Capítulo 2: O Ruído da Interface

Guilherme ainda sentia o gosto amargo do pano em sua própria boca, mesmo que a ação tivesse sido imposta ao Mago. O horror do controle forçado era muito mais intenso do que a simples frustração de um diálogo inútil. Ele havia sido transformado em um censor digital, o que era uma humilhação que ia além da perda de liberdade. O nojo moral que sentia de si mesmo era esmagador, fazendo seu estômago revirar no meio daquele beco iluminado de forma tão artificial.

A náusea ameaçava fazê-lo vomitar os poucos pixels que simulavam a comida ingerida neste mundo. Ele se afastava do Mago sufocado, quase tropeçando nos próprios pés. Aquele NPC, agora silencioso e derrubado contra a parede, era um lembrete vivo de que a menor tentativa de rebelião seria punida com a violência mediada pelo seu próprio corpo. O Jogador tinha demonstrado o alcance total do seu domínio, e o sistema havia se mostrado implacável.

Guilherme precisava de um ato de desespero maior, algo tão absurdo que quebrasse a lógica do jogo ou, pelo menos, explodisse os circuitos de paciência do Jogador.

Se a comunicação direta com os NPCs era impossível, e se o Mago estava tentando falar sobre as falhas no back-end, então Guilherme forçaria uma falha na front-end do jogo, uma quebra explícita da Quarta Parede, que o Jogador talvez não conseguisse silenciar tão rapidamente. Ele daria ao Jogador algo com que se irritar de verdade.

Ele saiu do beco, correndo de forma desajeitada. A Cidade Inicial de Aethel parecia mais brilhante agora, e o sol perpétuo no céu de baixa resolução era um insulto direto. Ele corria pela praça central, ignorando o Mercador que continuava a reciclar a fala sobre poções de vida. Ele tinha um alvo específico em mente. Os Camponeses.

Os Camponeses, presos no loop repetitivo de preocupações com Goblins e irrigação, representavam a passividade completa, a ignorância feliz que o Jogador exigia. Guilherme, sentindo o suor escorrer frio debaixo da sua armadura de couro virtual, corria em direção ao grupo. Ele apertava sua carteira de identidade com tanta força que o plástico parecia prestes a quebrar em seus dedos.

Ele passou pelo poço de pedra no centro da praça, ignorando o Camponês que carregava palha virtual. Seu foco estava no aglomerado de três figuras, as mesmas que repetiam as falas sobre a água. Já que o Jogador o tinha forçado a usar seu corpo contra um aliado potencial, Guilherme usaria agora seu corpo de maneira que desafiasse a própria natureza estática dos NPCs.

Chegando ao grupo, ele não diminuiu o ritmo, avançando como um trator com defeito. O Camponês mais próximo, o que falava ininterruptamente sobre a necessidade de água, mal teve tempo de completar sua linha de diálogo.

“Os campos precisam de água!” ele disse, a voz robótica atingindo seu pico.

Guilherme ignorou a fala, alcançando a figura de baixa resolução. Ele estendeu o braço em um movimento brusco, agarrando o antebraço do Camponês, que na verdade parecia ter a textura de um papelão molhado, mas ainda assim oferecia alguma resistência física, o que era estranho. A palma da mão de Guilherme firmou-se no tecido de lã grosseira, puxando o NPC para si em um ato de violência não letal, mas completamente inesperado para o script do jogo.

O Camponês não gritou. Ele não demonstrou medo. A atitude era de quem havia sido interrompido no meio de uma rotina. Na verdade, a reação do NPC era uma falha de animação: o Camponês permaneceu com a boca ligeiramente aberta, no exato momento da sílaba final de sua frase, o rosto congelado na expressão de preocupação genérica.

Os outros dois Camponeses, não afetados pelo toque físico, continuaram seu ciclo.

“Cuidado com os Goblins!” alertou o segundo.

“Os campos precisam de água!” repetiu o terceiro, com um atraso de milissegundos que parecia um delay de servidor.

