Capítulo 3: Setenta e Duas Horas

O escritório vazio tem o cheiro de café velho e ar-condicionado desligado. Bia está sentada na última cadeira do fundo, a que tem uma rodinha quebrada. Ela me manda uma mensagem quando a tela escurece. Eu leio a mensagem com os olhos. O telefone não existe mais.

A mensagem diz: "Isa, o que está acontecendo? Estou aqui sozinha."

Eu guardo o celular na bolsa. Não respondo. Dezoito pessoas já foram embora. Duas ficaram. Uma delas é Bia. A outra é um estagiário que não sei o nome, mas que trabalha aqui há três meses e nunca tirou os fones de ouvido. Ele está em algum canto do escritório, com a cabeça abaixada, como se pudesse se esconder num tablet.

Eu me levanto da cadeira. O ar no escritório é pesado. O ar-condicionado não funciona, e a temperatura subiu três graus desde que Hugo saiu. O verão entra pelas janelas como um intruso. Não há como não perceber.

Letícia não responde às três mensagens. Eu entro no WhatsApp dela e vejo que ela está online. O último acesso foi às 19:47. São 20:15. Ela está online há vinte e oito minutos e não me mandou nada. Isso é novo. Letícia nunca fica online sem me avisar.

Fecho o WhatsApp e abro a janela do estúdio. A vista é de sempre. Vila Madalena à noite, com luzes de restaurante, trânsito lento, um ponto de ônibus cheio de gente. Uma cidade que não para. Um lugar que não sabe que eu acabei de cair.

Dezoito funcionários. Bia. O estagiário com fone. Mais duas pessoas que estão em sua sala, fechada, sem aparecer. As outras dezesseis já foram embora. Algumas foram embora às cinco. Outras, às seis. Quando o primeiro e-mail de cancelamento chegou, eles saíram em massa. Era a única reação possível: sair.

Eu fecho a janela. Sento na minha cadeira e abro o notebook. A bateria está em 40%. Pouco para trabalhar, bastante para sentir o peso.

Vou até a cozinha do estúdio. O frigorífico está parcialmente vazio. Letícia comprou leite na última semana. Eu compro frutas a cada cinco dias. Na prateleira do meio, há três maçãs. Duas estão boas. A terceira tem um ponto marrom. Eu levo as duas boas para a mesa do escritório.

Comer de pé é mais rápido. Eu descasco uma e mordo. O sabor é azedo. Não são as melhores maçãs do mundo, mas são maçãs. Comem-se.

A segunda notificação chega ao notebook. Não pelo celular, que está morto, mas por e-mail. Um e-mail do escritório de advogados. "Prezada Srta. Negrão, seguimos em contato referente ao processo Protocolo, protocolado hoje às 06:30. Solicitamos sua manifestação até o final do prazo regimental."

Eu leio o e-mail duas vezes. A palavra "processo" aparece três vezes. A palavra "dano moral" aparece uma. A palavra "reparação" aparece uma. As outras palavras são vazias. "Prezada Srta. Negrão" soa como um e-mail que não deveria estar llegando à minha mesa.

Fecho o e-mail. Abro outro. Desta vez é de uma agência de talentos que eu conheço. "Pedimos que adie nossa conversa. Não temos detalhes no momento."

Adiar. Não cancelar. Adiar é uma forma elegante de dizer "não sei o que vai acontecer, mas não quero estar no meio". Eu fecho o e-mail também.

Às oito e quinze, Letícia finalmente me liga. O telefone dela não está no meu celular. Uso o tablet que fica na prateleira da estante. A ligação cai antes de ser atendida.

Ela chama de novo. Desta vez atende.

"— O que está acontecendo?" A voz dela está mais alta do que o normal. Letícia nunca fala alto. Ela sempre fala baixo, como quem tem medo de ser ouvida. Agora ela está gritando baixo.

"— O Rodrigo nos processou."

"— Eu sei. O que mais?"

"— Tudo."

"— Tudo o quê?"

"— Tudo. O contrato de meditação está congelado. O de farmácia foi cancelado. O de suplemento não atende. O banco nos debita R$ 47.800. Não temos clientes. Não temos faturamento. Não temos vídeo."

Ela faz um barulho que não é uma palavra. É o som de quem está processando informação demais.

