Published on August 16, 2026

Capítulo 2: O Convite

Lucas ficou paralisado no batente da porta do quarto, as costas coladas na moldura de madeira como se o corpo tivesse decidido, sem consultá-lo, que ali era o único lugar seguro. Os olhos fixos no Curupira, que o observava da beirada da cama sem mover a cabeça, apenas aqueles olhos âmbar varrendo cada centímetro dele com uma lentidão que fazia o ar do quarto pesar.

A câmera antiga tinha sumido. Lucas percebeu isso num segundo plano da consciência, enquanto o resto do cérebro tentava processar o que via: o ser sentado na beirada da cama, com os cabelos de fogo iluminando o quarto num tom avermelhado, os pés descalços plantados no chão de tábuas sem deixar marcas agora. As chamas dos fios dançavam em silêncio, crepitando baixo, e o cheiro de mata molhada e brasa adormecida preenchia o espaço entre eles.

O Curupira passou a mão pelo próprio pé esquerdo, um movimento lento que começou no tornozelo e desceu até a ponta dos dedos. Os fios de fogo que cobriam a pele se ergueram ao toque, envolvendo os dedos do ser como se o cumprimentassem, e ele afagou cada dobra da sola com uma atenção minuciosa, como quem examina algo precioso que merece tempo. Os olhos âmbar não desviaram de Lucas um instante, acompanhando o tremor quase invisível que percorreu o corpo dele quando as chamas estalaram mais alto.

Lucas prendeu a respiração. A cena diante dele tinha algo de íntimo e errado ao mesmo tempo, uma criatura se acariciando em sua cama como se o quarto fosse dela, como se ele fosse o intruso ali. O pensamento passou rápido e desconfortável, porque no fundo Lucas sabia que era verdade: ele tinha invadido o território daquela coisa, filmado suas pegadas, pronunciado seu nome na frente de Seu Antônio sem dar o devido peso.

A mão direita do Curupira se ergueu no ar, os dedos se curvando uma vez num chamado silencioso. O gesto apontava para o espaço do chão em frente à cama, um convite que não comportava negociação. A palma aberta ficou suspensa, esperando, e os olhos âmbar mantiveram a pose até que Lucas soltou o ar dos pulmões num soluço rouco.

Ele sentiu os pés se moverem antes de autorizá-los. Um passo, depois outro, atravessando a distância entre a porta e a cama, e o chão de madeira rangeu sob seu peso como se protestasse contra a proximidade. O Curupira não se mexeu, apenas observou com a cabeça ligeiramente inclinada, os fios de fogo dançando ao redor do rosto como se tivessem vontade própria.

Lucas parou quando o espaço entre eles diminuiu para menos de um metro. O calor irradiava do corpo do Curupira em ondas constantes, um calor seco e profundo que fazia sua pele arrepiar mesmo no abafado da noite amazônica. Ele viu os lábios do ser se curvarem num sorriso lento, e foi quando a mão direita se moveu de novo.

Ele recuou meio metro num impulso cego, o corpo reagindo antes do pensamento, e no mesmo instante o Curupira atravessou a distância. Não houve tempo de registrar o movimento — um piscar e o ser estava diante dele, a palma da mão pressionada contra o peito de Lucas com uma firmeza que não doía mas também não permitia escapatória.

As costas de Lucas encontraram a parede com um impacto surdo. A mão do Curupira permaneceu sobre seu peito, os dedos espalmados sobre a camiseta encharcada de suor, e através do tecido Lucas sentiu o calor da pele dele, uma temperatura que faria qualquer humano recuar se tivesse juízo. O rosto do ser estava próximo demais, os olhos âmbar varrendo seu rosto com uma curiosidade que tinha algo de predatória.

Lucas prendeu o ar novamente, sentindo o próprio coração disparar contra a palma que o segurava. A visão periférica capturou os fios de fogo crepitando perto da orelha dele, o calor saindo em espirais finas, e ele percebeu que o Curupira não tinha feito nenhum esforço visível para se mover. Simplesmente tinha estado ali, no outro canto do quarto, e agora estava aqui, e a distância entre esses dois pontos parecia não significar nada para ele.

O silêncio entre eles se esticou até a tensão vibrar no ar. A mão no peito de Lucas não apertou, não empurrou, apenas permaneceu como uma âncora, e foi pior do que qualquer agressão — porque significava que o Curupira podia fazer o que quisesse, e estava escolhendo esperar.

