Capítulo 4: A Trégua de Raízes
Lucas afastou-se da janela selada, as costas ainda coladas na madeira que vibrava com o aperto das raízes lá fora. As mãos encontraram o próprio ventre sem que ele decidisse colocá-las ali, pressionando o ponto onde a dor surda continuava pulsando com uma regularidade que já começava a parecer familiar. Ele olhou para o Curupira, que permanecia imóvel a poucos metros, os pés erguidos do chão com as solas em brasa bruxuleando como pequenas fornalhas acesas no escuro do quarto.
O guardião não dizia nada. Apenas observava, os olhos âmbar acompanhando cada movimento de Lucas com uma paciência que tinha algo de felino, de quem sabe que o tempo trabalha a seu favor. Os cabelos de fogo, embora mais baixos do que antes, ainda estalavam em pequenos crepitares que quebravam o silêncio carregado do quarto.
Aquela posição flutuante começava a ser pior do que o resto, honestamente. Era a primeira vez que Lucas o via assim, suspenso no ar como se o chão fosse um detalhe dispensável, e havia algo de errado na naturalidade com que ele mantinha o equilíbrio sem nada para sustentá-lo. A selvageria de tudo aquilo parecia ir contra a física que Lucas conhecia.
Ele engoliu seco, forcando as palavras a passarem pela garganta apertada.
"Só preciso de uma noite para processar isso."
O Curupira inclinou a cabeça, e as chamas do cabelo se inclinaram junto com um crepitar mais alto, como uma pergunta feita numa língua de fogo. Lucas ergueu as duas mãos abertas na frente do peito, palmas viradas para o guardião, num gesto que esperava parecer mais confiante do que realmente era. O coração batia tão forte que dava para ouvir nos próprios ouvidos.
"Uma noite. Apenas para respirar, para entender o que você fez comigo lá embaixo." A voz saiu mais firme da segunda vez, embora os dedos estivessem começando a tremer no ar. "Isso não é pedir demais. É uma trégua, só isso."
O Curupira sustentou o olhar por um tempo longo, silencioso, que esticou as costas de Lucas contra as madeiras. As chamas das solas continuavam dançando, as pés sempre erguidos, como se o guardião estivesse calculando cada palavra que Lucas oferecia antes de decidir o valor que tinha.
O aceno veio lento, um movimento de cabeça que tinha peso de um acordo selado em sangue. Mas o sorriso que acompanhou a concordância não tinha nada de generoso — tinha uma dobra de quem sabe exatamente o que vai pedir em troca.
"A floresta sente seu corpo como você nunca vai sentir", o Curupira disse, e a voz dele era baixa, quase gentil, o que a tornava ainda pior. "Ela precisa saber como você respira, como o sangue se move. Você vai deitar nu sobre as raízes do assoalho."
Lucas olhou para o chão, para as tábuas que agora tinham pequenas raízes se espalhando por suas superfícies como vasos capilares vivos, estalando e se retorcendo em movimentos lentos que pareciam medir o ar da cabana. Elas se agitavam com mais intensidade perto dos pés do Curupira, como se os reconhecessem como algo que merecia reverência.
"Nu?" A pergunta saiu antes que ele conseguisse impedir.
O guardião não respondeu. Apenas abaixou os pés até o chão, apoiando as solas em brasa nas tábuas com uma pressão que fez a madeira chiar. O vermelho subiu pelas panturrilhas num pulso que Lucas acompanhou com o canto do olho, entendendo, naquele momento, que aquele não era um pedido que podia ser recusado.
Ele podia ter resistido. A ideia passou pela cabeça, rápida, tentadora: dar meia-volta, correr, se acreditar de alguma forma que dava para furar a parede de raízes na porrada, gritar até alguém ouvir. Mas isso era fantasia de quem nunca tinha visto o que uma criatura daquele tamanho podia fazer com um simples dedo no peito. O corpo dele já tinha entendido a realidade antes da mente: aquela trégua era a única moeda de tempo que ele conseguiria arrancar dali.
A camisa saiu num puxão seco, o tecido amassado atirado em cima da cadeira do canto. A calça veio logo atrás, os dedos dele ainda estabilizados no botão, e Lucas se apressou em amontoar as duas peças juntas como quem não queria deixar rastro do próprio caminho. O ar da noite foi gelado contra a pele, embora a cabana continuasse quente como uma estufa.
