Capítulo 18: Sem Legenda

Seis meses depois, publiquei um único vídeo.

Sem filtro. Sem roteiro. Sem música. Apenas eu, sentada no chão da minha sala, com o caderno marrom aberto no colo e as mãos paradas sobre a página. Disse três frases. Explicitei que o estúdio estava fechado. Que o contrato não existia mais. Que a Isabella que vocês conheciam não existe mais. Encarei a lente por trinta segundos sem dizer nada a mais. Aperteia "publicar".

Foram 412 mil seguidores a menos nas primeiras doze horas. Depois desacelerou. A curva estabilizou num patamar muito mais baixo do que eu jamais tinha estado, e eu não senti medo. Senti paz. A primeira vez na minha vida em que uma métrica negativa não doía.

O estúdio foi vendido em leilão judicial. Letícia e Bia foram redistribuídas entre três empresas de conteúdo que ainda estavam abertas, cada uma oferecendo menos da metade do que ganhávamos antes. Letícia não protestou. Bia não disse nada. Apenas aceitaram e foram trabalhar.

O contrato com Rodrigo não existe mais. Não há papel, nem cláusulas, nem prazo de validade. Há algo que não tem nome e que não precisa de contrato.


O sábado chegou cinza. São Paulo sempre começa os dias assim, com o céu escondido atrás de uma camada de nuvens que a gente esquece que existe até que ela se quebre. Eu estava na cozinha. Rodrigo na sala. A divisão entre os dois cômodos era uma bancada de mármore que servia de mesa, de balcão e, ultimamente, de espaço neutro onde a gente não precisava se encontrar nem se evitar.

Ele cortava cebola. Havia um hábito novo. Nos primeiros dias, quando ainda vivíamos o que ainda não tinha nome, ele fazia tudo no escritório dele e eu fazia tudo na sala. Como se o espaço precisasse de geografia. Agora a gente ocupava a casa como um casal que não se pergunta mais quem faz o quê. Ele corta cebola. Eu tomo café. Sem roteiro. Sem câmera. Sem intenção de provar nada.

O cheiro de cebola subia pela cozinha. Eu não me mudei. Não precisava. Antes eu teria calculado o ângulo da janela, a posição do corpo, a melhor forma de transformar esse momento em algo fotogênico. Agora eu ficava sentada e só sentia. O cheiro era simples. Era cebola. Nada mais.


Às onze horas, eu fui até o apartamento de Mariana.

A sala era pequena. Tinha uma planta perto da janela e duas cadeiras que pareciam compradas na mesma promoção. Mariana não me recebeu como concorrente. Não me recebeu como ex-aluna. Me recebeu como quem já tinha dito tudo o que precisava dizer e não havia mais nada a negociar.

Ela estava sentada na poltrona de frente para a estante, com um caderno aberto no colo. Caderno de verdade, com capa de couro, o mesmo que havia me dado meses atrás. A diferença era que agora tinha páginas escritas. Não posts. Não roteiros. Não frases para as redes. Apenas palavras.

"Abri a consultoria semana passada," ela disse. Não era uma declaração de sucesso. Era um aviso. "Atendo três pessoas. Três. Não é muita coisa, mas é tudo que eu consigo garantir sem fingir."

"Você está bem?"

"A gente nunca está bem. Estou operando."

Mariana sorriu. Não o sorriso de campanha. O tipo que chega sem aviso e sai ainda mais rápido. O sorriso que não precisa de legenda.

"Eles sabem?"

"Que o que eu faço é verdade? Que eu não vou destruir ninguém? Que eu vou sentar na cadeira do outro lado e ouvir? Sim. Eles sabem. E não se importam."

Fiquei em silêncio. A planta da estante respirava. A água na vasilha estava turva. Mariana não limpou. Não importava.

"Eu citei você," ela continuou. "No site. No texto de apresentação. Escrevi que foi você que me ensinou o que eu queria escapar. Que é mais útil saber o que não querer do que saber o que quero. Você vai me detestar por isso."

"Você está certa."

"A gente é amiga agora?"

Não respondi de imediato. A pergunta era velha. Amizade não era mais uma palavra que eu usava com precisão cirúrgica. Havia um peso diferente agora. Um peso que não se media em favor de seguidores nem em curtidas compartilhadas.

"Talvez. Talvez não. Mas estamos sentadas juntas. Sem ninguém para quem precisamos provar nada."

