preciso de tempo. De tempo para pensar. De tempo para decidir. Do tempo que não tenho.
Vestir o mesmo terninho bege do dia anterior. O mesmo que usei para a reunião com Helena. A ironia é óbvia e eu não a evito. Se a Veloso quer consistência visual, eu dou consistência visual. Helena escolheu o bege como cor da marca. Eu vestirei o mesmo bege como sinal de que entendi a mensagem.
Caio do mesmo jeito. O mesmo motorista de Limo. A mesma Mercedes negra. O mesmo elevador de vidro que sobe até o décimo quarto andar. Desta vez, não há ninguém no escritório. Todos os funcionários provavelmente sabem quem é a mulher que vai assinar o contrato que define o destino da marca.
A porta do escritório de Rodrigo está aberta.
Ele está de pé à janela. Olhando para fora. Não para a cidade. Para algo específico que eu não consigo ver do corredor. A postura é a mesma de quem espera algo que não quer que aconteça. Ou de quem já aceitou que vai acontecer e está apenas gastando o tempo até que a realidade se materialize.
Eu entro sem bater. A porta já está aberta.
"Você é a Isabella."
Não é uma pergunta. É uma constatação. Ele não se vira.
"Sou."
Ele se vira lentamente. Rodrigo Veloso é mais alto do que eu imaginei. Mais magro também. Tem trinta e dois anos, mais ou menos. A roupa é uma camisa branca, sem gravata, mangas até o cotovelo. O tecido é de um branco que não é branco. É um tom que exige aprovação de tecelão. Os sapatos são pretos. Polidos. Sem marcas.
Ele me olha. Não com ódio. Não com hostilidade. Com uma espécie de curiosidade técnica, como quem está avaliando um objeto que recebeu e não sabe ainda se é útil ou um incômodo.
"Sentou-se com minha mãe."
"Sim."
"Assistiu o contrato?"
"Li o contrato."
"E o que achou?"
"Achei que era muito. As nove semanas."
Ele se vira de novo. Volta para a janela.
"Minha mãe achou que era o mínimo."
Silêncio. O silêncio de um homem que prefere o vidro à conversa.
"E o vídeo. O seu vídeo. Aquele que me destruiu. Você acha que foi um erro."
Ele fala isso de forma neutra. Sem ironia. Sem raiva. É uma pergunta factual, como quem pergunta "a temperatura está alta hoje?"
"Eu achava que sim."
"O que acha agora?"
A pergunta me pega de surpresa. Não esperava uma pergunta. Esperava uma acusação. Esperava um monólogo. Esperava o discurso de um homem que foi ferido e precisa fazer o outro ouvir. Rodrigo não faz nenhum disso. Ele é mais eficiente do que qualquer discurso.
"Pergunta errada."
"Por quê?"
"Pergunta certa. A pergunta errada seria 'o que acha que foi.' Pergunta certa é 'o que acha agora.' O agora é o único momento que existe. O antes é memória. O antes não conta."
Ele espera. Não se vira. Fica de costas para mim, olhando a cidade. São Paulo vista do décimo quarto andar é pequena. Os carros são pontos. As pessoas são manchas. Os prédios são blocos de cor. Tudo é reduzido. Tudo é distante. Tudo é invisível.
"Eu te vi no consultório," ele diz, sem se virar. "Dezessete meses. Você disse que eu estava apaixonado por alguém. Que eu não reconhecia isso. Que eu era o homem mais rico que conhecia e o mais sozinho também."
"Não reconhecia."
"Você estava certa."
"Eu sempre estou certa."
Ele faz um som que não é uma risada. Não é um suspiro. Algo no meio. Um som de reconhecimento.
"Você me disse que a pessoa por quem eu estava apaixonado não queria nada a ver comigo. Que eu estava inventando uma história que não existia."
"Você estava certo de ter inventado."
"Nunca inventei. Nunca."
Neste ponto, eu deveria me desculpar. Ou me justificar. Ou fazer qualquer uma das mil coisas que alguém faz quando percebe que destruiu a vida de outra pessoa por engano. Rodrigo não me dá essa opção. Ele se vira e olha para mim.
"Eu não te perdoei."
Ele diz isso como quem lê uma condição de pagamento. Fato. Condição. Sem emoção.
"Eu não te perdoei. E não vou te perdoar. Mas você vai assinar o contrato da minha mãe. E vai fingir que me ama por nove semanas. E vai fazer isso bem. Porque você é a melhor que existe nesse tipo de coisa."
Ele diz "a melhor que existe" com a mesma entonação que diria "o relatório que eu pediu." Informação útil. Sem afeto.
"Você não vai se arrepender."
"Não sei."