Ele se virou para o chão de raízes, sentindo os nós vivos sob os pés descalços, e baixou o corpo devagar até deitar de costas.
O contato veio como um choque macio. As raízes se acomodaram sob a curvatura da coluna dele, cedendo nos pontos certos, ajustando-se ao peso do corpo como uma superfície que conhecia cada centímetro da anatomia humana. Um pulso lento surgiu de baixo, ondulando pelas costas de Lucas — um coração batendo sob a pele do chão.
Ele prendeu o ar, tentando não pensar na maneira como aquilo tudo era organizado demais para ser coincidência.
O Curupira se moveu pela cabana sem tocá-lo — mesmo quando passou a menos de um palmo de Lucas, indo até o canto da lareira, o guardião simplesmente contornou o corpo estendido com um passo que tinha qualquer coisa de coreografia. Ele se agachou diante das brasas que já quase tinham morrido, as últimas faíscas mal iluminando as arcas do rosto.
O Curupira soprou as brasas com uma devoção quase sensual, um hálito que vinha de algo mais profundo do que os pulmões, e as chamas responderam como criaturas famintas. Pequenas línguas de fogo começaram a se erguer, contorcendo, ganhando força até formar um círculo baixo de lume que lambia o ar da lareira sem pressa.
Lucas observou com a respiração superficial, os olhos fixos na cena do outro lado da cabana, e foi quando as solas do guardião começaram a mudar.
O vermelho-alaranjado das brasas deixou de ser um bruxulear e se tornou uma fervura. Subiu pelas panturras com a mesma intensidade que Lucas tinha visto nas árvores de fogo das lendas, desenhando caminhos de luz que se alastravam como se o fogo fosse sangue correndo por dentro da pele morena. Cada passo que o Curupira dava em direção ao centro do quarto deixava uma marca escura no assoalho, um símbolo que tremia na madeira antes de se fixar.
O quarto aqueceu. Não apenas a temperatura — o próprio ar parecia ficar mais denso, mais pesado, com aquele brilho das solas passando a ser a única luz além das chamas da lareira.
Lucas ficou imóvel de costas sobre as raízes, a pele arrepiada do frio que não conseguia alcançar o calor que aquele corpo irradiava, esperando o que viesse.
A primeira passada veio lenta, quase cerimoniosa, o pé direito do Curupira descendo sobre a madeira com uma precisão que fazia cada marca ganhar contorno antes mesmo do toque completar. O símbolo deixado na tábua se acendeu como um ferimento — uma linha de luz âmbar que tremeu na madeira por um segundo, estremecendo como se estivesse se decidindo, e então se fixou com um estalo quase inaudível.
Lucas seguiu o movimento dos pés do guardião sem virar a cabeça, apenas o rastro de calor que deixava no ar. A primeira volta do círculo trouxe o Curupira rente ao ombro esquerdo, a sola em brasa passando a palmo do cotovelo de Lucas, e ele precisou conter o impulso de afastar o braço. Não queimava — não havia chamado perto o suficiente para isso — mas o corpo inteiro dele sabia que aquele calor era vivo, e instintos primários empurravam para fugir.
Uma segunda marca se abriu perto da cabeça de Lucas, um desenho torto de linhas que pareciam lembrar uma espiral se fechando. Depois uma terceira, aos pés dele. As solas em brasa deixavam seu rastro de luz pela cabana enquanto o guardião contornava o corpo nu estendido com o ritmo de quem conhece o próprio território.
O canto começou sem aviso.
Uma língua estranha — sílabas que se partiam como madeira seca estalando, vogais que se arrastavam longas demais para serem palavra humana — subiu no ar denso da cabana. Lucas não reconheceu nada daquilo, embora o som tivesse uma estrutura de repetição que sugeria um significado, uma lógica. O Curupira girava ao redor dele num passo circular, os pés marcando o círculo de fogo com cada toque, fechando as pontas do desenho como um tecelão que precisa terminar o tecido na hora exata.
A temperatura subiu de novo. As raízes do assoalho estremeceram de um jeito diferente agora, um tremido rápido, alinhado ao pulso das solas do guardião, e Lucas percebeu que o chão inteiro respirava em resposta ao canto. Cada marca no assoalho pulsava em sincronia, as sílabas do canto como um metrônomo.
