Capítulo 19: O Que se Guarda
A porta do Oratório sempre se abre do mesmo jeito. Duas voltas no puxador de latão, um pequeno estalo na dobradiça do lado esquerdo, e a entrada. Sturm não conserta o que funciona. É parte da rotina.
Eu não batei. Entrei direto.
Ele estava na mesma cadeira de sempre, a mesma mesa, o mesmo relógio. Só que tinha um papel na frente que eu não conhecia. Não de conteúdo. De formato. Era fino, transparente, escrito à mão em uma letra que eu não reconhecia. Não a dele. Alguém tinha colocado ali antes. Ou depois. Sturm não mudava de cadeira. Mas o papel era novo.
"Sentou."
Eu sentei. Não me ofereceu cadeira. A diferença é que eu sentei quando quise, não quando ele quis. Isso já era uma coisa.
"Eu vim para pedir demissão."
Sturm levantou os olhos do papel. A expressão não mudou. "Demissão de quê?"
"Da bolsa. Do time. De tudo que você contratou."
Um suspiro curto. O mesmo que qualquer gerente ouve quando o funcionário fala de demissão num dia de prejuízo. "Você sabe que a bolsa é um contrato."
"Eu sei que é uma armadilha. E eu estou saindo."
"De que modo?" A voz de Sturm era sempre a mesma. Nem alta, nem baixa. Um tom de quem lê notícias em inglês para o café da manhã.
"Vou embora. O que me impede?"
"Nada." Ele espalmou as mãos sobre a mesa. "A não ser que eu me esqueça de uma palavra."
"Qual palavra?"
"Você."
Eu esperei. Ele sempre deixava a pausa trabalhar. Era o jeito dele. Deixar o silêncio falar mais que ele.
"E o que a palavra 'você' significa?"
Sturm esticou o corpo na cadeira. O couro rangeu. "Significa que a cirurgia da sua mãe depende de você estar aqui. Se você sair do Mont Blanc, o contrato de bolsa é rescindido. A conta do hospital fecha. A cirurgia acontece fora do país ou não acontece."
Ele disse isso sem levantar a voz. Sem ameaça. Sem sorriso. Apenas como quem lê o resultado de um cálculo que já sabia antes de abrir a calculadora.
Eu não disse nada. A informação não me pegou de surpresa. Eu sabia. Eu tinha sabido no primeiro dia. O que não mudava o peso de ouvir.
"Você sabe que eu sei disso."
"Eu sei que você é inteligente. E a inteligência diz a você que sair não é uma opção."
"Eu posso mandar meu pai assinar."
"E o que o seu pai vai dizer? Que a cirurgia é a prioridade? Que você não precisa do Mont Blanc? Que a cirurgia acontece num hospital público no Rio, com fila de seis meses e médicos que não falam inglês?"
Ele não falaria. Meu pai diria isso. Mas Sturm já tinha pensado antes.
"A cirurgia acontece aqui. Em dois meses. E você vai continuar jogando."
Isso não era uma escolha. Era uma sentença escrita em letra legível e assinada sem que eu tivesse dado a mão.
"Eu não sou seu."
"Não. Você é meu cliente. A diferença é pequena e você não está preparado para percebê-la." Sturm juntou os dedos, ponta a ponta, formando um triângulo. "Você é o melhor jogador que este colégio já teve. E o melhor jogador que este colégio já teve não se demite."
Eu me levantei. "A gente vai jogar a próxima partida sem mim."
"Impossível. Os Kings precisam de você para perder de modo que não pareça perda. É uma arte. E você não sabe fazer."
A sala era silenciosa. O papel transparente diante de Sturm permanecia. Eu não perguntei o que era. Algumas coisas não são para serem perguntadas.
Saí.
O corredor do Oratório era longo. As paredes de gesso mantinham o mesmo cheiro de sempre. Cera e algo que eu não sabia nomear. Uma coisa nova que não estava no manual, não nos avisos, e que ninguém explicava. O cheiro de coisa que acontece atrás de portas trancadas.
Subi até o gramado.
O gramado não era o mesmo de sempre. Estava vazio. O vento dos Alpes soprava mais fraco hoje. A grama ainda tinha o verde artificial que o palacete mantinha com irrigação subterrânea, mas as bordas estavam secas. Sem neve. Sem geada. Sem nada que lembrasse que era inverno.