Mariana assentiu. Pegou o caderno e me estendeu.

"Abre."

Abri. Páginas em branco. Não o caderno vazio que me deu naquele outro sábado, no outro apartamento, com o outro silêncio. Havia uma diferença. O caderno de Mariana era dela. Não de Isabella. Não de nenhum estúdio. Não de nenhuma marca. Eram páginas que pertenciam a ela. Eu não tinha escrito nelas. Não precisava.

"Guarda isso," ela disse. "Não para publicar. Para guardar."

Guardo.


Às duas horas da tarde, eu entrei no escritório de Hugo.

A sede dele ficava num prédio de vidro no bairro de Itaim, o nono andar de um andar que era só vidro e mármore. Hugo não me recebeu na sala dele. Me recebeu na varanda, onde o vento de tarde empurrava as cortinas contra as colunas.

Ele estava de pé. A postura era a mesma. A postura de um homem que construiu toda a vida em torno de manter o controle de tudo ao redor. A diferença era que agora não havia nada ao redor. Os clientes que uma vez o enfileiravam como peças de xadrez tinham migrado para agências menores, mais ágeis, sem ego. Hugo havia virado uma instituição. E instituições vencem a tempo, mas perdem para o vento.

"Isabella."

"Hugo."

Ele não estendeu a mão. Também não era preciso. O gesto já não existia mais. Não havia mais ninguém para receber.

"Estou aposentando a agência. Daqui a duas semanas fecho o escritório. Não é uma ameaça. Não é um gesto. É um fato."

"E você vai continuar assim. Assiste tudo. Não interfere. Sente e assiste."

"Isso."

"Você nunca aprendeu a lidar com quem não joga o jogo."

"Não."

Hugo se sentou na cadeira de vime. Não a de couro. A de vime. Alguém tinha trocado. Ou talvez ele mesmo, no último dia, antes de tudo acabar.

"Fiquei cinco anos tentando te prever. Todos os movimentos. Todas as jogadas. Cada decisão sua era previsível por causa do medo. Você sempre escolhia a opção mais segura. Sempre."

"Você errou."

"É. Eu errei. Em um ponto. Não em outro."

O que ele queria que eu soubesse, e que eu já sabia, era que a aposta dele era a minha incapacidade de mudar. Hugo não me perdoou. Não me perdoava. Ele simplesmente não conseguiu prever que eu escolheria perder. Para ele, isso não era coragem. Era defeito de cálculo.

"Você vai ficar bem?" Hugo perguntou, já se levantando.

"Fico."

"Acho que sim."

Ele saiu. Eu fiquei na varanda, com as cortinas empurradas pelo vento e a cidade de São Paulo lá embaixo, infinita, indiferente. Por uma fração de segundo, quis ligar para Rodrigo. Não para contar. Para confirmar que eu estava aqui, agora, e que ele também estava. Que a mesma cidade nos separava e nos unia ao mesmo tempo.

Não liguei. Não era preciso.


Às cinco horas, Letícia e Bia já estavam trabalhando. Não num escritório grande. Num espaço que não era de ninguém, que alugavam por horas, que dividiam com dois outros freelancers que não se conheciam. Letícia não reclamava. Bia não reclamava. Ambas haviam aprendido que o espaço não define o trabalho.

Liguei para Letícia para avisar que ia jantar.

"E você não vai postar?"

"Não."

"Há três anos que você não faz isso."

"Há três dias que eu não postei nada."

"Há três anos que você não faz isso sem motivo. Sem motivo. Há dois anos. Há dois anos e quatro meses."

"Letícia."

"Você está diferente."

"O quê?"

"Nada. Estou com sono."

Desliguei. Letícia sempre foi a pessoa mais observadora que conheci. E a mais inconveniente quando acerta.


O jantar foi simples. Não improvisado. Simples por decisão.

Eu escolhi o restaurante. Não por cálculo. Por memória. O mesmo lugar do primeiro encontro real, o do largo do Arouche, o sem logotipo, sem decoração, sem ninguém que soubesse quem éramos. A mesa era a mesma. A janela era a mesma. O garçom era diferente.

Rodrigo já estava lá. Mesma mesa de canto. Mesmas duas xícaras vazias que já tinham estado cheias. Desta vez, os celulares estavam virados para baixo. A tela preta apontada para o tampo de madeira. A mesma postura de sempre. A mesma recusa.