Ele fechou os olhos — mas sentiu tudo mesmo assim. As solas passavam perto do rosto dele num arco que não tocava a pele, um calor no limite de queimar; e depois do ombro, do peito, cada passada carregando o símbolo que se somava ao desenho ao redor. E a dor no ventre, aquela dor surda que tinha vindo com o fruto aceito, começou a pulsar naquele mesmo tempo. O mesmo ritmo. O mesmo pulso.
Era como se algo dentro dele tivesse começado a responder.
"O chão tá vibrando", Lucas sussurrou, embora ele soubesse que não precisava avisar ninguém. O guardião provavelmente já sabia que o chão vibrava, sabia que a árvore das raízes acolhia cada toque, sabia tudo. Aperto do próprio abdômen ficou mais forte, as pontas dos dedos pressionando a pele onde a dor batia na batida do mesmo canto.
A passada do Curupira foi se tornando mais rápida a cada volta. O círculo se fechou num desenho completo ao redor do corpo de Lucas, as marcas se conectando umas às outras na madeira como contas de um colar que o guardião tinha finalmente resolvido emendar.
Quando a última ponta se tocou — o desenho se fechou por completo — o Curupira parou atrás da cabeça de Lucas.
Ele não virou. Mas o calor mudou, tornou-se mais intenso, vindo de cima, e Lucas entendeu que o guardião agora tinha os pés erguidos, solas voltadas para baixo, observando o corpo nu de um humano de cima com o tipo de atenção que se dá a algo que acabou de nascer. Os símbolos no chão emitiram um brilho âmbar — um mar de luz baixa que subiu pelas bordas do desenho e banhou o corpo de Lucas, atravessando cada poço da pele nua.
Cresceu. O brilho foi se intensificando até que Lucas precisou apertar os olhos mesmo estando fechados, a luz atravessando a pele, entrando pelos olhos e pelo peito, como uma inspeção que começou no coração e desceu até o lugar onde o fogo estava instalado. E então, um segundo depois, apagou de uma vez.
O quarto voltou a escuridão do canto da lareira, e Lucas ficou ali deitado, sem fôlego, os olhos ainda fechados, com uma certeza atravessando as costelas: aquilo tinha sido um reconhecimento. Não era apenas fogo no chão. Era a floresta inteira, aquele conjunto de raízes e seiva e desejo, usando o Curupira como instrumento para dizer alguma coisa. Uma linguagem que Lucas não sabia ler, mas que o corpo começava a entender.A primeira passada foi lenta, quase cerimoniosa, o pé direito do Curupira descendo sobre a madeira com uma precisão que fazia cada contato parecer calculado em séculos de prática. A marca que deixou para trás se acendeu antes mesmo do pé terminar de se afastar do chão — uma linha de luz âmbar que tremeu na superfície da tábua como um animal que acabou de acordar, hesitando, se ajustando ao formato que lhe foi dado. Então se fixou com um estalo seco, a madeira absorvendo a brasa como se a tivesse esperando.
Lucas acompanhou o movimento com o canto do olho, o corpo imóvel de costas sobre as raízes, tentando ignorar a pele arrepiada que já não sabia se era do frio da noite ou de outra coisa. O Curupira deu a volta inteira antes de completar o círculo, cada passo imprimindo um novo símbolo ao lado do anterior, um desenho tortuoso que ia tomando forma na madeira como um idioma que Lucas não conseguia ler, mas entendia na pele.
A segunda passagem veio mais perto. O calor das solas passou a distância de um palmo do ombro de Lucas, tão intenso que os pelos do braço dele se eriçaram numa onda que subiu até o pescoço. A marca daquela passagem se acendeu numa linha dupla, um risco que pulsou duas vezes antes de se firmar.
O canto começou sem aviso.
Uma língua de sílabas que se quebravam como galhos secos, vogais longas que se arrastavam pelo ar denso da cabana — Lucas não reconheceu nenhuma palavra, nenhuma sonoridade, mas o corpo dele respondeu mesmo assim, os músculos se contraindo em ondas que acompanhavam as batidas do ventre. O Curupira girou ao redor dele num passo que tinha perdido a lentidão inicial, os pés quentes girando num círculo que se fechava aos poucos, os dedos dos pés curvando a cada toque como quem desenha com a sola.