Guilherme sentiu a frieza do braço do NPC sob seu domínio. O braço do Camponês não tinha calor corporal real, nem a tensão muscular de um humano. Era apenas um modelo, mas Guilherme estava empenhado em tratá-lo como um canal. Ele segurou o braço com uma firmeza desesperada, tentando impedir que o NPC voltasse para a sua posição pré-programada.

Ele precisava que o Jogador visse que ele estava desafiando as regras fundamentais do engajamento com o cenário. Não era para matar. Era para corromper.

Guilherme começou a gritar, sua voz subindo em um tom agudo e estridente, mal controlando as palavras. Ele não estava gritando sobre o Joystick ou sobre a Matrix desta vez. Ele estava gritando sobre o que estava diretamente acima da cabeça do Camponês.

“Olhe para cima!” ele gritou, puxando o braço do NPC para forçar a cabeça dele a se mover em um ângulo antinatural. “Olhe para a sua Vida!”

A voz vinha rouca, carregada de bile de náusea e raiva.

O que Guilherme queria que o Camponês visse – o que ele queria que o Jogador, o Observador Supremo, soubesse que ele estava expondo – era a interface gráfica do usuário, o HUD de jogo que flutuava no ar. Aquele Camponês, como a maioria dos personagens importantes neste universo RPG, carregava uma barra de status ativa.

Essa barra era um retângulo translúcido que continha o nome, Nível, e uma barra verde que representava a Saúde ou HP. Era uma informação que estava sempre flutuando, visível a Guilherme e ao Jogador, mas que, pela lógica interna do jogo, deveria ser invisível para o Camponês.

“Você está vendo a barra flutuando aí?” ele berrou, apontando o dedo trêmulo para o espaço vazio acima do topo de cabelo pixelizado do Camponês. “Está vendo o Nível Um? Você não está sofrendo, você não está dormindo! Você está Nível Um para sempre!”

O Camponês tentava resistir, mas a resistência era fraca, mais parecendo um retorno ao loop de animação do que uma luta por livre arbítrio. O braço que Guilherme segurava parecia querer se soltar, não por dor ou desespero, mas porque o código exigia que o braço estivesse em outra posição para repetir o gesto de preocupação com a lavoura.

Guilherme colocava toda a sua energia no ato de forçar o Camponês a olhar para o céu artificial, para o ponto onde a Barra de HP flutuava com sua cor verde estática, simbolizando sua plenitude e perenidade.

“Olhe para o número!” Guilherme gritava, a saliva voando para fora da sua boca. Ele apontava para o valor numérico que ficava ao lado da barra verde. Ele não conseguia se lembrar do número exato, mas sabia que era um número grande, uma representação gráfica da vitalidade máxima que o sistema impunha ao NPC para evitar a morte acidental no cenário. “Aquele número é falso! Ele não significa nada! Você não é um ‘ponto de vida’, você é um boneco estúpido com um número em cima da cabeça!”

Ele chacoalhava o NPC com força, sentindo a fragilidade da construção de código.

“Você tem 100% de vida, Camponês! E você vai ter 100% de vida amanhã e depois de amanhã, porque o Jogador não precisa que você morra! Você é só cenário!”

O Camponês não entendia a referência a “100%” nem a “HP”. O rosto do NPC continuava expressando a mesma preocupação programada, um eterno ciclo de ansiedade agrícola que servia apenas para dar cor ao mundo virtual.

“Os campos precisam de água!” ele finalmente conseguiu se soltar um pouco, repetindo a frase, como se fosse um reflexo.

Guilherme apertou o braço com mais força, a pele do Camponês parecendo ceder levemente sob a pressão dos dedos. A raiva de Guilherme não era contra o Camponês, mas contra o Jogador. Ele estava usando o NPC como um projétil de palavras, esperando que o Jogador, do outro lado do monitor, se sentisse atacado pela exposição da arquitetura do jogo. Se o Jogador não podia tolerar uma conversa silenciosa sobre os códigos do back-end (o Mago), certamente não toleraria ter a Barra de HP de um NPC apontada e ridicularizada (a front-end).

