Capítulo 1: O Pânico Programado

Guilherme corria pela praça central da Cidade Inicial de Aethel, um ponto de respawn genérico que parecia construído a partir de dezenas de jogos de RPG medievais misturados numa paleta de cores ligeiramente dessaturadas. Ele estava desesperado, movendo-se em zigue-zague entre os modelos de personagens que povoavam o lugar, tentando alcançar uma saída que ele sabia não existir de verdade. Seu fôlego vinha curto, o traje de aventureiro nível zero pinicava contra a pele.

Apesar do ambiente ser inteiramente pixelizado e renderizado de modo competente, existia um objeto que ele segurava com a força da gravidade: sua carteira de identidade física, um pequeno cartão de plástico laminado que trazia sua foto e a data de nascimento. Ele usava a ponta do polegar para sentir a textura fria e real do plástico, um ponto de ancoragem minúsculo contra a histeria digital que o engolia. Esse documento, puramente burocrático, tinha se tornado a única prova de que ele existia fora daquela prisão de código. Olhar para o nome completo impresso ali, Guilherme Rodrigues Fonseca, o lembrava de que ele já teve um status diferente do atual, forçado de 'Avatar do Jogador'.

Ele precisava se comunicar, precisava romper o ciclo de repetição que mantinha aquela realidade falsa coesa. Seu alvo imediato era a estrutura mais próxima que parecia ter alguma função além de decoração.

Um NPC Mercador estava parado perto de uma carroça velha que vendia itens de cura básicos. O Mercador era um sujeito robusto, com barba espessa e um avental de couro que parecia ter a mesma resolução baixa do resto do cenário. Guilherme acelerou o passo, empurrando um Camponês que carregava um feixe de palha virtual para fora do caminho.

"Ei, você! Você precisa me escutar!" Guilherme gritou, a voz rouca, chegando ao NPC e plantando-se diretamente em sua frente, ignorando a fila inexistente de compradores. Ele tentava projetar urgência, esperando que a surpresa quebrasse o roteiro. "Isto não é real! É uma simulação estúpida, um software rodando no computador de alguém!"

Guilherme gesticulava franticamente, sentindo a ironia da situação. Ele estava vestindo roupas de fantasia, mas gritava palavras como "Matrix" e "Joystick" esperando que o Mercador entendesse a referência cultural, percebesse o anacronismo da terminologia e acordasse de alguma forma. Ele tentava explicar o conceito do "Jogador", a entidade fria e invisível que lhe dava comandos forçados. "Existe um cara lá fora, com um joystick, decidindo o que você faz! O que você vende! Ele controla tudo!"

O Mercador, no entanto, processava a informação em uma velocidade de loading inabalável. O rosto do NPC permaneceu neutro, sem sinal de espanto ou questionamento. Era óbvio que o sistema de reconhecimento de voz do personagem tinha falhado em identificar as palavras-chave de Guilherme, tratando toda a torrente de desespero como ruído.

"Tome uma poção de vida, forasteiro! É a melhor mercadoria da Cidade Inicial de Aethel," o Mercador respondeu, ignorando completamente o aviso de Guilherme. A voz dele era mecânica, um eco de áudio que soava claro demais para a acústica da praça. Era um diálogo de RPG pré-programado, uma linha de código que se repetia eternamente. "Tome uma poção de vida, forasteiro!" Ele estendeu uma pequena garrafa virtual, cujo líquido vermelho parecia ter uma animação de brilho bastante simples.

Guilherme recuou um passo, a frustração fechando sua garganta. Ele tentou de novo, usando palavras mais básicas, mas o resultado foi o mesmo. O Mercador, fixo naquele loop de vendas, simplesmente repetiu sua oferta padronizada sem sequer piscar os olhos digitais. "Tome uma poção de vida, forasteiro! A cura é para os corajosos!"

A completa inutilidade da tentativa pesou sobre Guilherme. Ele podia sentir nitidamente o peso da programação inflexível. Ele era o único com livre arbítrio aqui, ou melhor, ele era o único cujo livre arbítrio estava sendo ativamente roubado, enquanto os outros sequer tinham um para começar.

Ele precisava de uma plateia maior. Se ele movesse a cena, talvez o contexto mudasse. Guilherme deu as costas ao Mercador preso em seu balcão e olhou pela praça da cidade. A poucos metros de distância, perto de um poço de pedra que não parecia ser usado por ninguém, estava um grupo de NPCs camponeses. Eles pareciam estar esperando que algum evento os ativasse, talvez o início de uma missão de busca ou a chegada de um herói.