"— Quantas marcas deram o sinal verde?"

"— Duas. Dezoito já congelaram. As outras doze estão em silêncio. Hugo me disse que em setenta e duas horas terei zero."

"— Você tem 2,3 milhões de seguidores."

"— Sim."

"— Então como é possível ter zero clientes?"

"— É possível sim. O Rodrigo é poderoso. A marca dele é poderosa. E os clientes não sabem o que vai acontecer amanhã. Eles não arriscam."

Ela fica em silêncio. Eu escuto a respiração dela do outro lado. Letícia respira pelo nariz. Quando está nervosa, o nariz expande. Eu imagino o nariz dela agora. Expandido.

"— O que você vai fazer?"

"— Não sei."

"— Você vai apelar?"

"— Apelar é o que advogados fazem. Não sei se vamos ganhar. O processo é Protocolo. A Veloso tem os melhores advogados do país. Eu não tenho nada contra isso."

Ela suspira. Não é uma suspiro dramático. É um suspiro técnico, de quem calcula o custo de uma decisão.

"— Eu vou continuar tentando ligar."

"— Para quê?"

"— Para ver se alguém atende."

Eu encerro a ligação. É uma conversa que não leva a lugar nenhum. Letícia vai ligar para vinte empresas. Provavelmente vinte e nove vão atender e trinta e uma vão ignorar. É o mesmo jogo que eu jogo todos os dias, só que do outro lado da mesa.

Às nove e meia, Bia me pergunta se eu estou bem. Ela está sentada na cadeira quebrada, com os joelhos dobrados até o queixo.

"— Eu estou bem."

"— De verdade?"

"— Sim."

"— Você não parece."

Bia é nova no estúdio. Quatro meses. Veio de uma agência de Porto Alegre onde fazia gestão de conteúdo para marcas de beleza. É a pessoa mais organizada que já trabalhei, e a que menos entende o que está acontecendo ao seu redor.

"— Eu não pareço bem? Por quê?"

"— Porque você está sentada na sua cadeira, olhando para a parede, e ninguém sabe o que está acontecendo."

Ela tem razão. Eu estou sentada na minha cadeira, olhando para a parede, e ninguém sabe o que está acontecendo. E eu sei que não sou a única.

"— Bia, você sabe o que está acontecendo?"

"— O Hugo Vane mandou uma mensagem no grupo dizendo que o Rodrigo nos processou. É o que eu sei."

"— E o mais?"

"— Mais o que?"

"— Mais que isso. Como você se sente?"

Ela pensa. Pensa de verdade. Isso é raro. Bia pensa antes de falar.

"— Eu me sinto estranha. Eu vi você no topo. Eu vi você em todos os lugares. E agora você está aqui, sozinha, e eu não sei quem você é sem os vídeos."

A frase cai no escritório vazio. Bia não sabe que acabou de fazer a pergunta mais honesta que eu ouvi em meses.

"— Quem eu sou sem os vídeos é exatamente o que eu não sei."

Ela baixa os joelhos e estica as pernas. A cadeira faz um barulho. A roda quebrada arrasta no piso de madeira.

"— Você vai se recuperar?"

"— Sim."

"— Com certeza?"

"— Não. Mas vou."

Bia aninha de volta. Ela não dorme. Fica olhando para o tablet, como quem espera que alguma coisa mude sem fazer nada. Eu não a repreendo. Ela está cansada. Trabalhou o dia inteiro, como todo mundo, e agora não sabe o que fazer.

Às onze, o escritório está vazio. Só Bia e eu. Eu fecho as luzes do piso principal. O corredor escuro fica mais escuro sem as luzes de exposição. As câmeras de segurança ainda funcionam. São os únicos que ainda nos vigiam.

Fico na minha sala. A porta está aberta. Posso ver o corredor até a saída. É uma vista que eu conheço de memória. Cada detalhe. O quadro na parede que comprei numa feira de arte. O vaso de plantas que Letícia rega sem parar. A prateleira com os prêmios que ninguém lê mais.

Ela para de me ligar às onze e meia. Eu sei disso porque o WhatsApp dela mostra que está online até às 23:10. Às 23:15, offline. Ela foi embora.

Bia vai embora às onze e quarenta. Sobe a escada com a mochila no ombro e me dá um abraço apertado. Ela não diz nada. Abraço é o que falta palavra. Eu a deixo ir. A porta fecha.

