Capítulo 18: A Raiz

A escada que levava ao Oratório de Antônia começava na biblioteca e descia por uma passagem que ninguém usava a não ser quem precisava de privacidade. Eu conhecia o caminho. Estava no capítulo do manual que dizia que o subsolo tinha três entradas e que a segunda era reservada a "ocasiões privadas". A tradução era simples: só quem já tinha quebrado algo chegava até ali.

Antônia não estava sozinha.

Valentina ocupava a cadeira de madeira que servia de mobiliário do escritório. O rosto não tinha o cálculo de sempre. Era uma máscara que caía, não a máscara de máscara que usava na Festa de Máscara. Estava viva. E assustada. E não conseguia esconder as duas coisas.

Antônia me viu antes que eu dissesse algo. "Fechou a porta," ela disse.

Eu fechei a porta. Não travei. A diferença entre trancar e fechar é tudo num lugar onde todo mundo tem o mesmo medo.

Valentina me olhou. "Você mentiu pra mim."

Eu não disse nada. A frase tava certa e a verdade é que eu não ia negar. "E eu não vou pedir desculpa."

Valentina apertou os lábios. "Você me usou."

"Eu te protegi."

"A mesma coisa."

Antônia riu. Não era uma risada de quem achou graça. Era a risada de quem achou que o momento era cômico por ser trágico. Ela se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos, o celular desligado sobre o colo. "Sabe de uma coisa? Vocês dois não mudam. Nunca mudam. Ele é o garoto que não confia em ninguém. Ela é a garota que confia em todo mundo. E juntos vocês formam o equilíbrio mais destrutivo que eu já vi."

Eu me sentei do outro lado da mesa. "O que você quer?" perguntei.

"Eu," Antônia esticou o braço em direção a Valentina, "vou te dar o que você não tem. Acesso. Informações. O que eu sei sobre as famílias que não estão no Oráculo. Em troca, você me dá o que eu preciso pra vender."

Valentina não se mexeu. "O que você precisa pra vender."

"Um documento. Uma prova. Algo que um jornal francês aceite como matéria. Não fofoca. Fato. Fato concreto. Se eu tiver uma assinatura num papel, eu tenho uma venda. Se eu tiver uma venda, eu tenho proteção. Se eu tiver proteção, ninguém me expulsa e ninguém me usa. Entendeu?"

Valentina olhava pro celular apagado sobre a mesa. "Eu tenho documentos. O Oráculo não morreu. Só a conta morreu. Os backups existem. Eu fiz backups."

"De que?"

"De tudo. Contas. Transações. Acordos. Se eu abrir os backups, posso te dar o que você quer. Mas não é só pra você."

Antônia se endireitou. "Pro que?"

"Pra mim. Eu preciso de um jornal que publique. Não pra me proteger. Pra destruir a planilha. Se a planilha sair, o contrato do D'Angelo perde valor. E o contrato do D'Angelo é o que tá me sufocando."

"Você e eu temos o mesmo inimigo."

"Exato."

A aliança não foi feita com palavras bonitas. Não teve promessa de lealdade, nem aperto de mão, nem juramento. Foi mais parecida que duas pessoas que descobriram o mesmo buraco no chão e decidiram que uma segura a corda enquanto a outra desce.


Eu saí do subsolo sem ter dito uma palavra. O corredor da biblioteca tava vazio. As estantes subiam até o teto, com títulos em alemão e francês que eu nunca tinha lido. A luz vinha de uma janela alta que dava pra parte de trás do palacete, o mesmo palacete onde Sturm dormia e onde eu tinha visto o reflexo de uma reunião que não era pra acontecer.

O Oratório de Antônia ficava três andares abaixo do subsolo. Eu ia ao subsolo todo dia. Às vezes, ia ao túnel. Mas o subsolo era o único lugar da escola onde eu podia pensar sem ser observado. E ali em baixo, sob o subsolo, Antônia e Valentina estavam reorganizando o mundo.

Fui pro gramado. A grama estava coberta de geada pela manhã. O vento não cortava mais. Era mais fresco. Algo que os Alpes faziam quando a primavera tentava chegar. A bola não estava comigo. Eu não ia treinar. O treino era às oito e eu tava em dívida com o relógio.

Me sentei na grama gelada e pensei. Pensei na planilha de Sol. No contrato do D'Angelo. No reflexo no escritório de Sturm. No beijo da Festa de Máscara. Na mentira que separamos. No silêncio de Lulu. No Hugo do túnel. Em tudo.

Tudo tava conectado. Eu sabia que tava. Mas a conexão era como um nó que você vê de longe e, quando aproxima, é maior do que parecia.

O sino das oito soou. As portas do gramado se encheram. Os Kings apareceram. Vicente primeiro. Sempre primeiro. Como quem sabe que o lugar pertence a ele. Os outros vieram atrás. Tomás, Gael, Hugo, Stael. Os que passavam. Os que não iam.

E eu. Que não ia treinar.

Vicente me viu sentado na grama. Parou. "Carvalho. Treino começa agora."

& quot;Já sei."

& quot;Você tá faltando."

& quot;Estou."

Ele me olhou. A expressão era a mesma de sempre. O mesmo sorriso de quem tem tudo. Mas algo tava diferente. Ele não era o único capitão do time. Havia outro. E eu era esse outro. "Você sabe que isso não vai ficar pra lá."

<"E eu sei que você sabe que eu não me importo."

Vicente não respondeu. Caminhou pro gramado. A bola foi pra ele. O treino começou. Eu continuei sentado. A geada no uniforme já começava a derreter.


Tomás apareceu às onze. Não veio até mim. Ficou parado a três metros. "Preciso te mostrar algo."

Eu levantei. "De onde?"