A ideia de quebrar a ilusão se tornou uma urgência. Se ele não conseguisse convencer os NPCs, ele pelo menos gritaria alto o suficiente para que o próprio "Jogador" se sentisse incomodado com o barulho na tela. Guilherme praticamente deslizou pela pedra irregular do chão, avançando em direção ao grupo.

Ele intensificou o volume de seus gritos, usando a praça como um megafone. "Vocês todos são falsos! Personagens não jogáveis! Ninguém se importa com os seus campos ou os seus Goblins! É tudo mentira!"

Guilherme estava gritando sobre a farsa do mundo para pessoas que não podiam entender o conceito de farsa, mas ele tinha que tentar. Ele estava tão perto do grupo agora que podia ver os detalhes nas roupas digitais deles, a baixa contagem de polígonos nas cestas que eles carregavam. O desespero fez com que a voz de Guilherme atingisse um volume ainda mais alto. Ele praticamente berrava que eles deveriam olhar para as suas mãos, questionar a lógica daquele sol constante e perfeitamente posicionado.

Mas a reação dos Camponeses veio em uníssono, com uma sincronia que era quase assustadora, confirmando a natureza repetitiva e controlada da dimensão.

Os três Camponeses levantaram as cabeças e ativaram suas linhas de diálogo limitadas.

"Os campos precisam de água!" disse o primeiro, a voz fininha e repetitiva.

"Cuidado com os Goblins!" alertou o segundo, com a mesma entonação de quem fazia um aviso ensaiado mil vezes.

"Os campos precisam de água!" repetiu o terceiro, ignorando completamente a declaração de Guilherme sobre eles serem meros avatares.

A resposta coordenada deles era a prova mais brutal da prisão digital, um coro robótico de falas que ele já tinha ouvido em outras cidades iniciais deste ciclo de jogos. Era impossível ter uma conversa real. Era impossível quebrar as paredes de código. Ele estava sozinho, confinado com bonecos de corda que só se moviam quando o sistema de jogo lhes permitia.

Guilherme deu um passo para trás, sentindo o ar quente e artificial do jogo queimando em seus pulmões, o cartão de identidade em sua mão ficando escorregadio de suor. A frustração era um peso líquido no estômago, uma náusea que ameaçava derrubá-lo.

A resposta coordenada deles era a prova mais brutal da prisão digital, um coro robótico de falas que ele já tinha ouvido em outras cidades iniciais deste ciclo de jogos. Era impossível ter uma conversa real. Era impossível quebrar as paredes de código. Ele estava sozinho, confinado com bonecos de corda que só se moviam quando o sistema de jogo lhes permitia.

Guilherme deu um passo para trás, sentindo o ar quente e artificial do jogo queimando em seus pulmões, o cartão de identidade em sua mão ficando escorregadio de suor. A frustração era um peso líquido no estômago, uma náusea que ameaçava derrubá-lo. Ele sabia perfeitamente que qualquer tentativa adicional de diálogo seria inútil. Aqueles Camponeses não eram pessoas coesas, eram simplesmente modelos 3D com um pequeno banco de dados de áudio. Eles estavam presos no loop tanto quanto ele, mas sem a consciência do tempo real que se curvava e se quebrava ao redor deles.

Ele podia sentir a energia evaporando de seu corpo. Gritar só servia para gastar sua própria força, e o ambiente permanecia completamente apático.

De repente, a luz na praça pareceu falhar, como se a lâmpada em algum gigante hardware estivesse prestes a pifar. Uma mudança drástica aconteceu na sua percepção visual. A borda de seu campo de visão, onde normalmente ele via informações de status como barra de vida ou mana (muito embora ele se recusasse a olhar para elas ativamente, para não validar a falsidade do HUD), começou a piscar violentamente. A cor era um vermelho berrante, quase pulsante.

Era um alerta de sistema. Ele reconheceu o padrão de imediato. Isso significava que o Jogador, o controlador invisível, tinha percebido seu desvio de comportamento.

A reprovação veio na forma de uma voz. Não era alta, mas ressoava diretamente em sua cabeça, atravessando a caixa craniana com um som gelado e digitalizado, quase sintetizado. Era a voz que ele associava ao Jogador, fria e sem qualquer emoção humana, muito parecida com um aviso de software crítico.

"Desvio de protocolo detectado. Comportamento não autorizado. Retorne à rota principal."

A voz não pedia. Ela ditava. A frase se repetiu três vezes em um eco seco dentro de seu cérebro, acompanhada do piscar irritante do vermelho na sua visão periférica. Guilherme cobriu as orelhas com as mãos, mesmo que soubesse que o som não vinha de fora. O Jogador estava acessando diretamente sua mente, a interface imposta sobre sua consciência.

