Published on August 16, 2026

Capítulo 5: A Primeira Rega

Lucas não tinha palavras para o que estava acontecendo com seu corpo. A barriga sob a palma do Curupira ainda irradiava aquele calor que vinha de dentro, um latejamento que já não doía como antes, mas insistia em se fazer presente. Ele se afastou, um passo que o levou até a borda da cama, e segurou o próprio ventre como quem protege algo que ainda não entende.

"Regas diárias de desejo." Ele repetiu as palavras para ouvir a própria voz, para ver se faziam mais sentido fora da cabeça. "Você está falando de sexo."

O Curupira não confirmou. Apenas sorriu, aquele sorriso de quem observa uma presa descobrir que o buraco onde se esconde não era uma saída.

"Eu não aceito isso. A semente pode ter se instalado, você pode ter feito o que fez naquela árvore, mas isso aqui ainda é meu corpo. Eu não vou simplesmente me entregar todos os dias como se fosse uma plantação."

Ele sabia que era ridículo falar em plantação. Sabia que estava falando para uma criatura que considerava humanos pouco mais que visitantes temporários na floresta. Mas as palavras saíram, firmes, carregadas de uma dignidade que ele não tinha certeza de merecer.

O Curupira se moveu. Foi rápido demais para Lucas acompanhar o deslocamento — um instante o guardião estava do outro lado do quarto, no seguinte estava a palmo de Lucas, a mão quente caindo na coxa dele com uma pressão que não permitia recuo. O pé direito se ergueu, e Lucas viu o símbolo se desenhar no ar antes mesmo de tocar a pele.

A sola em brasa riscou a coxa dele. Um traço curvo, definido, como uma linha de tinta que se fixa no papel. Lucas esperou a dor, esperou o cheiro de carne queimada, mas o calor se espalhou pela pele sem queimá-la, marcando um desenho que pulsava com a mesma luz âmbar que os símbolos no assoalho da noite anterior.

"A semente precisa de desejo constante para se firmar", o Curupira disse. O dedo dele apontou para a marca, e Lucas viu que as bordas do desenho se moviam, como raízes crescendo em câmera lenta. "Isso é uma raiz de ligação. Você sente quando ela quer ser regada. A floresta vai avisar."

"O que você fez em mim?"

"O que a floresta manda. A semente que você carrega não é apenas um fruto. É uma promessa que precisa de atenção, de energia, de desejo. Sem isso, ela se perde, e a árvore precisa esperar mais cem anos para tentar de novo." O guardião passou a mão pela marca, e o calor daquele toque se espalhou pelo ventre de Lucas numa onda que o fez arfar. "Você não vai deixar isso acontecer."

"E se eu deixar?" A pergunta saiu baixa, quase um desafio. "E se eu simplesmente recusar o jogo até você desistir?"

O Curupira riu. O som não era debochado — era algo pior, um riso de quem sabe de uma piada que Lucas ainda não entendeu. Ele girou o próprio corpo, os pés deslizando no assoalho com um farfalhar de brasas, e a marca na coxa de Lucas pulou como um coração em pânico.

"A recusa não é uma opção para a semente, Lucas. A floresta escolheu. A árvore decidiu. Você pode não querer, mas o seu corpo já quer."

A prova veio na hora. O latejamento no ventre se intensificou, e Lucas percebeu com vergonha que a vontade subia do baixo-ventre dele. Uma ereção parcial, desconfortável, que o corpo tinha construído sem a permissão dele.

Ele ficou imóvel, a respiração presa, observando a marca que brilhava na pele da coxa como uma acusação.

O Curupira não precisou dizer mais nada. Ele simplesmente estendeu a mão — a palma se abrindo num convite — e apontou para o centro da cabana.

Lucas acompanhou o olhar. No meio do quarto, as raízes do assoalho estavam se movendo, a madeira se abrindo num vão que se alargava para baixo, revelando uma descida que ele nunca tinha notado. A claridade de alguma coisa verde saiu daquela abertura, um brilho profundo que subia como se uma lua estivesse sob a cabana.

"Eu quero que você veja o lugar onde a semente vai se firmar."

O caminho era estreito, escavado nas raízes que formavam as paredes, e Lucas desceu primeiro com o Curupira logo atrás. Cada passo ecoava no vão, e o ar ia ficando mais denso, mais úmido, carregado de um cheiro de terra molhada e folhas maceradas que fazia lembrar a chuva na cidade depois de semanas de calor.

A clareira se abriu num espaço circular. A luz vinha de um poço central, uma pequena árvore que crescia no meio, com as folhas dobradas sobre si mesmas e raízes que se espalhavam para o assoalho em linhas que tremiam como veias. E debaixo dela, um leito de musgo que parecia ter sido formado pela própria árvore, as fibras se entrelaçando num colchão macio que se moldava aos contornos de quem deitasse.

