Capítulo 7: Projeto Alpino

A convocação chegou às onze da manhã. Não por mensagem, não por e-mail. A convocação chegou como sempre chega quando Sturm quer controle total: uma mesa redonda, duas cadeiras, um homem no centro, e silêncio.

Eu estava no subsolo, tentando comer algo que não parecesse comida de laboratório, quando Pilar apareceu na porta. "Sturm te quer. Agora."

"Eu tenho aula de Biologia."

"Eu sei. Sturm não se importou."

Eu fechei a colher de plástico no potinho de quinoa e segui Pilar pelo corredor do subsolo. A porta do subsolo sempre aberta. Sempre. Como se a escola quisesse que todo mundo visse, a qualquer momento, a qualquer hora, que ali embaixo é onde os bolsistas vivem. Como se abrir a porta fosse uma afirmação. "Olhem. Aqui. A gente existe."

O primeiro degrau de mármore me recebeu. Depois o segundo. O terceiro. Cada degrau era uma promessa de algo que eu não conhecia. Sturm me esperava na Sala dos Espeiros, uma sala de reuniões que ficava no Meio do campus, no andar intermediário, entre o Cume e o subsolo. Quatro paredes de vidro que davam para o jardim dos ricos. Uma mesa de carvalho que parecia feita de uma árvore que levou duzentos anos pra crescer. Três cadeiras. Três assentos para duas pessoas e um homem que ia sentar do outro lado e decidir sobre nossas vidas.

Valentina já estava lá.

Ela não estava sentada. Estava em pé, perto da janela, observando o jardim como quem avalia uma paisagem que pertence a outra pessoa. Ela vestia o uniforme sem monograma. Sem o bordado que os Nível 1 recebem. Um uniforme básico. O tipo que os Nível 4 e 5 usam. O tipo que os bolsistas usam. E eu não havia notado. A queda de seguidores, o bloqueio do celular, a falta de dinheiro. Tudo isso a havia empurrado pra baixo. Não só no painel. No tecido também.

Ela olhou pra mim quando eu entrei. Não com desprezo. Não com raiva. Com cálculo. O mesmo cálculo que ela usava antes do Oráculo ser a arma mais poderosa da Colina. O cálculo de quem está pensando, não sentindo.

Sturm entrou no quarto minuto depois. Ele não cumprimentou. Não se sentou. Ficou em pé, atrás da mesa, como quem está pronto para declarar guerra. Ou anunciar um casamento.

"Sentem-se."

Nós nos sentamos. Eu do lado esquerdo. Valentina do lado direito. Sturm do meio. A mesa de carvalho separava os três como uma fronteira que ninguém podia atravessar.

"O Mont Blanc tem uma responsabilidade com a comunidade de Chamonix," Sturm começou. "O Projeto Alpino é um programa de caridade que envolve a escola inteira. Cada aluno de Nível 2 deve liderar uma iniciativa em dupla."

Ele pausei. A pausa durou três segundos. Suficiente pra gente entender que a escolha já estava feita.

"Vocês dois serão a dupla."

Eu olhei pra Valentina. Ela olhou pra Sturm. Sturm sorriu. Um sorriso que não chegava nos olhos e, mesmo assim, era o tipo de sorriso que funciona como ordem.

"Quando foi decidido?" eu perguntei.

"Ontem à noite."

"Por que ninguém nos consultou?"

"A consulta seria uma gentileza," Sturm disse. "Não é uma obrigação."

Valentina não disse nada. Eu olhei pra ela. Ela estava imóvel. A mão direita sobre a mesa. Os dedos retos. Sem tremor. Sem nervosismo. Como se a informação fosse um dado, não uma sentença.

"Quando começa?" eu perguntei.

"Sexta-feira. O planejamento começa hoje à noite. Vocês serão hospedados no palacete, ala dos hóspedes. Uma noite. Preciso de um plano concreto na manhã de sexta. O que será entregue, quem será beneficiado, como será executado. Tudo documentado."

"Documentado por quem?"

"Por vocês."

Valentina se levantou da cadeira. "Não aceito."

Sturm não se mexeu. "Aceita."

"Não é uma opção."

"O Projeto Alpino é obrigatório para todos os alunos de Nível 2. A recusa equivale a violação do código de conduta. No caso de bolsa integral, equivale a violação do contrato." Ele fez uma pausa. "No seu caso, Bento, equivale a cancelar a bolsa. O que cancela a cirurgia da sua mãe."