Guilherme se sentia como um programa de computador que tentava rodar um comando para o qual não tinha permissão. Cada célula de sua raiva era uma linha de código que o sistema reescrevia instantaneamente. O "Retorne à rota principal" era a ordem mais clara que ele receberia, uma punição por tentar quebrar a Quarta Parede.

O sistema de jogo rapidamente forçou uma transição para corrigi-lo. Era um mecanismo de controle de narrativa. Quando o avatar se desviava, o jogo ativava automaticamente um novo objetivo, algo que exigisse ação imediata para manter o player ocupado e, mais importante, sob comando.

Quase que imediatamente, o piscar vermelho deu lugar a uma explosão de fontes de pixel em amarelo e laranja brilhantes. Um novo aviso surgiu no canto superior de seu campo de visão, impossível de ignorar.

NOVA MISSÃO ADICIONADA: Side Quest Obrigatória: Silenciar o Mago

O título era um escárnio cruel. Obrigatória. Não havia escolha, nem opção de recusa. Não era uma missão de escolta, ou de entrega de itens, era uma missão para silenciar alguém, reforçando a natureza do controle do Jogador sobre a comunicação em Aethel. O sistema dele, Guilherme, tinha se tornado uma ferramenta para manter o status quo do jogo.

O HUD, aquele inferno de interface que ele tentava ignorar, agora estava totalmente mobilizado para obrigá-lo a cooperar. Ele sentiu seu corpo tensionar sob a ordem implícita do software. A cada vez que o Jogador intervinha de forma tão explícita, Guilherme perdia um pouco mais do controle sobre seus músculos.

A missão não veio desacompanhada. Quase como se estivesse desenhada a lápis sobre a paisagem, uma única flecha indicadora de missão, o terrível waypoint, se materializou. Era um grande ícone translúcido, girando lentamente, flutuando a uma distância de cerca de trinta metros.

O waypoint apontava para a entrada de um beco escuro e estreito, um canto negligenciado da Cidade Inicial, que cheirava a mofo programado. Algo que certamente seria ignorado pela maioria dos jogadores, um detalhe de cenário sem importância.

Lá, no limiar da escuridão do beco, estava um NPC. Ele não parecia um aventureiro nem um camponês. Era um Mago, de vestes surradas, de um cinza sujo que mal se destacava contra a sombra da parede. Mas, ao contrário dos Camponeses e do Mercador, este Mago parecia perturbado.

Ele estava se mexendo de forma errática, tremendo sutilmente. A boca dele se movia em murmúrios rápidos, e ele estava gesticulando com as mãos de uma forma que parecia desesperada, não mágica. O Mago estava tentando falar. E, crucialmente, Guilherme percebeu que o Mago estava tentando falar algo que não era tirado do diálogo padrão do jogo.

O Mago parecia uma falha, um código que tentava se desviar do script, uma pequena anomalia que o sistema, na sua tirania, precisava corrigir imediatamente. E o Jogador tinha escolhido Guilherme como o executor dessa correção.

Guilherme sentiu um puxão na região do umbigo, uma sensação de vertigem que não vinha de seu próprio desequilíbrio, mas sim da intervenção forçada do Jogador. O waypoint estava ativo, e o mapa interno de Guilherme ditava o movimento. Os seus músculos começaram a se contrair sem a sua autorização. Seu corpo, a última fronteira de seu ser, estava sendo sequestrado. A perna direita deu um passo para frente, depois a esquerda, na direção do Mago, mesmo que sua mente gritasse para ele correr para o lado oposto. Ele tentou lutar, mas a força imposta era sutil e esmagadora, como uma mão gigante movendo um boneco.

Ele era o Avatar, e tinha que obedecer ao joystick.

Ele era o Avatar, e tinha que obedecer ao joystick.

Os passos de Guilherme eram rápidos e constantes, totalmente despojados de sua própria intenção. Ele estava marchando em direção ao beco, os braços balançando de uma maneira que ele identificava como a animação genérica de movimentação em jogos. Era humilhante. Ele tentou cerrar os punhos, mas até o aperto muscular parecia suavizado pelo software, transformando sua raiva em uma caminhada determinada.

"Para! Eu não quero fazer isso!" Guilherme tentou gritar internamente, mas o comando forçado superava a descarga de adrenalina de sua vontade. A intervenção do Jogador era óbvia, um controle direto sobre o esqueleto e a motricidade. Era como assistir a um filme em que ele era o protagonista, mas o ator tinha sido substituído por um robô. O cartão de identidade, que ele segurava com tanta força, ameaçava escorregar.