Ele gritava sobre a farsa do Nível Um, sobre os valores de Ataque e Defesa inexistentes do Camponês, sobre os artefatos visuais que só existiam na mente de Guilherme e nas telas do Jogador.

“Você é um adereço, e seu número não significa que você está vivo!”

A praça ficou mais silenciosa, ou pelo menos parecia que o áudio dos outros NPCs havia sido ligeiramente abafado pelo sistema. O Camponês, apesar de ser chacoalhado, não parava de tentar retornar ao seu loop de fala.

Contudo, nenhuma reação veio de imediato. O cenário não piscou. Nenhuma voz glacial ecoou na cabeça de Guilherme.

O Jogador estava em silêncio, observando a cena perturbadora de Guilherme, o Avatar, atacando a integridade da própria interface. Isso era um desafio direto ao controle narrativo, uma profanação da ficção interna do jogo. Guilherme esperava uma explosão, um crash de servidor, quem sabe uma tela azul. Ele esperava qualquer coisa que não fosse a calma aparente que pairava sobre a praça.

Foi então que Guilherme sentiu a mudança drástica. Não era visual, nem auditiva. Era uma sensação dentro de seu próprio corpo, uma pontada aguda e inesperada no lado esquerdo do seu abdômen inferior. A dor começou como um choque elétrico, mas rapidamente se aprofundou em algo mais persistente e quente.

Ele soltou o braço do Camponês, curvando-se. O NPC, liberado do aperto, voltou imediatamente para a sua posição inicial, repetindo a frase: “Os campos precisam de água!”. O Camponês agia como se a interrupção de Guilherme nunca tivesse acontecido.

A dor, no entanto, era muito real, apesar de simulada por software. Guilherme apertou o local da pontada, sentindo a pele pixelizada de sua roupa sob seus dedos.

A intervenção não era no cenário. Era em seu avatar.

O Jogador estava punindo a revelação da Quarta Parede ao focar a retaliação diretamente no status de Guilherme. De forma instantânea, o HUD que ele tentava ignorar se forçou para o centro da sua visão, piscando em um vermelho frenético.

Era o mesmo vermelho que o Jogador usava para avisar sobre desvio de protocolo, mas agora estava associado à sua própria barra de vida. A barra, que ele tentava evitar olhar, agora chamava por sua atenção com urgência. A barra de HP de Guilherme, tipicamente verde, havia se transformado em um amarelado doentio e começou a diminuir em pequenos incrementos visíveis.

A dor no abdômen intensificou, criando uma sensação de vazamento, como se houvesse um orifício expelindo sua vitalidade digital. Não era um dano causado por uma espada ou uma criatura. Era uma penalidade de sistema.

Guilherme percebeu o que estava acontecendo. O Jogador havia imposto um debuff de sangramento simulado, uma condição de dano ao longo do tempo. O Jogador estava transformando o XP que ele havia ganhado ao silenciar o Mago em um custo de vida. A conclusão da Side Quest Obrigatória se reverteu em punição.

O tempo todo, a barra amarelada continuava a diminuir, um contador regressivo para o seu game over. Ele sentia o enfraquecimento em seus músculos, o cansaço súbito, a dor pulsátil no lado. A punição estava sendo administrada em tempo real, uma hemorragia contínua de seus pontos de vida virtuais.

Ele tinha forçado o Jogador a agir, mas o Jogador respondeu com violência sutil e sistêmica, provando que o poder não estava no mundo, mas na regra.

Guilherme tossiu, engolindo em seco a dor que era dolorosamente convincente. Ele era um boneco de código, mas seu corpo estava sendo enganado para sentir que estava morrendo.

Uma nova notificação surgiu na sua visão, sobrepondo o piscar vermelho do medidor de HP. A fonte era grande e imponente, ditando a próxima ordem com a frieza de um pop-up de erro.

OBJETIVO DE SOBREVIVÊNCIA ATUALIZADO: Buscar Item de Cura. O próximo waypoint estava prestes a surgir, e Guilherme sentia o corpo já se preparando para marchar.