Eu não precisei olhar pra ele. A informação já me atingira. Minha mãe. A cirurgia. O contrato. A dívida. Tudo o que eu tinha aceitado quando assinei o papel no escritório dele, no primeiro dia, sem saber o que estava assinando. Sturm me deu a informação com a mesma calma com que alguém serve água. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Valentina se sentou de novo. "Eu entendo," ela disse. A voz era fria. A frieza que ela usa quando precisa esconder algo. O que ela escondia, eu não sabia. Talvez fúria. Talvez o mesmo pânico que ela sentiu ao ver o dinheiro congelado. Talvez as duas coisas.

"Você vai dormir no mesmo quarto," Sturm continuou. "Um quarto de hóspedes. Sem detalhes adicionais. Não é um castigo. É logística."

Ele se afastou da mesa. O encontro estava encerrado. A decisão, tomada. Nós éramos agora uma dupla, mesmo que nenhum de nós tivesse concordado.


O palacete do diretor ficava no extremo norte da propriedade. Um edifício vitoriano que parecia ter sido transplantado de Londres e depositado nos Alpes com uma grua. Janelas altas. Chiménes de pedra. Um jardim que não existia na natureza e foi feito por designers paisagistas que cobravam por metro quadrado. A ala dos hóspedes era um corredor longo, com três quartos de cada lado. Quarto de hóspedes. Quarto de hóspedes. Quarto de hóspedes.

Nós chegamos às vinte horas. Sturm nos deixou na porta e desapareceu. O palacete era grande e vazio. Sem funcionários visíveis. Sem presença. Apenas nós dois numa casa de duzentos anos, num lugar que pertencia a quem nunca ia nos ver.

Valentina parou no corredor. Eu parei a dois metros dela.

"Eu preciso de um quarto," ela disse.

"O quarto é só meu."

Ela me olhou. Não com raiva. Com uma irritação contida. "Não é um pedido."

"Não é uma discussão."

Ela fechou os olhos. Um segundo. Dois. Ela não conseguia processar. Não era o dinheiro. Não era o telefone. Era o lugar. O palacete. Um quarto de hóspedes. Um quarto. Um quarto.

Eu abri a porta. A sala era grande. Cama king-size. Janela grande. Vaso sanitário e banheiro com piso de mármore. Uma cômoda com toalhas dobradas. E nada mais. Sem TV. Sem Wi-Fi no banheiro. Uma cadeira. Uma mesa. Um espelho.

Valentina entrou sem tirar os sapatos. Ela se sentou na cama. A cama era grande demais. Ela parecia menor. Eu fechei a porta e fui pro outro lado do quarto, pra perto da janela.

Silêncio. O palacete fazia barulhos que o prédio principal não fazia. Trilhas de madeira. Ventilação que respirava. E o som do telefone, do outro lado da colina, que eu não conseguia acessar.

"Ninguém vai te explicar nada," ela disse pra mim. Era a mesma frase que eu tinha dito pra ela no gramado, dois dias antes. Eu não sabia que eu ia ouvir de volta. A ironia não é sempre bonita. Às vezes é só eco.

"Eu sei," eu disse.

"Houve um momento em que você pensou que isso ia acontecer?"

"Que o quê?"

"Que eu ia acabar num quarto com você. Depois de tudo que você me fez."

Eu não respondi de imediato. Ela estava certa. Eu a humilhei no refeitório. Fiz a queda dela acontecer em público, e tudo que eu queria era mostrar que o dinheiro não define quem eu era. Eu não sabia que isso ia me levar a esse quarto. Que isso ia nos obrigar a dividir espaço. Que isso ia fazer com que eu ficasse duas horas num lugar que eu não escolhi, com a pessoa que eu menos queria estar.

"Não," eu disse. "Não pensei em nada disso."

"Você pensou em alguma coisa?"

"Eu pensei que a minha vida ia continuar do jeito que eu esperava que fosse. Que eu ia jogar futebol. Que eu ia ganhar o torneio. Que eu ia me formar. Que eu ia voltar pro Rio. Que eu ia pagar a cirurgia da minha mãe. Que as coisas iam ser simples."

"Elas não são."

"Elas não são."

Outro silêncio. Desta vez não era vazio. Era pesado. Como o silêncio de duas pessoas que entenderam que o silêncio é a única coisa que ainda pertence a elas.