Estou sozinha.


Hugo aparece às onze e trinta e cinco.

Não bate à porta. Ele sabe que está aberta. Entra pela porta da frente, como quem sabe que é dono do lugar, e senta na cadeira dos estagiários, a mesma de onde saiu às seis e meia da tarde. O mesmo terno, a mesma pasta, o mesmo silêncio.

"— Eu deixei de ligar pra você."

"— Eu sei."

"— Você está brava?"

"— Com você ou com a situação?"

"— Com a situação, provavelmente."

Ele abre a pasta. Não é para ler. É para ter algo para segurar.

"— Hugo, o que você está fazendo aqui às onze e trinta e cinco da noite?"

"— O mesmo que você. Esperando. O escritório está vazio. O ar-condicionado está desligado. A temperatura está subindo. Você está sozinha. Eu estou aqui."

Ele fala como quem lê um relatório. Mas o relatório é pessoal. É sobre nós dois, neste escritório, nesta noite.

"— Eu preciso te dizer uma coisa." Ele pausa. "Não é sobre o processo. O processo é o que é. O que eu quero te dizer é outra coisa."

"— O que?"

"— Eu não mandei Rodrigo te processar."

A frase bate como um soco. Não é forte. É preciso. Hugo não dá socos. Ele dá precisões.

"— Como assim?"

"— Você não achou estranho? O vídeo saiu às dez. Às seis e meia da manhã já estava protocolado. Isso não é acidente. Isso é agenda. Mas não fui eu."

"— Quem então?"

"— O Rodrigo."

O silêncio que segue é diferente do de antes. Antes eu estava sozinha e o silêncio era um lugar. Agora Hugo está aqui e o silêncio é uma conversa que ainda não começou.

"— Por que você me conta isso agora?"

"— Porque você merece saber. Você construiu tudo. E o que te destruiu não foi o sistema. Foi uma pessoa."

"— Eu já sabia que foi o Rodrigo. Você me disse isso."

"— Não. Eu disse que ele processou. Não disse que quiser o processo. Isso é diferente."

Ele se levanta. Caminha até a janela. A cidade ao lado está iluminada. Restaurantes, carros, pessoas que não sabem que existe um escritório em Vila Madalena onde duas pessoas conversam às onze da noite sobre o fim de uma carreira.

"— O erro que te destruiu não foi o vídeo." Ele fala sem me olhar. "O erro foi ter entendido Rodrigo como um cliente."

"— E o que ele é?"

"— Alguém que você não devia ter tocado. Alguém que não estava no mercado para ser tocado."

Eu fecho os olhos. O ar no escritório é quente. O verão é implacável. Não há como não sentir.

"— Quando você atendeu ele no consultório, você fez a coisa certa. A análise foi boa. A técnica foi impecável. Mas você não estava num consultório. Você estava num lugar onde o cliente não queria ser lido. E você leu. O que te destruiu não foi a leitura. Foi a interpretação."

"— O que eu interpretei de errado?"

"— Que ele era um cliente. Ele não era. Era um homem. E você tratou um homem como um caso."

Hugo se vira. O rosto dele é o mesmo de sempre. Controle. Controle absoluto. Mas há algo por trás do controle que ele não esconde. Não é compaixão. É algo mais frio. Reconhecimento.

"— Hugo, por que você não me impediu?"

"— Você não precisa de impedimentos. Você precisa de consequências. Eu só as organizei."

Ela se levanta. Senta de volta na cadeira de estagiário. A cadeira que ele ocupou antes. A mesma cadeira.

"— O que você vai fazer agora?"

"— Eu não sei. Mas eu sei que em sete horas vou acordar e vou descobrir que ainda sou a Isabella Negrão. Que ainda tenho 2,3 milhões de seguidores. Que ainda sei fazer vídeos. Que ainda sei falar. E que ainda sei ler pessoas."

"— E o Rodrigo?"

"— O Rodrigo é o Rodrigo. Ele vai continuar sendo o Rodrigo. E eu vou continuar sendo eu. A diferença é que agora eu sei que o que me destruiu foi um erro de diagnóstico. E que erros de diagnóstico não se consertam com vídeos."