Guilherme apertou o lado do corpo, a dor se espalhando como tinta fria na pele. Ele se sentia como um programa de computador corrompido, e a cada batimento cardíaco simulado, sua energia diminuía. A única coisa boa era que o Jogador não tinha se manifestado com a voz sintetizada, talvez porque soubesse que a dor física era muito mais eficiente.

Ele tinha conseguido forçar uma reação, mas o preço era o seu próprio status vital. Seu HP estava caindo, e não havia como contê-lo com pura força de vontade. Era uma hemorragia de bits e bytes, e a única maneira de estancá-la era com a lógica interna do jogo.

O Camponês, que ele havia chacoalhado com violência, já estava completamente desinteressado. Ele voltara ao seu ciclo de comentários sobre a agricultura, como se nada tivesse acontecido, o braço que Guilherme havia segurado agora balançando com a animação genérica de um boneco inerte. Os outros dois Camponeses, igualmente robóticos, continuavam a resmungar sobre Goblins e água, ignorando a crise de saúde que se desenrolava a poucos metros.

Guilherme tentou se endireitar, mas a pontada no abdômen o obrigava a se curvar. Respirar era superficial, porque forçar os pulmões trazia uma onda de dor simulada que era incrivelmente convincente. Isso era o controle em seu estado mais puro: o Jogador não precisava de guardas virtuais; ele simplesmente alterava o código que definia a saúde de Guilherme.

O HUD não era mais apenas uma distração; era sua sentença de morte.

Ele observava a barra amarelada de HP, que se esvaía de forma lenta, mas constante, o vermelho berrante piscando para garantir que ele não perdesse um único frame da sua deterioração. Essa era a punição por tentar quebrar a Quarta Parede, a resposta do Jogador à exposição do sistema. Tentar acordar os NPCs havia resultado no silenciamento de um aliado, e tentar expor o HUD a eles havia resultado em dano direto ao seu avatar.

O Jogador estava dizendo a Guilherme: Eu controlo a sua vida, e você não tem o direito de questionar a realidade.

A sensação de náusea que o havia dominado após silenciar o Mago voltava agora multiplicada pelo medo e pela dor. O que o aterrorizava era a ausência de um motivo aparente para o sangramento. Não havia ferida, mas sim a condição de status ‘Sangramento’ imposta pelo software. Era como se o jogo tivesse usado uma magia invisível de necromancia contra o próprio protagonista.

Ele sentia o corpo enfraquecendo, o que era um feedback que o sistema lhe enviava constantemente, fazendo-o sentir que precisava agir rápido.

O valor numérico do HP diminuía. A cada três segundos, um ponto desaparecia. Era um ritmo lento o suficiente para ser agoniante, mas rápido o suficiente para ser letal, se prolongado por muito tempo. Guilherme não sabia exatamente quanto tempo tinha, já que se recusava a internalizar o número total de sua vida, mas sabia que estava na emergência.

A ironia era doentia. Depois de tentar alertar os NPCs sobre a falsidade de seus status numéricos, Guilherme era agora refém do seu próprio status numérico em declínio.

A nova notificação de Objetivo Continuado, que havia surgido violentamente na sua visão, agora se consolidava no canto superior direito.

OBJETIVO DE SOBREVIVÊNCIA ATUALIZADO: Buscar Item de Cura.

A sintaxe era direta, a urgência era imposta pelo próprio jogo. O Jogador não estava apenas punindo, ele estava guiando.

Se Guilherme quisesse parar de sangrar, ele teria que cooperar. Ele teria que entrar no loop de consumo de item padrão de um RPG, validando o Mercador e a economia de Aethel que ele tinha acabado de tentar ridicularizar. O Jogador era um estrategista frio, usando o debuff de sangramento como um laço para puxar o avatar de volta à rota principal.

Junto com a notificação, surgiu novamente o terrível ícone translúcido no horizonte visual. Era o waypoint, a flecha guia que já havia forçado Guilherme a marchar contra o Mago.