Lucas olhou para o leito. Era impossível não entender o que era aquilo.

"Toda árvore precisa de um lugar para receber água", o Curupira disse. Ele passou o pé pelo musgo, as solas arrastando suave, deixando um rastro de brasa que se apagava aos poucos. "Este lugar foi preparado há anos. Eu não sabia quem viria, mas sabia que viria. A floresta já tinha escolhido antes de você nascer."

"Isso é loucura. Você está me dizendo que eu era destinado a ser... parir? Por causa do quê? Porque eu entrei na floresta errada?"

O guardião tirou os pés da cascata. "Porque você tem um sangue que resiste ao fogo. Porque a semente te reconheceu. Porque a floresta precisa que a próxima linhagem do nascimento se faça através de alguém que possa suportar o poder da árvore sem se tornar cinza."

Ele se aproximou do leito de musgo, que respondeu ao seu toque como um animal que reconhece o dono, ondulando ao redor dos pés dele. O Curupira voltou-se para Lucas, segurando o olhar dele com os olhos âmbar.

" — deita."

Não era um pedido. Também não era uma ordem, exatamente. Era aquele tom de quem já tinha decidido o que ia acontecer e apenas informa o desfecho. Lucas ficou no limiar da clareira por um momento, pensando em todas as formas de recusar. Mas o ventre continuava latejando, a marca na coxa brilhando um pulso que acompanhava o ritmo, e o corpo dele não estava ouvindo a cabeça. O corpo queria o musgo. O corpo queria o calor.

Ele deitou.

O musgo se acomodou sob ele, cedendo nos pontos certos, e a temperatura da clareira subiu alguns graus assim que Lucas tocou a superfície. As fibras do leito estremeceram, como se estivessem reconhecendo a massa de alguém que foi esperado por décadas, e um calor se espalhou do contato para os ossos.

O Curupira não veio direto. Ele contornou o leito, os pés marcando um rastro de brasas no chão de terra, e Lucas acompanhou o movimento dele com o olhar, sem se mexer. O guardião passou a mão nas folhas da árvore central, e algo respondeu dentro de Lucas — um aperto fundo, um puxão que veio do útero em direção ao tronco, como se a semente tivesse reconhecido a mãe.

"O que você sentiu agora?"

"Nada." A mentira saiu seca.

O Curupira sorriu. O pé esquerdo dele se ergueu e veio pousar no peito de Lucas, a sola em brasa encontrando a pele nua com uma pressão que não queimava, mas estava no limite de fazê-lo. "Sua respiração mudou. Seu coração acelerou. A semente chamou a árvore, e você a sentiu. Não minta para mim. Mentir para si mesmo é um exercício à toa."

Ele deslizou o pé para o baixo. O outro, da mesma forma, desceu pela barriga, até o interior da coxa. Lucas quis se afastar, o corpo esticando, mas o musgo se apertou ao redor dos ombros dele num gesto que era mais persuasivo do que violento. O leito o segurava. O leito o mantinha ali.

Os pés do Curupira não eram grandes, mas eram precisos. O pé direito trabalhou as costelas de Lucas, pressionando cada osso num ritmo que parecia conhecer o pulso por baixo da pele. O pé esquerdo desceu mais, alcançando o ventre onde o latejamento se concentrava, e a sola em brasa parou sobre o ponto onde Lucas sentia o peso da semente.

A pressão não era forte. Apenas o suficiente para que ele percebesse o contato. O calor se espalhou do ponto para o exterior, descendo pela virilha, subindo pela barriga, enchendo Lucas de uma sensação que não era apenas física. A parte atrás das estrelas. O corpo dele respondeu, o sexo ereção completa num segundo, e o Curupira observou a reação como quem lê um mapa.

"Isso é o desejo que ela precisa", ele disse. "O que você sente agora, esse calor que sobe, é a rega. Não pode ser controlado, não pode ser negado. A floresta o usa para fazer o fruto crescer."

Lucas queria discutir. Queria dizer que não era a floresta, que era o toque dele, que o corpo dele reaja porque qualquer corpo reagiria. Mas os pés continuavam trabalhando: um descendo pela coxa em círculos cada vez mais largos, o outro voltando ao peito para pressionar o mamilo num movimento seco que arrancou um arranhão involuntário.

O Calor se concentrou na coxa onde a marca tinha sido riscada. O símbolo pulsou em resposta ao toque do Curupira, uma onda âmbar que se espalhou do ponto para a pele ao redor, e Lucas sentiu algo dentro dele se abrir. como uma porta que se destranca.

