Published on August 16, 2026

Capítulo 1: O Influenciador e a Floresta

O ring light tilts twice on the tripod before Lucas manages to lock it in place. He adjusts the angle by centimeters, checks the phone screen to see how the golden hour light bounces off his cheekbones, and decides it's acceptable, though far from ideal. Thirty-seven degrees in São Paulo and the terrace felt like a convection oven, the kind of heat that made his skin glisten in a way that looked intentional on camera but was mostly just uncomfortable.

"Gente, olha esse calor," ele disse, apontando a câmera para o horizonte de prédios que se estendia até onde a vista alcançava. "Trinta e sete graus e eu aqui, mantendo a disciplina. Quem quer resultado não descansa."

Ele se posicionou no tapete de yoga que ocupava um canto do terraço, de costas para a porta de vidro que dava para o living. A TV estava ligada lá dentro, um canal de notícias que rodava uma reportagem sobre desmatamento na Amazônia. Imagens aéreas mostravam clareiras abertas na floresta, tratores removendo árvores centenárias como se fossem ervas daninhas. Lucas não desviou o olhar do próprio reflexo no espelho que ele mesmo instalara ao lado do ring light, ajustando a postura para o primeiro abdominal.

"Trinta repetições com técnica perfeita", anunciou, controlando a respiração. "Sem atalhos, sem desculpas."

A matéria na TV continuava, um especialista falando sobre a perda de biodiversidade, sobre espécies que desapareciam antes mesmo de serem catalogadas. A voz era grave e preocupada, o tom adequado para o tipo de tragédia ambiental que rendia cliques e compartilhamentos. Lucas sustentou o abdominal por três segundos, sentindo a queimação no abdômen, satisfeito com a definição que aparecia no reflexo.

Na décima segunda repetição, o celular vibrou no bolso do short. Ele ignorou, mantendo o ritmo. Na vigésima, ignorou de novo, contando mentalmente os segundos que faltavam para terminar a série. Quando terminou, pegou o aparelho e leu a mensagem que esperava havia dias.

Rafael, seu produtor, tinha mandado um bloco de texto com a proposta. Um documentário na Reserva do Juruena, no sul da Amazônia. Um mês de trabalho, cachê alto, passagens e hospedagem incluídas. O contratante era uma ONG ambiental que queria material para campanhas de conscientização.

Lucas leu a mensagem duas vezes, parando no valor do cachê. Era mais do que ele ganhava em três meses de postagens patrocinadas. A reserva ficava no meio do nada, pela descrição que Rafael enviou, mas um mês era um mês. Ele poderia levar o drone, gravar conteúdo de sobra, editar depois de voltar.

"Fecha que eu topo", respondeu, digitando rápido.

Antes de guardar o telefone, abriu o aplicativo de câmera e gravou um stories. "Mudança de planos, gente! Vou passar um mês na Amazônia, documentando a fauna da Reserva do Juruena. Vocês sabem como eu sou apaixonado pela natureza... então é isso. Vou salvar a Amazônia, um drone de cada vez."

Ele ergueu a garrafa de isotônico da marca que patrocinava seus vídeos, mostrando o rótulo para a câmera com um piscar de olhos. "Hidratação garantida, é claro. Vou mostrar tudo por aqui, fiquem ligados."

A reportagem sobre desmatamento ainda passava na TV quando ele desligou a gravação. A clareira vista de cima parecia uma ferida na floresta, terra marcada, árvores caídas em ângulos tortos. Lucas balançou a cabeça com simpatia, guardando o telefone no bolso. Triste, com certeza. Mas ele tinha uma mala para fazer.


O helicóptero pousou com um impacto que Lucas sentiu nos dentes. Dois dias depois, lá estava ele, em pé numa clareira no meio da Reserva do Juruena, com a bagagem espalhada aos seus pés e a certeza de que sua pele não duraria uma semana naquele lugar.

Chovia. Não uma chuva normal, mas uma garoa quente e constante que fazia o pior tipo de umidade possível: aquela que não lava a poeira, só transforma o ar em gelatina. Lucas passou a mão no rosto, sentindo o suor e a água se misturarem, e espantou um mosquito que zumbia perto da orelha.