Desta vez, o waypoint brilhava diretamente sobre o Mercador, o NPC robusto com barba espessa que vendia Poções de Vida em sua carroça. O mesmo Mercador a quem Guilherme tinha gritado sobre a farsa do tabuleiro de jogo no início.

Guilherme tentou lutar contra o pânico. Ele se agarrou à sua carteira de identidade. Ele precisava de alguma distância, alguma paz para pensar numa forma diferente de estancar a dor, talvez usando alguma lógica externa ao jogo.

No entanto, o corpo de Guilherme não esperou pela sua decisão. A dor real, amplificada pela penalidade de status, era uma força propulsora. A mente de Guilherme gritava contra a submissão, mas a biologia simulada, o instinto de sobrevivência forçado pelo ambiente, era mais forte do que sua vontade.

O corpo se moveu.

Foi um movimento lento e vacilante a princípio, pois a fraqueza simulada o fazia cambalear. O pé esquerdo deu o primeiro passo, uma marcha curta, mas definitiva, na direção oposta ao beco e correta em direção ao Mercador.

Guilherme rangeu os dentes, tentando puxar o pé de volta. Ele parou o movimento por um instante, lutando contra a coerção que sentia no centro de seu ser. Ele não queria validar a existência ridícula daquela Poção de Vida, nem dar ao Jogador o prazer de sua obediência.

Ele era o único jogador com consciência, o único que entendia o horror da situação, e ainda assim, estava sendo forçado a jogar o jogo do Jogador.

A dor no abdômen deu outro pico, um aviso do sistema para não atrasar a missão.

O corpo cedeu novamente. O pé direito deu o segundo passo, estabilizando a marcha.

O waypoint flutuava acima do Mercador, e o corpo de Guilherme estava agora em movimento, se aproximando do NPC. Ele estava sendo puxado como uma marionete com defeito, uma vez mais, humilhantemente, de volta à trilha. A cada passo, o debuff de sangramento minava mais de sua força, garantindo que ele não teria energia para fazer outro desvio de protocolo em breve.

Guilherme tentou olhar para os lados, procurando alguma outra falha de cenário, alguma rachadura no código que não fosse tão letal, mas a visão periférica estava dominada pelo vermelho pulsante de seu HP e a flecha brilhante do waypoint do Mercador.

Ele era o Avatar, e tinha que obedecer ao joystick. A única maneira de sobreviver era aceitar, temporariamente, que a cura viria daquela garrafa vermelha animada de forma simples. A revolta tinha falhado. A submissão era a única rota de sobrevivência.

A dor no flanco de Guilherme era penetrante, forçando-o a respirar em golfadas curtas. O Jogador tinha feito um trabalho convincente em simular a fragilidade, transformando a penalidade de status em algo fisicamente real. Era um vazamento constante, um dreno digital que o enfraquecia a cada instante. Ele sentia a perda de HP não como números, mas como um esgotamento da energia vital, a exaustão subindo pelas pernas e braços. O corpo parecia pesado, quase como se o software tivesse aumentado a gravidade sobre ele.

A frustração da coerção anterior, de ter silenciado o Mago, somava-se agora à impotência física. A cada passo hesitante em direção ao Mercador, Guilherme sentia que estava perdendo mais do que apenas pontos de vida. Ele perdia a crença na eficácia da sua própria resistência. A luta pela sanidade contra o código estava custando-lhe a vida simulada.

Apesar da dor, ele tentou manter a cabeça erguida. Olhar para o chão pixelizado só aumentava a sensação de náusea. A praça central, com seus NPCs repetindo loops de diálogo e suas estruturas genéricas de RPG, parecia agora menos um cenário de jogo e mais uma câmara de tortura. O sol artificial continuava forte, sem fornecer conforto ou calor.

De repente, a dor simulada deu uma intensificada violenta. O sistema estava impaciente.

Uma nova notificação de missão irrompeu de forma agressiva no canto superior direito de seu campo de visão. Era uma sobreposição visual tão grande e vermelha quanto o indicador de debuff, uma ordem clara que exigia atenção imediata.