Os olhos âmbar se moveram devagar pelo rosto de Lucas, descendo pelo queixo, pelo pescoço, até a mão que o imobilizava, e voltaram ao ponto de partida com uma lentidão deliberada. O sorriso se alargou um pouco, revelando a ponta dos dentes afiados, e Lucas percebeu que a criatura estava saboreando o momento, cada segundo de pânico e confusão que se desenhava no rosto dele.

Nenhum dos dois falou. O quarto ficou suspenso num equilíbrio precário, o calor das chamas dançando entre eles enquanto o Curupira mantinha o palmo sobre o peito de Lucas, sem pressa, como se tivesse a eternidade inteira pela frente e soubesse exatamente como usá-la.

A palma sobre o peito de Lucas permaneceu imóvel por um longo momento, e então começou a subir. A mão do Curupira deslizou pela clavícula, pelos músculos do pescoço, até alcançar o rosto, e o polegar traçou um caminho lento pela bochecha de Lucas. O toque era quente, mais quente que qualquer pele humana, e o movimento tinha uma suavidade que fazia o contraste com o momento anterior parecer um truque de ilusionismo.

A crepitação dos fios de fogo perto da orelha de Lucas era constante, um som que lembrava gravetos se partindo mas com uma cadência quase rítmica. As chamas não queimavam, não tocavam sua pele, mas o calor que exalavam tornava o ar entre eles visivelmente distorcido, ondulando como o asfalto em dia de sol. A bochecha de Lucas ardia sob o polegar, e ele não sabia dizer se era da temperatura ou do contato em si.

O Curupira o examinou de perto agora, os olhos âmbar passeando pelas linhas do rosto de Lucas com uma atenção de quem estuda um mapa antes de atravessá-lo. A voz grave, que saiu pausada como se cada palavra fosse escolhida com cuidado, cortou o silêncio.

"A floresta trouxe você para um propósito."

Lucas sentiu o estômago cair. Não era uma ameaça, e também não era uma afirmação qualquer — o tom do Curupira soava como quem recitava algo que já sabia havia muito tempo, e que Lucas ainda precisava descobrir. O polegar continuou acariciando a bochecha num vaivém lento, e a outra mão da criatura foi até o queixo de Lucas, pairando sem tocar, como se o corpo do humano inteiro estivesse à sua disposição.

"Você sabe o peso da própria arrogância?"

A pergunta foi feita num tom tranquilo, mas Lucas entendeu que era uma daquelas perguntas que não aceitavam resposta fácil. Ele pensou em Seu Antônio, nos avisos ignorados, na risada que tinha dado diante do nome daquela criatura. Pensou no drone derretido, no laptop queimado, nas pegadas em brasa contornando a cabana. A boca se abriu para responder, mas o Curupira balançou a cabeça devagar, cortando a fala antes que ela nascesse.

"Renas também para mim," ele disse, com uma honestidade que Lucas não esperava. "Eles se acham donos da floresta, donos de tudo que a mata produz. Você pensa que veio documentar, que veio registrar, que veio extrair um pedaço de natureza para levar embora e exibir como troféu."

Os fios de fogo se agitaram com a última palavra, soltando pequenas faíscas que se apagaram antes de alcançar o chão.

"Você também veio extrair alguma coisa. Não sei o quê — talvez imagem, talvez dinheiro, talvez uma fantasia de estar perto da selva sem jamais deixa-la tocar em você. Mas a floresta é paciente, e ela me trouxe até aqui para descobrir a razão."

A mão que segurava o queixo de Lucas se fechou, dois dedos sustentando-o com firmeza, e o rosto dele foi erguido na direção da luz das chamas que subiam da cabeça do Curupira. A claridade rubra iluminou as linhas do rosto de Lucas, os olhos arregalados, a boca entreaberta, e o silêncio entre os dois se esticou até quase doer.

"Negue," o Curupira ordenou, a voz agora mais baixa, mais perigosa. "Negue que você é bonito. Diga em voz alta que não tem beleza nenhuma."

Lucas piscou, confuso. "O quê?"

"Repito. Diga que não tem beleza nenhuma."

" Eu não..." Lucas engoliu em seco. A mão no queixo não doía, mas a proximidade dos olhos âmbar fazia seu pensamento embaralhar. "Eu não consigo."

A ordem veio novamente, com a mesma calma, o mesmo tom de quem ensina uma lição. "Repete. Diga que você não é bonito, e que a floresta se enganou ao trazer você para cá."

"Eu não consigo... mentir, quer dizer..." Lucas tentou virar o rosto, mas os dedos não permitiram. "Eu não consigo dizer isso."