"Que calor é esse, sério?", reclamou para ninguém em particular. Outro mosquito, outro tapa no ar. Ele usou as duas mãos, gestos amplos e exagerados, esperando que algum drone da equipe estivesse filmando essa parte.

O guia que aguardava na clareira tinha a pele queimada de sol e usava um chapéu de palha amarrado com um cordão de couro. Deu um passo à frente, estendendo a mão com uma paciência que parecia crônica. "Seja bem-vindo. Meu nome é Seu Antônio, sou guia da reserva há vinte anos. Vou te mostrar os limites do território e as áreas que você pode filmar."

Lucas apertou a mão do homem com rapidez, já voltando a atenção para o celular, tentando achar sinal. "Limites? Pensei que fosse livre para filmar o que quisesse."

"Livre até certo ponto", disse Seu Antônio, com um sorriso que não alcançava os olhos. "A floresta tem regras próprias. Muitos lugares por aqui, a gente não entra quando caí a noite. E tem coisas que a câmera não precisa registrar."

"Lendas da região, né?", Lucas deu um tapinha no ombro do guia, mais para encerrar o assunto do que por camaradagem. "Cobras gigantes, espíritos da mata, esse tipo de coisa. Fica tranquilo que eu sei lidar com isso."

Seu Antônio olhou para o chão, para as próprias botas, e o silêncio entre os dois durou mais do que o necessário. "Curupira", disse finalmente, com um peso que Lucas não entendeu naquele momento. "Aqui, ninguém fala do Curupira em voz alta depois do pôr do sol. Dizem que ele escuta. E que não gosta de ser desrespeitado."

Lucas riu, um riso seco que cortou o som das cigarras. "Curupira não existe, Seu Antônio. Estou aqui para filmar a fauna real, documentar animais de verdade."

O velho guia ajustou o chapéu devagar, os dedos manchados se movendo com uma calma que Lucas achou irritante. "Existe, sim. E se você tiver sorte, vai continuar achando que não."


A tarde passou com o zumbido constante das hélices do drone. Lucas pilotava o equipamento por cima da copa das árvores, olhando a transmissão ao vivo no controle enquanto narrava o que via. O contraste entre a floresta real e a imagem na tela era brutal: o que parecia uma parede verde uniforme de longe, quando filmado de perto, era uma colcha de retalhos de tons diferentes, árvores que se tocavam, bromélias agarradas aos troncos, algumas flores que ele não sabia nomear.

"Estamos sobrevoando a copa da floresta amazônica", falou para o gravador do controle. "A diversidade aqui é absurda, cada metro quadrado tem uma espécie diferente..."

Ele fez uma pausa, enxugando o suor do pescoço com a camisa que usava amarrada na cintura. A narração era para o vlog que produzia depois, na edição, com cortes precisos, trilha sonora adequada e, se possível, sem nenhuma menção ao calor que fazia sua camiseta parecer uma esponja.

O drone flutuou por mais duas horas seguindo o curso de um rio estreito que cortava a reserva, até as baterias avisarem que era hora de voltar. Lucas o recolheu com um suspiro de alívio, sentando numa árvore caída que servia de assento improvisado. Ele olhou o vídeo que tinha capturado, os gigas de material bruto que exigiriam horas de edição, e pensou, sem qualquer culpa, no cachê da ONG.

O sol ainda estava alto quando decidiu que era o suficiente para o primeiro dia. Já tinha material para dois vlogs, mais as fotos que postaria no Instagram antes de dormir. A floresta podia esperar. Ele não ia salvá-la em uma tarde, de qualquer forma.

Lucas levantou do tronco, guardando o drone na mochila, e caminhou de volta para a clareira onde estava a cabana que a ONG tinha reservado para ele. A água da garoa quente escorria pelo rosto, e ele passou a mão no pescoço, sentindo a pele irritada pelo sal. O vlog sobre o primeiro dia na reserva precisaria de muito filtro para parecer o que ele imaginava. Ou talvez só um filtro mais forte.

A cabana tinha o cheiro de madeira molhada e algo que ele preferiu não identificar. Lucas ligou o laptop na mesa de madeira que fazia as vezes de escrivaninha, conectou o cartão de memória do drone e abriu as gravações da tarde. A tela acendeu com a imagem da copa das árvores, verde até onde o olho alcançava.