PRIORIDADE CRÍTICA: Aquisição de Item de Cura Inadiável.

A sintaxe era direta, quase ameaçadora. O Jogador não estava sugerindo uma side quest; estava ditando um requisito de sobrevivência. Guilherme sentiu a pressão do sistema para internalizar a urgência, transformando-a em medo puro.

O novo waypoint surgiu, fixando-se no torso do Mercador, brilhando com uma luz dourada que contrastava com o vermelho do alerta de HP. A flecha rotacionava lentamente, apontando para o único loop de ação que poderia reverter o debuff de sangramento: a compra de uma Poção de Vida. O Jogador estava forçando Guilherme a participar da economia do jogo para continuar a existir. Era uma armadilha perfeita.

Guilherme sabia que, se houvesse uma porta de saída, se houvesse um console de código que permitisse uma solução não-padronizada, ele deveria usá-lo. Mas ele estava preso ao seu corpo, e a dor de sangramento era um lembrete constante de que o tempo estava se esgotando. Ele compreendia que a única forma de estancar o "vazamento digital" era cooperar com a narrativa imposta.

A fraqueza o atingiu com força renovada. Ele cambaleou.

Então, o corpo de Guilherme agiu por conta própria. Sua vontade não participou da decisão. O software de controle do Jogador assumiu a motricidade novamente, sutilmente, mas de forma incontestável.

O pé esquerdo se levantou e deu um passo largo e determinado em direção ao Mercador. O movimento foi mais fluido do que o seu próprio andar de momentos antes, quase como se a animação tivesse sido ajustada para garantir a velocidade. O corpo de Guilherme estava respondendo ao waypoint com uma obediência mecânica que não vinha de sua mente.

Guilherme tentou contrair os músculos das pernas, resistir ao passo, mas a força imposta era como a correnteza de um rio arrastando um graveto. Ele era o graveto. A perna direita seguiu o movimento, e Guilherme, com a barriga ainda em chamas de dor simulada, estava marchando.

Ele caminhava rapidamente, quase correndo em direção à carroça velha onde o Mercador estava preso em seu balcão. Era a confirmação mais brutal do controle total do Jogador: mesmo ferido e revoltado, Guilherme era forçado a validar o ambiente que ele tentava destruir.

A cada passo, ele sentia a dor e o enfraquecimento, o que paradoxalmente tornava a obediência ao waypoint a única decisão lógica, mesmo que imposta.

Ele viu o Mercador se aproximando, o NPC robusto que iria repetir a mesma linha de diálogo. Guilherme já podia ouvir o eco da voz mecânica em sua cabeça: “Tome uma poção de vida, forasteiro! É a melhor mercadoria da Cidade Inicial de Aethel.”

O Jogador não precisava de ameaças verbais. Ele usava a dor e o waypoint. A submissão física de Guilherme a essa marcha forçada parecia ser a prova final, perante o controlador invisível, de que ele estava completamente sob controle. O corpo era a última fronteira, e esta havia sido cruzada.

Guilherme chegou à frente do balcão, parando bruscamente quando o sistema o liberou do controle de movimento, mantendo-o ancorado no local de interação com o NPC. Ofegante, curvado sobre a dor, ele olhou para o Mercador.

O Mercador, alheio a toda a crise, estendeu a garrafa virtual de líquido vermelho.

“Tome uma poção de vida, forasteiro! A cura é para os corajosos!”

Guilherme estendeu a mão, sabendo que tinha perdido esta batalha. Ele teria que comprar a cura, validar a farsa, apenas para sobreviver ao próprio jogo. Ele não tinha escolha. Ele sentia a fraqueza, o debuff ainda ativo. A barra de HP amarelada continuava a diminuir lentamente.

Ele precisava daquela poção. Ele precisava viver para lutar novamente, mesmo que a luta agora parecesse uma piada cruel.

Ele tinha virado a esquina da rebelião para o pragmatismo de urgência. A submissão do corpo havia se completado.

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