"Também não sei. Mas sei que vai assinar."
Ele estende a mão. Não é um aperto de mão. É um gesto de entrega. Ele oferece um lápis. Um lápis comum. De madeira amarela. Sem marca. Sem ponta de borracha. O lápis está sobre a janela de vidro que separa a sala do escritório.
"Assina."
Assino.
O lápis é pesado. Pesado demais para ser um lápis comum. O corpo de madeira é denso. A tinta é preta e seca rápido. Não borra. Escrevo o meu nome completo. Isabella Negrão Silva. O nome que Helena colocou na primeira linha. O nome que eu não uso há seis anos.
Quando fecho o contrato, Rodrigo está já se virando de volta para a janela. O momento acabou. Não houve drama. Não houve cena. Não houve nada. Apenas dois pessoas que se encontraram, que se conheceram, que se arruinaram e que agora assinaram um papel.
Ele não diz "obrigada." Não diz "desculpa." Diz nada. E é o mais honesto que qualquer um já me disse.
Volto ao estúdio às duas da tarde.
O estúdio está vazio. Dezenove mesas. Todas limpas. O computador de Letícia está desligado. O quadro branco, onde costumávamos escrever os roteiros dos vídeos, está em branco. As mesas de gravação estão sem câmeras. Os ring lights estão empacotados em caixas que os funcionários deixaram no canto, como quem guarda um instrumento musical que vai ser desmontado.
Fico na minha mesa. A mesma mesa de sempre. A gaveta da esquerda está trancada. A da direita está aberta. Dentro, um pote de canetas. Oito canetas. Duas pretas. Duas azuis. Uma vermelha. Uma verde. E quatro que não sei a cor. Desbotadas. O tempo tirou a cor. Restou o plástico.
Sentada na cadeira. A cadeira que comprei numa lixeira há cinco anos. A cadeira que não tem encosto. A cadeira que fez as costas de Letícia sofrerem de hérnia de disco no segundo ano. O encosto de verdade foi algo que nunca existiu.
Abro a gaveta da direita. Pego a carta.
Não é a primeira carta. É a décima terceira. As outras doze estão empilhadas na gaveta da esquerda, sob uma pilha de canetas velhas e um caderno que não abro mais. Cada carta é de uma seguidora. Cada seguidora é uma mulher. Cada mulher é alguém que assistiu um dos meus vídeos e tomou uma decisão. A decisão de sair. A decisão de romper. A decisão de parar de sofrer.
Pego o envelope. É de papel creme. Tamanho A4, dobrado. No envelope, escrito à mão: "Para Isabella, a mulher que me salvou. Obrigada. - Marina, 34 anos, Curitiba."
Abro o envelope. A carta é de duas páginas. Letra pequena. Dedicada. As palavras são poucas, mas cada uma tem o peso de quem escreve o que não consegue mais carregar sozinha.
Marina escreve que o marido a humilhava em público. Que ele cortava seus amigos. Que ele controlava suas finanças. Que o último ano foi o pior, quando ele a ameaçou de tirar a custódia dos filhos se ela tentasse sair. Que ela assistiu um vídeo meu sobre "sinais de abuso que não são óbvios." Que no mesmo dia, ela conseguiu emprego. Que no mês seguinte, abriu uma conta bancária só dela. Que no terceiro mês, ela se separou. Que os filhos ficaram com ela. Que agora, dois anos depois, ela está feliz. Que agradece. Que a carta demorou para ser escrita porque ela não conseguia encontrar palavras suficientes. Que "obrigada" não é o bastante.
Li duas vezes. A segunda leitura foi mais lenta. As palavras não mudaram. A mão mudou. Minha mão tremeu. Não sei por quê. Não tremi desde a noite em que o celular secou no carro.
A carta não é uma carta de fã. É uma carta de sobrevivente. Marina não me segue por entretenimento. Ela me seguiu para sobreviver. E eu, ao invés de dar a ela uma ferramenta, dei a ela uma arma.
É a mesma coisa. Talvez. Não sei. O que sei é que, por nove semanas, vou fingir amar um homem que eu não amo. Vou sorrir para câmeras. Vou segurar a mão de alguém que me destruiu. Vou me tornar personagem do próprio contrato. E Marina, enquanto isso, vai estar em Curitiba, fazendo café da manhã para os filhos, sem saber o que está acontecendo.
Assino o contrato com a caneta preta. A tinta seca rápido. Não borra. O nome aparece nítido. Isabella Negrão Silva.
Guardo a carta de Marina na gaveta. Fecho a gaveta. Tranco a gaveta.
Estou sozinha. O estúdio está vazio. Mas o escritório de Helena está cheio. O contrato está assinado. As nove semanas começam amanhã.
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