Valentina não estava. Pelo menos não ainda. Eu me sentei no mesmo banco de madeira que eu usava quando precisava de silêncio. O banco era o mesmo, as tábuas do mesmo jeito. A madeira estava lascada no canto direito. Eu tinha marcado isso no primeiro dia. A marca era de alguém. Não era de mim.
Ela apareceu depois de dez minutos. Sentou do outro lado do gramado, como fazia sempre. A mesma distância. A mesma geografia de silêncio que a Festa de Máscara tinha nos dado. Não perto. Não longe. Num ponto entre que nenhum dos dois queria cruzar.
"Eu fui ao Sturm."
"Eu sei."
"Ele me mandou embora."
"Não mandou. Negou."
Valentina virou o rosto. As bochechas tinham um tom que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva. Não era medo. Era algo que eu não sabia nomear e que, no gramado vazio, eu não podia disfarçar com piada.
"Ele não sabe.", eu disse. "Ou sabe e não importa. Para ele, eu sou um recurso. Como o campo. Como a grama. Como o teleférico."
"Todos nós somos."
"Isso não é verdade."
"E o que é?"
Eu não respondi. A pergunta era mais pesada do que eu estava preparado.
Valentina levantou-se. Caminhou até o centro do gramado. O sapato de couro que ela usava deixava marcas na grama artificial. Não reais. A grama não marcava. Mas eu olhei de qualquer maneira. Era um hábito de quem nunca tinha visto nada se marcare com a presença.
"Eu tenho um segredo."
Não disse de uma vez. Disso no meio da frase, como se estivesse cortando algo no ar antes de pegar.
"O que é?"
"A raiz." Eu não precisava nomear. Ela já sabia. A descoberta da Sala dos Ancestrais, o documento genealógico, o nome do meu pai na árvore de uma família que não era a dele. Tudo isso existia entre nós como uma terceira pessoa na sala. Algo que ambos viam mas que nenhum dos dois podia tocar. "Não estou pronto pra contar."
Valentina parou. Ficou no centro do gramado como um ponto fixo no espaço. "E o que isso significa?"
"Significa que eu preciso de tempo."
"O que significa que você precisa de mim."
"Significa que eu não confio em ninguém. O que não é novidade."
"Eu não estou perguntando sobre confiança. Estou perguntando sobre segredo. O segredo é a única moeda que nós temos. Se você não for transparente, não há futuro."
"Há futuro."
"Há futuro se você falar. Sem segredo. Sem máscaras. Sem o que não foi dito." Ela olhou para o gramado vazio. O mesmo gramado que ela ocupava quando ninguém estava olhando. "Você está guardando algo que pode mudar tudo. O que não é um problema. A não ser que você decida que o problema é a verdade, e não o segredo."
"Eu não disse nada disso."
"Você disse tudo sem palavras."
O silêncio voltou. Desta vez era mais leve. Mais transparente. Eu podia ouvir os drones de filmagem no campo vizinho. O zumbido constante de quatro motores que gravavam cada movimento como se o gramado fosse um tribunal. O treino de amanhã. O Torneio Transalpeno a menos de duas semanas. A planilha de Sol. O contrato do D'Angelo. O reflexo de Sturm com os pais de Bento e de Vicente. Cada coisa era um peso. E cada peso era uma coisa que não podia ser compartilhada.
"Você tem um segredo também.", eu disse.
"Eu perdi o Oráculo. Esse é o meu segredo. Que eu não sei quem sou sem ele."
A honestidade não me surpreendeu. Ela era a mais verdadeira coisa que eu tinha ouvido dela. E ainda assim, não resolvia nada.
"Não temos futuro se eu não falar.", eu disse.
"E não temos futuro se eu não ouvir."
Ninguém se mexeu. O gramado estava vazio. O vento não soprava. A noite estava se formando lá em cima, além do teto de vidro do palacete que se via de longe. As estrelas dos Alpes apareciam primeiro. Depois a escuridão. Depois o silêncio completo.
Valentina se virou. Caminhou em direção à escada que levava ao Cume. Não olhou pra trás. Eu não me levantei. Ficamos separados por quinze metros de grama artificial e por tudo que não foi dito.
O Torneio Transalpeno estava a onze dias. Onze dias pra jogar, pra perder, pra ganhar, pra mentir, pra contar a verdade. Onze dias pra descobrir quem eu era sem o documento da Sala dos Ancestrais. Sem o nome escrito em uma árvore genealógica que não era minha.
Ela subiu a escada. A porta do Cume se fechou. Eu continuei no banco lascado, com as mãos nos joelhos e o segredo apertado contra o peito como uma bola que eu não sabia chutar.
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