Aproximando-se do Mago, Guilherme sentiu a temperatura do ambiente cair, talvez um efeito de falha no servidor ou apenas a sugestão do medo. O Mago de vestes surradas, com rugas profundas no rosto, olhava para Guilherme com uma mistura de terror e súplica. A flecha indicadora de missão pairava justo acima da cabeça do NPC, brilhando intensamente.

O Mago parecia reconhecer o tipo de movimento que Guilherme estava realizando. Ele percebeu que Guilherme não estava vindo para ajudar, mas sim para executar alguma função do sistema.

Quando Guilherme estava a menos de um metro de distância, o Mago se inclinou subitamente, tentando usar o que restava de seu próprio controle motor para se comunicar rapidamente. Ele não gritava, mas sim sussurrava histericamente, com a voz raspando.

"Eles estão quebrando os... os códigos! A memória do servidor está sobrecarregada! Você... você precisa falar sobre o override..."

O Mago estava tentando transmitir informações críticas, palavras que eram veneno para o ambiente digital. Ele falava de back-end, de programação fundamental, de falhas que revelavam a natureza artificial da existência. Para Guilherme, era música, a primeira falha real que ele ouvia naquele mundo de diálogos repetitivos. Finalmente, alguém estava vendo através da cortina.

Mas a boca de Guilherme não respondia ao seu cérebro.

No momento exato em que o Mago mencionou a "memória do servidor", a mandíbula de Guilherme se moveu, puxada pela força invisível do controle. A boca de Guilherme se abriu, e um som estranho, quase um glitch de áudio, escapou antes que ele pudesse formular uma palavra de advertência ou ajuda.

"O que você está dizendo, viajante?" a boca de Guilherme perguntou, emitindo uma frase totalmente genérica, tirada de um banco de dados de interações. Era uma linha de diálogo que servia apenas para prolongar o tempo de resposta, um mecanismo de negação. Guilherme sentiu uma repulsa física pela maneira como sua própria voz soava falsa.

O Mago ficou ainda mais desesperado, percebendo que a pessoa à sua frente estava comprometida.

"Eles não podem saber que encontramos a fonte de erro! O patch vai apagar tudo! Rápido, pegue o-"

Não houve tempo para terminar. O Jogador agiu com precisão cirúrgica.

Guilherme sentiu os dedos da mão livre se moverem em direção à bainha rasgada de sua veste de aventureiro de baixa qualidade. Seus dedos agarraram o tecido com uma força que não era sua, rasgando um pedaço substancial. O som do tecido se partindo soou alto e real no silêncio forçado do beco.

A mão de Guilherme, agora com o pedaço de pano em um embrulho desorganizado, moveu-se violentamente para frente. Ele estava impotente, observando sua própria mão executar o ato de agressão. Sentiu o calor do bafo do Mago sob os dedos antes que o pano fosse empurrado com força para dentro da boca aberta do NPC. Os olhos do Mago se arregalaram em choque, a garganta emitindo um som sufocado e estranho, um ruído que era mais um erro no áudio ambiente do que um grito de dor.

O Mago cambaleou para trás contra a parede escura, tentando vomitar o pano, mas o tecido estava profundamente alojado, silenciando efetivamente qualquer tentativa de falar. Seus olhos, antes cheios de urgência, agora estavam apenas cheios de derrota. Ele era apenas um NPC, e o sistema tinha garantido que ele fosse calado.

A Side Quest Obrigatória brilhou na visão de Guilherme por um instante, o waypoint desaparecendo com um estalo de código.

Side Quest Obrigatória: Silenciar o Mago – CONCLUÍDA.

Uma pequena janela de notificação, no canto inferior direito, surgiu, apresentando a recompensa: + 50 XP.

Guilherme deu um passo cambaleante, recuperando o controle total de seus músculos, embora a sensação de ter agido sob coerção pesasse mais do que qualquer item de inventário. Olhou para o Mago, que agora escorregava pela parede, de volta ao estado passivo de um objeto de cenário. Ele tinha sido reduzido a um mero adereço inofensivo.

Parado ali, no meio do beco, com o cheiro de sujeira digital no ar, Guilherme sentiu uma onda intensa de náusea. Não era fome ou doença física. Era a realização terrível e crua de que ele tinha sido forçado a ser o capataz de sua própria prisão, a ferramenta perfeita do Jogador. Ele tinha silenciado o único potencial aliado, o único NPC que tentava falar algo real, provando a si mesmo que, mesmo querendo lutar, ele continuava refém da estrutura. O Jogador não precisava de guardas ou de algemas virtuais. O Jogador tinha o avatar de Guilherme.

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