O Curupira ficou em silêncio por um longo momento. Quando soltou o queixo de Lucas, foi tão devagar que Lucas não notou o momento exato em que os dedos se foram. A mão dele voltou para o próprio pé esquerdo, como se fosse um hábito, e então, sem usar os braços para se apoiar, o ser se ajoelhou no chão à frente de Lucas.

As chamas dos pés espalharam brasas que se apagaram nos tacos de madeira com um chiado leve. A postura era deliberada, cerimoniosa, como um emissário que se apresenta diante de um soberano. O rosto do Curupira ficou na altura da cintura de Lucas, os olhos âmbar voltados para cima, e o sorriso que já tinha aparecido antes voltou, menos provocador, mais íntimo.

Ele ergueu a mão novamente, como quem pede algo.

"Então aprenda," ele murmurou, e os olhos âmbar desceram para os pés descalços de Lucas.

As mãos do Curupira envolveram o pé de Lucas com uma delicadeza que contradizia tudo o que ele sabia sobre aquela criatura. Os dedos quentes seguraram o calcanhar e a ponta, erguendo o pé descalço do chão com um cuidado quase devoto, como quem levanta algo que merece reverência. A pele de Lucas estava suja de terra, as solas marcadas pelo chão de madeira e pela caminhada até a clareira, e o Curupira examinou isso tudo sem parecer notar, o olhar fixo no pé como se fosse o objeto mais importante daquele quarto.

Lucas apoiou as mãos na parede atrás de si, sentindo o verniz frio sob as palmas, e viu o Curupira levar o pé até a boca. O polegar deslizou pela sola primeiro, um toque de exploração que fez o pé de Lucas tentar se retrair, mas a outra mão segurou firme. A boca se abriu, os dentes afiados mordendo o dedão com um aperto que não rompeu a pele, apenas marcou, e então os lábios se fecharam ao redor do pé inteiro.

A sensação era quente e molhada, e o choque percorreu a espinha de Lucas como um relâmpago de baixa voltagem. Ele sentiu os joelhos dobrarem antes de conseguir impedir, e a parede foi a única coisa que o segurou de pé enquanto o Curupira sugava lentamente, um movimento de lábios que se arrastava pelo pé como quem bebe algo que demora a acabar. A língua veio depois, passando entre os dedos um a um, traçando caminhos que Lucas nunca tinha imaginado que existissem ali.

Ele olhou para baixo, na direção dos olhos ambarados que observavam cada tremor seu enquanto a boca trabalhava. O Curupira não fechou os olhos, não se perdeu no ato; ele assistia, capturando cada reação, cada arrepio, cada som abafado que Lucas tentava reter na garganta. As chamas dos cabelos crepitaram mais alto, iluminando o quarto num tom avermelhado que parecia tingir a própria pele de Lucas.

O pé foi solto com um estalo úmido que fez Lucas fechar os olhos por um segundo. Quando os abriu, o Curupira ergueu o olhar para seu rosto, e a voz que saiu dele tinha a textura de uma brasa que ainda não esfriou.

"Você vai aprender a me enxergar de perto."

Ele se levantou sem usar as mãos, um movimento que não deveria ser possível e que foi executado com uma elegância impossível. A altura do corpo dele preencheu o espaço na frente de Lucas, os ombros largos, a pele morena brilhando no reflexo das próprias chamas, e a mão se apoiou na nuca de Lucas, guiando-o para fora da parede.

A mão na nuca era quente e firme, sem pressão mas sem espaço para resistência, e Lucas se deixou conduzir pelo quarto, sentindo a maciez da cama contra as costas quando o corpo foi deitado no colchão de espuma que a ONG tinha deixado. O Curupira se sentou ao lado, acomodando-se como quem ocupa um espaço que já é seu, mas não se deitou, não avançou, não tomou nada que não tivesse sido oferecido.

A mão dele pousou no peito de Lucas, sentindo o coração acelerado sob a camiseta, e o calor dessa palma atravessou o tecido com uma intensidade que fez a respiração de Lucas falhar.

"Você tem medo de querer", o Curupira disse, sem julgamento. "Medo de querer e de perder o controle. Acho que a floresta trouxe você até aqui para que eu ensine o contrário."

Lucas olhou para ele, os olhos abertos, o corpo trêmulo, e o Curupira sustentou o olhar, começando a lição com a calma de quem tem toda a noite — e toda a eternidade — pela frente.

Comments (0)

No comments yet. Be the first to share your thoughts!

Sign In

Please sign in to continue.