"Sala dos Ancestrais. Eu tenho acesso. Fui lá porque o Sturm deixou a porta aberta e eu entrei pra ver os retratos. O que eu vi não eram retratos."

& quot;O que você viu?"

& quot;Um documento. Uma linhagem. Um documento que ninguém tá usando pra nada."

Eu segui Tomás.

A Sala dos Ancestrais ficava no subsolo do palacete, atrás de uma porta que só abria com senha. A senha era conhecida por todos os Nível 1 e por Sturm. Tomás era Nível 2 e só tinha acesso porque seu pai, Erik, tinha um acordo com a escola que ninguém entendia direito. Um acordo que envolvia patentes de algoritmo de xadrez que os Reyners tinham vendido ao conselho em 2015. O preço era acesso irrestrito.

A porta tava aberta. Tomás empurrou. O interior era escuro e frio. Não era uma sala de biblioteca. Era um museu. Retratos de homens e mulheres que eu não reconhecia pendurados nas paredes. Uma lareira sem fogo. Um tapete persa que cobria metade do chão. Prateleiras com livros encadernados em couro.

Mas o que importava não era o móvel. Era a mesa. A mesa de carvalho no centro da sala tinha um documento aberto. Um documento que ninguém teria deixado ali por acidente.

Eu me aproximei. O papel era grosso, amarelado, com texto em latim e em francês. Um documento de linhagem. Uma árvore genealógica desenhada à mão com tinta que já estava desbotando, mas ainda legível.

No topo da árvore, o nome de uma família italiana. De'Angelo. O ramo que descia era extenso. Generações. Linhas finas conectando nomes, datas, posições. E num dos ramos laterais, um nó que se separava da árvore principal e seguia para baixo, para a esquerda, para algo que não estava no centro.

O ramo lateral tinha um nome. André Mendes. Meu pai.

Eu não entendia. "Isso é o meu pai."

Tomás não respondeu. Ficou parado do meu lado. Olhando o mesmo documento. A respiração dele era a única coisa que me lembrava que alguém estava ali.

Eu virei a página. Havia mais. Um documento escrito à máquina. Uma tradução em francês. Meu pai estava listado como descendente de uma linhagem que não era a que todos acreditavam. Que não era mecânico aposentado. Que não era o filho de um pedreiro que eu conhecia. Era algo diferente. Algo que o manual não dizia. O manual que eu li no primeiro dia de aula, onde tudo era transparente e simples.

"Como você sabe disso?" eu perguntei.

"Eu vi. Não pesquisei. Não sei o que significa. Só sei que vi." Tomás fez uma pausa. "Há uma raiz que não foi plantada por eles."

Eu li a frase de novo. "Há uma raiz que não foi plantada por eles." Não era minha. Era de Tomás. A frase mais longa que ele já tinha dito. A frase mais significativa que eu já tinha ouvido de alguém.

"De quem é a raiz?"

"Isso eu não sei."

Eu fechei o documento. A mão tava fria. Não do frio da sala. De outra coisa. "Ninguém pode ver isso."

"Ninguém vai ver."

"Você vai contar?"

"Só a você."

Peguei o documento e saí da sala. Tomás ficou pra trás. A porta se fechou atrás de mim. O corredor era longo e deserta. A luz dos refletores tava fraca. Eu andei até a saída. Não olhei pra trás.

A raiz. A raiz que não tinha sido plantada por eles. Minha raiz. A raiz de quem eu era. A raiz que não era mecânico e costureira e favela carioca.

Algo que era diferente. Algo que era maior. Algo que eu não conhecia e que, num documento de trezentos anos, estava escrito com tinta que ainda não desbotou.


O subsolo me recebeu como sempre recebe. O mesmo concreto. O mesmo silêncio. Pilar já tava sentada na minha cama com o tablet aberto. "Você tá atrasado."

"Não tô atrasado."

"Você não foi ao treino."

"Eu sei."

"E não foi ao almoço."

"Eu sei."

"E não foi pra aula."

"Pilar."

Ela fechou o tablet. "O que foi?"

Nada. Eu não disse nada. O documento tava na minha mochila. Ou melhor, não tava. Eu tinha deixado na mesa de carvalho da Sala dos Ancestrais. Porque o que Tomás tinha me mostrado não era pra ser movido. Era pra ser visto. Uma vez. E só.

Pilar me olhou. "Você tá diferente."

"Tô cansado."

Ela não acreditou. Não disse nada. Foi embora.


À noite, no gramado, Valentina já tava sentada. Não me vi. Não disse nada. O vento dos Alpes soprava pela cerca e trazia o cheiro de pinheiro. Eu me sentei no mesmo lugar de sempre. Do outro lado do gramado. Sem proximidade. Sem distância. Apenas dois pontos num campo de futebol vazio.

Ela não olhou pra mim. Eu não olhei pra ela. Mas o silêncio era o mesmo de antes. O mesmo que a Festa de Máscara tinha deixado. Aquele silêncio que não era vazio. Era peso. Era presença. Era o que restava quando tudo que tinha sido dito já tinha sido dito e o que ia ser dito ainda não existia.

Eu não contei sobre o documento. Não ia contar. Não era minha revelação pra fazer. Era minha revelação pra carregar. E carregar não era o mesmo que compartilhar.

Valentina moveu a perna. Ajeitou a posição. O gesto era pequeno. Mas no gramado vazio, onde cada movimento era audível, soou como uma decisão. Ela ia embora. Não por minha causa. Por causa dela mesma. Por causa da aliança que estava construindo com Antônia. Por causa do documento que podia destruir a planilha. Por causa do jornal francês. Por causa de tudo que era seu e que eu não podia tocar.

Eu me levantei. A geada já tinha virado água. Meus sapatos ficavam molhados. Eu voltei pro subsolo. A porta tava aberta, como sempre.

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