Ele passou os primeiros minutos apenas avançando o vídeo rapidamente, procurando os melhores trechos para o vlog. Uma arara azul apareceu por um segundo entre as folhas, e ele marcou o minuto exato. Um bando de macacos saltou entre galhos numa sequência que ficaria ótima em câmera lenta. Ele anotou tudo no bloco de notas do celular, o suor ainda escorrendo pela testa.

Foi na terceira hora de material que algo estranho apareceu.

Um borrão avermelhado surgiu entre as árvores, no canto esquerdo do enquadramento, lá pelas margens do rio. Lucas franziu o cenho e pausou o vídeo, voltando alguns segundos para ver o momento exato em que a coisa aparecia. O drone havia passado reto, seguindo a rota programada, mas algo tinha ficado parado na beira da mata, semioculto pelas folhas.

Ele deu zoom na imagem, primeiro uma vez, depois duas, esperando ver o tronco avermelhado de alguma árvore ou talvez uma flor grande demais para a distância. A imagem ficou granulada, mas ainda era possível distinguir contornos. Dois formatos alongados, um ao lado do outro, com uma textura que não parecia vegetal. Ele apertou o zoom mais uma vez e a imagem se desfez em pixels.

Lucas ajustou o brilho da tela, carregou o frame para o programa de edição, aplicou nitidez. O que apareceu foi desconcertante: pés humanos, virados para trás, com os calcanhares à frente e os dedos apontados na direção oposta. Pelos vermelhos, vibrantes, cobriam cada centímetro da pele até os tornozelos, onde se misturavam com algo que tremulava como chamas, fazendo o contorno da imagem parecer líquido.

Ele piscou. Olhou de novo. A imagem continuava lá, os pés virados na direção errada, os dedos ligeiramente curvados como se estivessem prontos para correr. Uma pele que não era pele, um fogo que não era fogo, algo que existia entre categorias que Lucas conhecia e que, no momento, ele não sabia como nomear.

"Seu Antônio", murmurou, com um riso que saiu mais nervoso do que pretendia. Ele lembrou do guia, das palavras sobre o Curupira, sobre não falar depois do pôr do sol. Bobagem. Uma montagem, talvez, ou uma raiz estranha fotografada de um ângulo ilusório. Poderia ser qualquer coisa, desde que ele conseguisse uma explicação plausível.

A tela do laptop piscou.

Uma vez, duas vezes, como uma falha de energia. Depois, um chiado agudo saiu dos autofalantes, um som fino e desagradável que fez Lucas pular da cadeira. A imagem congelou nos pés virados para trás, os pixels se distorcendo até formar um borrão avermelhado, e do lado do laptop subiu uma fumaça fina de plástico queimado.

Ele deu um passo para trás, o coração batendo contra as costelas. O laptop desligou-se sozinho com um estalo seco.

Lucas ficou parado no centro da cabana, olhando para o aparelho morto na mesa, quando ouviu o barulho do lado de fora. O zumbido das hélices do drone, que ele tinha deixado apoiado na varanda para secar, ficou agudo demais, um gemido que subiu de tom até se transformar num chiado metálico. Quando ele empurrou a porta de madeira que não tinha mola, o equipamento despencou da varanda com um impacto surdo no chão.

As hélices estavam derretidas, deformadas em ganchos, o plástico preto ondulado como uma vela que ficou tempo demais no fogo.

"Que porra é essa?"

Ele se abaixou, pegou o drone pelos destroços, e jogou no chão com força. Pisou no plástico quente, uma vez, duas vezes, com raiva cega que surgiu do nada feito uma onda. O barulho da batida das solas contra a carcaça se espalhou pela clareira até o momento em que o silêncio da mata fez mais barulho do que o próprio impacto.

Quando levantou o olhar, o sol já não estava mais lá.

A noite tomou conta da reserva em menos de vinte minutos. A escuridão baixou entre as árvores como um véu grosso, espesso, que engolia os contornos das coisas. Lucas entrou na cabana às pressas, trancou a porta com o ferrolho de metal e encostou as costas nela, esperando o alarme do próprio corpo acalmar.

Só tinha o celular para carregar, e ele o plugou na tomada com uma oração silenciosa para que a energia aguentasse. A tela acendeu, o ícone de bateria piscou, e então o sinal caiu. Uma barra, depois nenhuma. O aparelho tentou reconectar, falhou, reconectou, falhou de novo.