Valentina se levantou da cama e foi até a janela. Ela olhou pra fora. O palacete estava iluminado por lâmpadas de jardim que faziam o gramado parecer um tabuleiro de xadrez verde. A montanha atrás era escura. A neblina subia. Como sempre. A neblina dos Alpes é o único elemento da Colina que não tem dono. Ela desce toda noite. Ela não pergunta permissão.

"Eu não sei o que fazer," ela disse. Sem olhar pra mim. Pra janela. "Eu não sei quem eu sou sem o Oráculo. Eu não sei o que é ter seguidores se não tenho o meio pra ter seguidores. Eu não sei."

"Você sabe jogar futebol."

Ela virou pra mim. "O que?"

"Futebol. Você sabe. Você já viu Vicente treinar. Você já viu os drones. Você já viu os dois que ele marca e os três que ele perde. Você sabe mais do que qualquer outra pessoa aqui sobre como o time funciona. Sobre como ele é. Sobre quem eles são. Isso é algo que o Oráculo não tem."

Ela me olhou. Eu vi os olhos verdes. Eles não eram maquiados. Não havia sombra. Não havia contorno. A pele ao redor dos olhos estava normal. Real. A mesma cor de uma pessoa que dormiu mal. Ou que parou de se importar com a aparência.

"O Oráculo era o espelho," ela disse. "Sem o espelho, eu não sei quem eu sou."

"O espelho nunca foi o problema," eu disse. "O espelho não define. O espelho mostra. Você é quem define."

Ela não respondeu. Ela se sentou na janela. As pernas esticadas. Os braços sobre os joelhos. Ela parecia menor do que quando eu a vi no gramado. Mas não por causa do tamanho. Por causa da postura. O corpo de uma pessoa que está aprendendo a não ter controle.


Eu deitei na cama. Não era a cama de hotel. Era uma cama de palacete vitoriano, com travesseiros de algodão egípcio e colchão de molas que afundavam do jeito que só molas antigas afundam. Eu não consigo dormir bem nesses colchões. Prefiro o firme. Prefiro o metálico do subsolo. O metálico me lembra que eu sou o que eu sou. Aqui, o colchão me lembra que eu estou emprestado. Que eu não pertenço. Que tudo aqui é de alguém que não sou eu.

Valentina não se deitou. Ela ficou sentada na janela. Eu ouvi o vento. Eu ouvi o palacete respirar. E eu ouvi o silêncio dela. Não o silêncio vazio do gramado. O silêncio de alguém que está pensando. Rápido. Feroz. Como quem está calculando o próximo passo de um jogo que não sabe mais as regras.

Duas horas depois, ela se levantou e foi ao banheiro. Eu ouvi a água. Eu ouvi a porta se abrir e fechar. Quando ela saiu, ela estava de pijama. Pijama de seda. Não o pijama da escola. O pijama dela. De alguma mala que ela deve ter trazido, ou que alguém da equipe do palacete preparou, ou que ela tem no bolsão do uniforme e que ninguém jamais viu. Pijama de seda é um luxo que não tem preço na Colina. Nem preço. É um objeto que não se mostra.

Ela se deitou na cama. Do lado direito. Eu do esquerdo. A cama king-size era grande o bastante pra gente ficar separados. Ela de um lado. Eu do outro. Um metro de distância. O espaço de quem não quer se tocar. O espaço de quem precisa se lembrar que está no mesmo lugar por obrigação.

"Quem é você?" ela perguntou.

A pergunta foi direta. Sem rodeio. Sem calculação. Não a pergunta de uma Rainha. A pergunta de uma pessoa que, pela primeira vez em anos, não tem uma pergunta de reserva.

"Eu sou o cara que vai quebrar o time de Vicente."

Ela virou a cabeça. Os olhos verdes no escuro. Eu vi os olhos verdes no escuro, que não estavam filtrados, não estavam maquiados. Eram só olhos. Verdes e penetrantes. O tipo de olhos que veem o que é, não o que parece.

Ela me olhou.

Não com desprezo. Não com cálculo. Não com a frieza do Oráculo.

Ela me olhou.

E olhou. E olhou. E foi a primeira vez que ela me olhou de verdade. Não como o garoto que derrubou o número dela. Não como a peça que Sturm usou. Não como o problema. Não como a solução.

Como um garoto.

De verdade. Sem nome. Sem painel. Sem seguidores. Sem trono. Sem nada.

Ela olhou pra mim e não disse nada. O palacete continuava respirando. A neblina continuava subindo. E o quarto continuava sendo um quarto. De alguém que não era nem ela nem eu.

Mas a olhar.

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