Hugo se levanta. Guarda a pasta. Fecha a porta. Sobe as escadas do estúdio e sai. Não olha para trás. Eu sei que ele sabe que eu estou olhando. Mas não se vira.

Fico sozinha de novo.


O silêncio do escritório vazio é diferente de tudo. Não é o silêncio da ausência. É o silêncio de um espaço que foi preenchido e esvaziado. O escritório tem marcas do que foi. Uma caneta na mesa. Uma xícara com restos de café. Um post-it colado na parede com um número de telefone que eu não reconheço.

Bia esqueceu a mochila. Dezoito minutos depois que ela foi embora, eu desço a escada para pegar o que deixou. A mochila está na cadeira quebrada, no mesmo lugar onde ela estava antes. Dentro, um caderno, um carregador, um estojo de maquiagem e um pacote de biscoito de arroz.

Eu levo a mochila até a porta. Deixo no saguão, do lado de fora, como quem deixa algo que não é mais seu.

De volta ao escritório, sento na minha cadeira. A bateria do notebook está em 22%. Pouco. Mas o suficiente para acessar o email e verificar se há alguma coisa que eu não tenha visto ainda.

Dois novos e-mails. Um é de um jornalista que eu conheço. "Isa, posso te fazer uma pergunta?" Não especifica a pergunta. O outro é de um número desconhecido. "A senhora pode me atender? É urgente."

Não abro nenhum dos dois. Fecho o notebook. Guardo o notebook. Deixo a mochila de Bia no saguão.

Estou de pé. No meio do escritório. Sem clientes. Sem dinheiro. Sem dinheiro. Com 2,3 milhões de seguidores e nenhuma marca. Em setenta e duas horas, terei zero. Hugo me disse isso. Hugo sempre diz as coisas como são.

Olho para a porta. Está aberta. O saguão está vazio. A escada leva ao térreo. Do térreo, saio para a rua. Da rua, vou para casa. Ou para onde for.

Mas primeiro, sento na cadeira novamente. Sento e encerro tudo. O escritório é meu. As chaves são minhas. As contas são minhas. Os funcionários, se houver, são meus. O que resta de mim é o que eu carrego no corpo.

E o que resta é pouco. Não é um colapso. É uma desaceleração. Alguém que correu rápido por anos e, de repente, parou. A desaceleração dói mais do que a queda. A queda é imediata. A desaceleração é gradual. É o que te faz sentir que algo está errado antes que você perceba que já está errado.

Levanto-me. Apago as luzes. Saindo do escritório, a porta se fecha. O corredor escuro. A escada. O térreo. A porta da frente.

A rua está vazia. Vila Madalena de madrugada. As luzes dos restaurantes estão apagadas. Os carros estacionados. Uma única pessoa passando pela calçada. O vento traz cheiro de chuva. Não vai chover. O cheiro é só isso. Cheiro.

Camino até o carro. O celular está na bolsa. Morto. Sem energia. Sem notificações. Sem o som constante que acompanhou minha vida por anos. O silêncio é estranho. Estranho no bom sentido. Estranho no sentido de que eu não sei o que fazer com ele.

Abro a porta do carro. Sento. Fecho a porta. O silêncio dentro do carro é diferente do silêncio da rua. Dentro, é abafado. A rua é aberta. No carro, o som do motor ao ligar é o primeiro som novo que ouço desde que o celular desligou.

O motor liga. O ar-condicionado liga. O ar entra gelado. O calor do verão que entrou pelas janelas do escritório não está aqui. Aqui é frio. Frio artificial. Frio que eu controlo.

Pego a chave. Aperto o botão de partida. O carro não liga.

Bateria do carro. Seca. Ou perto de secar. Não importa. O ponto é: não sai daqui.

Fico sentada. Com o motor desligado. O ar-condicionado desligado. O silêncio total. Fora da janela, a rua. Dentro do carro, o silêncio. E o silêncio é o único lugar onde eu não tenho que fazer nada.

Pego a chave. Tento de novo. O carro não liga.

Tento uma terceira vez. Nada.

Levo as mãos ao rosto. Aperto. Aperto com força. Aperto os olhos. A pressão é a única coisa que eu sinto. O resto é abismo.

Do lado de fora, a pessoa da calçada já foi embora. Só restam luzes. E o silêncio. E o carro que não liga.

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