Lucas largou o celular no colo, olhando a tela escura. Lá fora, a floresta fazia barulhos que ele não conseguia identificar.

Foi quando ouviu o riso.

Baixo, próximo, do lado de fora da cabana, abafado pela espessura da madeira. Não era um riso de criança nem de adulto, e sim algo entre os dois, um som que ecoava de um jeito errado. Lucas prendeu a respiração, virando a cabeça na direção da parede que dava para a clareira.

O riso se repetiu, e então os passos começaram.

Som de pés na terra, o barulho de folhas secas sendo esmagadas com cuidado. Ele acompanhou o som pela lateral da cabana, passos que saíam de um lado, somavam uma linha reta, e chegavam ao outro lado sem caminho lógico. Não era um zumbido contínuo, e sim um quebra-cabeça em movimento, passos que pareciam atravessar o espaço em círculos apertados, às vezes dobrando sobre si mesmos como se algo andasse pelo teto, pelas paredes, pelo próprio ar.

Lucas tirou a câmera de mão da mochila, ligou-a e confirmou que a bateria estava carregada. Abriu a porta com apenas um palmo de espaço, esticando o braço para fora para gravar o som. A câmera estava apontada na direção da clareira, no escuro.

O riso parou.

O silêncio que se instalou foi pior, um oco que engoliu os sons da floresta. As cigarras, que cantavam sem parar desde o pôr do sol, estavam mudas. Os sapos, mudos. Até o vento parecia ter prendido a respiração.

Lucas saiu da cabana devagar, com a câmera ainda estendida, e girou em 360 graus, filmando tudo. A clareira vazia, as árvores ao redor, os contornos escuros que avançavam para a mata fechada. Nada na tela. Nenhum olho refletindo luz, nenhuma forma se movendo entre os troncos.

Ele girou de novo, mais devagar, esperando que algo aparecesse no visor acoplado à câmera, porque a alternativa era o mundo real sem explicação. A clareira inteira estava coberta pela tela da câmera, vazia, parada, sem origem para o riso que ele ainda ouvia na própria cabeça.

O contorno de algo avermelhado piscou no canto da tela.

Ele abaixou a câmera.

O contorno avermelhado estava a três metros na sua frente, parado na beirada da clareira onde a grama encontrava as primeiras árvores. Não havia como ter passado despercebido — a clareira era aberta, sem cobertura, e Lucas tinha acabado de varrer todo o espaço com a lente em 360 graus. E, ainda assim, ali estava ele, como se tivesse se materializado entre um piscar e outro.

O cabelo do ser era a primeira coisa que Lucas conseguiu processar. Fios incandescentes que subiam da cabeça como chamas presas em movimento lento, estalando com pequenas faíscas que se apagavam no ar antes de tocarem o chão. A pele era morena, marcada por linhas que pareciam cicatrizes ou talvez desenhos antigos, e o peito nu subia e descia num ritmo calmo, tranquilo, como se aquela presença não fosse nada além de rotina.

O sorriso aparecia por entre os fios de fogo que escorriam pelo rosto: dentes afiados, brancos demais para qualquer criatura da mata, curvados numa expressão que era metade provocação, metade fome. E os olhos — âmbar, ardentes, fixos nele com uma intensidade que fazia o corpo de Lucas vibrar mesmo à distância.

Então ele olhou para baixo.

Os pés descalços estavam plantados na grama, e cada passo que a criatura devia ter dado deixara marcas em brasa na vegetação. As chamas lambiam o capim sem consumi-lo, sem espalhar fumaça, sem deixar cinzas. Apenas luz e calor que se apagavam aos poucos, como brasas de uma fogueira que não quer terminar.

"Uma pegada que queima sem queimar", Lucas ouviu a própria voz sussurrar, e era o tipo de frase que ele diria no vlog, só que agora não havia câmeras, não havia edição, não havia nada entre ele e a coisa que o encarava na beira da clareira.

A criatura não se moveu. Lucas ficou com a câmera pendurada na mão, sem saber se devia erguê-la de novo ou simplesmente correr. Antes que decidisse, o ser inclinou a cabeça para o lado com um movimento lento e curioso, e a voz que saiu da garganta dele parecia ter sido cortada de pedra — grave, áspera, quente como o ar em volta das brasas.