O calor se adensou. Lucas percebeu que o canto estava tecendo o ar junto com o fogo, cada sílaba prolongada acendendo uma parte nova do desenho, e as pontas soltas dos símbolos começaram a se conectar umas às outras, formando uma corrente que se enrolava ao redor do corpo dele. O chão vibrava agora — não no ritmo das raízes, mas num batimento mais rápido, mais urgente, que fazia os pelos dos braços de Lucas ficarem de pé.
Ele fechou os olhos.
A escuridão atrás das pálpebras não escondeu nada. Cada passada do Curupira se desenhava como uma mancha de calor na pele, acompanhando o trajeto da sua volta, se aproximando do rosto na terceira passada, passando a centímetros da orelha, dos ombros, do peito. O símbolo que se fixava no chão pulsava com o ritmo da dor surda no ventre dele, uma sincronia que não podia ser coincidência, porque o ventre respondia como uma membrana que recebia cada batida do canto.
A passada final arqueou sobre o corpo dele, o calor da sola vindo de cima para baixo, e Lucas sentiu a marca se acender na madeira perto da mão esquerda, tremendo na tábua antes de se fixar como todas as outras. O chão vibrava debaixo das costas dele com um gemido grave, e as raízes que acomodavam a coluna se apertaram levemente, como se a floresta estivesse respirando fundo junto com o desenho que se completava.
O canto parou na metade de uma vogal.
Lucas levou um segundo para perceber que o silêncio tinha voltado, que os pés que giravam agora estavam parados atrás de sua cabeça, que o calor das solas descia de cima — suspensos no ar, virados para baixo, apontados para o centro do círculo onde ele deitava. Os símbolos ao redor do corpo dele começaram a emitir um brilho âmbar, crescente, que banhou a pele nua de uma luz que vinha do chão e se espalhava para cima, subindo pelos flancos, pelo peito, pela garganta, alcançando o queixo.
Lucas não abriu os olhos. Deixou a luz atravessar as pálidas, inunda os sentidos, e sentiu o calor dos símbolos se espalhando na mesma rota que o líquido dourado tinha percorrido horas antes — do peito até o ventre, onde o pulsar se adensou como um coração que encontrou outro ritmo para seguir.
O brilho cresceu. Intensificou. Lucas ouviu a madeira estalar ao redor dele, as tábuas se curvando ao peso daquele fogo sem dor, e por um momento teve certeza de que ia queimar sem mesmo tocar nas chamas.
Então tudo apagou de uma vez, como quem sopra uma vela. O calor recolheu os símbolos para dentro da madeira, o brilho desapareceu, e a cabana voltou a ser apenas o quarto escuro que era antes, com a lareira crepitando no canto.
Ele levou um momento para voltar a sentir o próprio corpo — o peso das costas sobre as raízes, o ar entrando pelas narinas, o pulsar profundo no ventre que agora marcava um tempo novo, menos dolorido, mais como uma presença que se assenta.
Os pés do Curupira pousaram no chão com um toque leve, nas pontas dos dedos. Ele permaneceu atrás da cabeça de Lucas sem se mover, e o silêncio que deixou no ar era espesso, cheio de uma certeza que não precisava ser explicada.
O silêncio voltou como uma maré que recua devagar, deixando para trás apenas a respiração de Lucas, que ainda não tinha conseguido normalizar. A madeira das tábuas esfriou gradualmente, os símbolos se apagando como brasas que se entregam à cinza, até que o quarto voltasse a ser apenas o quarto escuro que era antes. A lareira crepitava no canto com uma vida modesta, alheia a tudo que tinha acontecido.
Lucas não sabia quanto tempo tinha passado. A noite se esticava no teto de tábuas sem marcar horas, e o corpo dele tinha começado a flutuar num estado entre acordado e dormido, as pálpebras pesadas, os músculos cedendo às raízes que ainda pulsavam baixo sob a coluna.
Foi quando os pés do Curupira atravessaram o vão do círculo.
Lucas não viu — os olhos estavam fechados, a consciência já meio afundada num sono que chegava devagar. Mas sentiu. A sola quente roçou o tornozelo dele num toque que não apertou, não pressionou — apenas encostou, como quem verifica que uma porta está no lugar. O calor que veio daquele contato não queimava. Espalhava-se pela pele com uma suavidade que Lucas levou um momento para entender como era possível, e então reconheceu o caminho que fazia.