O Curupira pousou as mãos em Lucas nesse momento, uma em cada lado do peito, o peso dele se apoiando no corpo de Lucas enquanto os pés continuavam o trabalho: aquele deslizar lento, constante, nas solas percorrendo do peito à barriga, das barrigas às costelas, sempre no limite de algo, nunca tocando o ponto onde Lucas queria.

"— Não —" Lucas tentou falar, mas a voz falhou no meio.

"Não o quê?"

O, a sola do pé esquerdo foi deslizando pela barra de Lucas, e ele se contraiu inteiro, o quadril fazendo para cima sem autorização, e o Curupira riu. Um som baixo, de prazer, que veio junto com a mão subindo para cima do sexo de Lucas. A ponta do dedo traçou o contorno através do nenhum tecido, e era quase nada, era tudo, e Lucas foi segurando com as unhas os próprios punhos.

"O corpo não mente. É uma pena que você tente tanto fazer isso."

A sola em brasa pressionou a barriga de novo, no ponto exato da semente. A onda de calor veio de dentro para fora. e, no mesmo instante, a mão do Curupira fechou em torno do sexo de Lucas num ritmo firme e constante.

Lucas jogou a cabeça para trás. O musgo apertou os ombros dele com um apoio que tinha algo de escravidão. As duas coisas ao mesmo tempo: a sola do pé quente contra o ventre onde a semente pulsava, a mão marcando um ritmo inegável no corpo dele, a, e cada puxão levando uma onda de calor para aquele mesmo ponto no baixo do abdome.

A primeira onda de orgasmo veio ao redor dele como uma maré.

Os pés do Curupira mudaram de posição. O que estava no ventre dela vira pressão mais firme no momento exato em que o corpo de Lucas apertava, e Lucas sentido que algo mais se abria — um espaço onde a dor surda das noites anteriores se encaixava nesse calor crescente, como um quebra-cabeça que finalmente encontra seu lugar. O musgo se apertou na mesma hora, raízes finas subindo pelos tornozelos, comprimindo contra a pele, e o calor se espalhou como um líquido que sobe da barriga e afoga os sentidos.

Lucas gritou. Não soube dizer se era prazer ou medo, e a diferença importava pouco — a onda cresceu, cada vez mais intensa, até que ele foi obrigado a se contorcer no leito, o corpo inutilizado de todas as maneiras. Os pés do Curupira não pararam. A sola continua pressionando o ventre, a outra passou para o peito, a marca na coxa pulsando num ritmo que já não acompanhava o coração de Lucas, mas algo mais profundo.

O clímax quebrou como uma crista.

A sola em brasa pressionou o baixo ventre na hora exata, e a dor surda que acompanhava Lucas desde a instalação do fruto mudou. Ela não sumiu. Não ficou mais fraca. Deformou uma onda de calor puro que subiu pelo esterno, atravessou a garganta, afundou nos olhos. Lucas se sentiu queimar por dentro por um momento que durou séculos, e a onda se espalhou para cada parte dele.

Ele colapsou no musgo, tremendo, os olhos molhados sem que tivesse chorado. A visão levou um tempo para voltar. O musgo continuava acomodando ele com o mesmo cuidado, mas agora a superfície estava mais quente, como se a própria árvore tivesse absorvido uma parte da energia dele.

O Curupira não se afastou. Permaneceu com as mãos apoiadas no peito de Lucas, observando-o recuperar o fôlego, com uma expressão que não era apenas satisfação, mas algo como paciência que finalmente dá frutos.

O calor se assentou. Quando Lucas conseguiu olhar para baixo, para o próprio corpo, ele viu o ventre.

Não era mais apenas uma elevação leve. A barriga estava visivelmente mais redonda, mais alta, desenhando uma curva que a camisa aberta não escondia mais. A marca da coxa havia se expandido, formando uma raiz de desenho que subia até o centro do peito, seguindo um caminho que Lucas não sabia que o corpo tinha aberto.

O. Ele tocou a pele nova, quente, e as marcas se seguiram como se reconhecessem os dedos dele.

"Isso é o crescimento da semente", o Curupira explicou, se o toque da voz baixa. "O que o corpo dele sentiu agora, o que ele queria, o que o desejo dele foi capaz de fornecer — tudo isso agora é parte da árvore. O fruto cresce conforme o desejo é regado. E ele vai crescer a cada dia, até que a colheita seja a hora."

Lucas passou a mão no ventre, sentindo a forma quente, e algo no fundo do peito dele se virou. Não era mais apenas medo, embora o medo ainda estivesse ali, firme. Não era apenas repulsa, embora a repulsa também existisse. Lá embaixo, aquela vergonha, daquele outro lugar, o desejo próprio, aquilo que tinha feito o corpo responder — era real, acesando, cada vez mais impossível de ignorar.

Ele não tinha mais medo do corpo que carregava. Agora, o que ele tinha era medo de descobrir o quanto queria que continuasse.

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