"Você veio filmar."

Não era uma pergunta. As palavras foram ditas como constatação, com a mesma naturalidade de quem comenta o clima.

"Eu também quero filmar você."

O ser ergueu a mão, e Lucas só então percebeu que ele segurava uma câmera — não uma câmera como as que Lucas conhecia, mas algo antigo, uma caixa de madeira escura com uma lente de vidro grosso na frente, daquelas que os fotógrafos usavam cem anos atrás. Ela era pequena, cabia na palma da mão do Curupira, e o visor — um quadradinho de vidro na parte de trás — tinha uma tela escura que refletia algo.

O rosto pálido de Lucas.

Ele se viu naquele visor, pequeno e distorcido pela curvatura do vidro, e o reflexo era de um homem que não estava simplesmente com medo. Era de um homem que estava sendo refletido de volta para si mesmo por algo que não deveria existir, e essa diferença fazia todo o sentido do mundo e ao mesmo tempo nenhum.

Os dedos do Curupira se moveram sobre o corpo da câmera, acariciando a madeira com um carinho que parecia genuíno, e o sorriso afiado se alargou quando ele deu um passo à frente.

Lucas correu.

Ele girou no próprio eixo, os pés escorregando na grama molhada, e fez o percurso até a porta da cabana em segundos que duraram uma eternidade. O ferrolho fechou atrás dele com um estalo que ecoou pelo ar e ele encostou as costas na porta de madeira, o coração batendo tão forte que fazia sua visão pulsar nos cantos.

Ele ficou ali, imóvel, no escuro, ouvindo o próprio fôlego rasgado preencher o silêncio. Lá fora — nada. Nenhum passo, nenhum estalo de fogo, nenhuma pegada em brasa sendo plantada na grama. A floresta tinha voltado ao normal, quieta e noite, como se nada tivesse acontecido.

Um minuto passou. Talvez dois. Ele foi até a janela estreita que ficava ao lado da porta, espiou pela fresta da veneziana de madeira.

A clareira estava vazia.

As árvores no limite da clareira formavam um anel escuro, parado, sem movimento. Apenas as pegadas em brasa permaneciam, e Lucas percebeu então que elas se estendiam ao redor da cabana, contornando a estrutura como um rastro que alguém desenhava com cuidado. Um círculo incompleto — quase uma volta inteira, mas com uma abertura do lado leste. Como se a criatura tivesse começado um laço e desistido no último passo.

O corpo de Lucas emitiu um soluço que ele não pediu.

Ele girou, instintivamente, para conferir a porta do quarto no fundo da cabana. Não queria que tivesse nada atrás dele, precisava saber que aquele espaço era só dele, que não havia fogo e pés virados para trás entre as paredes de madeira.

Uma forma escura ocupava a cama quando ele entrou no quarto.

O corpo se mexeu num movimento lento, um estiramento prazeroso que tensionava a pele nua do pescoço, os dedos se movendo primeiro — dedos longos, escuros, que passavam entre o pelo de fogo que cobria o peito e depois desciam para os pés, acariciando qualquer coisa que começasse no tornozelo e fosse até a ponta dos dedos. As chamas dos pés tremulavam com o toque, mais suaves agora, e a expressão no rosto do Curupira era completamente serena.

Ele estava sentado na beirada da cama, uma perna ligeiramente levantada, o pé apoiado no colo, como quem aprecia uma joia rara. Os dedos deslizaram entre os fios incandescentes que cobriam o peito do pé, um movimento lento, metódico, afagando o que parecia precioso. Cada toque fazia o fogo dançar para envolver seus dedos, numa carícia que não tinha pressa.

Lucas congelou no batente da porta.

A criatura não desviou o olhar dos próprios pés por um momento, dedicada à própria admiração. Então, devagar, levantou a cabeça, os olhos âmbar encontrando os de Lucas através da escuridão do quarto. O sorriso se alargou num gesto lento, premeditado, como um convite que não tinha palavras e não precisava ter.

Vem, dizia aquele sorriso, e Lucas não soube dizer se o corpo dele avançou ou recuou — ou se ficou inteiramente parado, esperando o que viesse em seguida.

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