A dor no ventre afrouxou. Aquele pulsar surdo que tinha se instalado depois do fruto aceito, aquela batida insistente que acompanhava cada respiração, afrouxou como um nó que alguém finalmente resolveu desatar. O calor da sola subiu pela panturrilha, pelo joelho, pela coxa, num percurso que Lucas seguiu sem abrir os olhos, sentindo os músculos soltarem pelo caminho.
Ele ouviu o próprio suspiro antes de se dar conta de que tinha respirado fundo.
O toque se afastou. O calor do pé do Curupira se desfez no ar da cabana, e Lucas afundou no sono sem conseguir lutar contra ele, o ventre silencioso, o corpo entregue às raízes que acomodavam cada vértebra como um berço vivo. A última coisa que passou pela cabeça foi a imagem dos pés suspensos sobre o desenho do fogo, as solas brilhando, e a sensação de que algo dentro dele tinha finalmente se acalmado.
O sol chegou pelas frestas das janelas com uma violência alheia à noite que tinha passado. Lucas acordou com a claridade atravessando as pálpebras, o corpo dorido da posição em que tinha dormido, e precisou de um momento para lembrar onde estava. O teto de tábuas. O cheiro de terra úmida e madeira queimada. As raízes recuadas para os cantos do assoalho, encolhidas como quem se retira depois de ter feito seu trabalho.
Ele se sentou na beirada da cama — e o movimento trouxe uma sensação nova.
A barriga estava levemente mais saliente do que na noite anterior. Pouco, um centímetro talvez, mas Lucas conhecia o próprio corpo, sabia como funcionava, e aquilo que não era gordura. A pele esticada por cima daquela elevação tinha um brilho sutil, como se tivesse sido polida por dentro. Quando ele tocou com os dedos, a pele respondeu com uma quentura que se espalhava dos centros para as bordas, e a dor surda da noite agora era um latejamento baixo, incômodo, que acompanhava cada batimento do pulso.
Ele retirou a mão da barriga como quem se queima. Mas a sensação continuou.
O Curupira estava atrás dele.
Lucas soube antes de olhar — o calor dos fios baixos de fogo, as chamas crepitando num volume baixo que quase não se ouvia, a presença que se encaixava no quarto como se o quarto tivesse sido feito para ela. Ele sentiu a mão pousar no ventre dele com uma pressão que não era de pergunta, nem de carícia, mas de verificação.
"Ela se instalou", o guardião disse. "A semente precisa de regas diárias de desejo para se firmar."
A expressão da palavra — regas — alcançou Lucas antes do significado completo. O ventre quente sob a palma do Curupira, o latejamento no baixo do corpo, e o termo agrícola que remetia a algo que se planta, que se cultiva, que se espera colher.
"O que você quer dizer com 'regas'?"
O Curupira não respondeu de forma direta. Em vez disso, baixou a mão, deslizando até a virilha de Lucas, e naquele momento o guardião ergueu o pé direito — a sola em brasa virada para cima, o fogo subindo das solas num brilho que Lucas reconheceu da noite anterior. O pé desceu.
A sola encontrou o ventre de Lucas com um contato que não, queimava. O calor se espalhou para o interior do abdome numa onda profunda que que cruzava músculos e vísceras, alcançando o ponto onde a dor surda morava, abraçando-o como uma mão que fecha em torno de algo precioso.
Lucas arfou, os dedos se cravando na borda da cama. O interior, algo se moveu — um giro lento, circular, que não era dor, mas também não era nada que ele tivesse sentido antes. Era como se algo dentro dele tivesse acabado de acordar de um cochilo e estivesse esticando os membros para reconhecer o espaço.
O Curupira segurou o queixo dele com uma mão que se encaixava como se conhecesse a anatomia daquele rosto há séculos, inclinando para o próprio olhar. Os olhos âmbar dele tinham um brilho que Lucas não soube nomear na hora, um orgulho de coisa viva que faz ser olhada pela primeira vez.
"Ela já acordou", o guardião disse. O vindo não era de expectativa — era de constatação, de algo que se sabia que aconteceria.
Lucas olhou para a barriga, para a palma que ainda descansava sobre ela, para a sola em brasa ainda rente ao próprio ventre, e percebeu que a noite tinha acabado, mas o ritmo era só o começo de um ciclo muito maior do que ele.
O silêncio que instalou a cabana tinha um peso que não sabia se conseguiria carregar. E o pé do Curupira continuava ali, quente, contra a pele, marcando sem marcar, como quem já tinha decidido que aquele corpo era o seu lugar.
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