Ele me olhou. Eu sentei. Não de frente. Do lado. No banco de sempre, perto da janela.


O prato de cada um veio em momentos diferentes. O de Rodrigo demorou mais. O meu chegou antes. Eu não comi. Esperei. Ele não me pediu para comer. Não calculou meu tempo de refeição. Não monitorou minha fome.

Quando o prato dele chegou, era arroz com feijão. Arroz soltinho. Feijão escuro. Uma folha de couve no canto. Nada de sofisticação. Nada de apresentação. O prato queimado do título, ou o que restou dele, o que ele havia deixado de ser metáfora e se tornado comida de verdade.

"Você queimou o arroz ontem?" perguntei.

"Sim."

"E mandou pedir."

"Sim."

"Por que não fez de novo?"

"Não sei cozinhar bem. Você sabe."

Eu sabia. Ele não sabia cozinhar. Isso eu sabia desde o primeiro dia. A cozinha do apartamento dele era funcional. Não decorativa. Não havia livros de culinária. Não havia ingredientes especiais. Havia um fogão e uma panela e um espaço que servia apenas para manter a coisa viva até a próxima compra.

Comemos em silêncio. Não o silêncio vazio de antes. O silêncio ocupado de depois. O que se constrói quando não há mais nada a esconder.


"Você vai publicar algo?" Rodrigo perguntou, já terminando o prato.

"Hoje?"

"Hoje."

"Sim."

Ele não perguntou o quê. Não perguntou como. Não pediu o texto, a legenda, a posição do corpo. Apenas a pergunta seca, como ele fazia com tudo.

Abri a bolsa. Tirei o celular. O caderno marrom não estava lá. Estava na minha casa, na estante, ao lado de um livro que eu li duas vezes e de um outro que ainda não abri. O caderno que Mariana me deu. O caderno vazio que eu não vazio mais.

Peguei o celular. Abri a câmera. Não para mim. Para ele.

Rodrigo estava de pé. A luz da janela do fundo cortava o corpo em duas partes. Metade de luz. Metade de sombra. A mesma divisão que vi no primeiro dia, no escritório dele, quando ele se recusou a abrir as cortinas.

Apertei o obturador.

A foto saiu. Ele não estava olhando para a lente. Estava olhando para o prato vazio. As mãos apoiadas na mesa. Os dedos longos que nunca precisaram trabalhar. A gola da camisa que eu não conseguia ler a marca. Ele parecia cansado. O cansaço de quem passou o dia fazendo algo sem saber se fez certo.

"Publica?" ele perguntou.

"Publica."

"Legenda?"

"Não."

"Isso é ilegal em pelo menos dois países."

"Aqui não."

"Não?"

"Aqui não."

Ele não riu. Não disse mais nada. Apenas deixou eu postar. Não impediu. Não aprovou. Apenas deixou. O que era o máximo de consentimento que ele poderia oferecer, e que era muito mais do que ele havia oferecido em qualquer outro contexto de sua vida.

Apertei "publicar".

A foto ficou no ar. Sem legenda. Sem filtro. Sem música. Apenas nós dois. Eu e ele. Num restaurante sem logotipo, numa mesa de canto, perto de uma janela. Ele, de costas para o mundo, olhando para um prato queimado.

O resto veio depois. Os comentários. As especulações. As perguntas. As opiniões. As críticas. Tudo o que o algoritmo gera quando algo real aparece na tela de milhões de pessoas.

Dei um gole de água. Coloquei o celular virado para baixo.

"E agora?" ele perguntou.

"E agora comemos o sobremesa, que ainda não chegou."

"Não tem sobremesa."

"Sobremesa é o café."

"Isso não é sobremesa."

"É para mim."

Ele sorriu. O mesmo sorriso de sempre. O que não chega para mostrar. O que chega sem aviso e vai embora mais rápido. O que não precisa de legenda.

O garçom apareceu. Trouxe dois cafés. Não perguntou nada. Não perguntou se era para dividir, ou se era para levar. Apenas colocou as xícaras na mesa e foi embora.

Rodrigo segurou a xícara. Não por necessidade. Por gesto. Algo para as mãos fazerem enquanto a boca se calava.

"Isso é real?" ele perguntou.

"O quê?"

"Isso. A gente. O jantar. A foto. Sem ninguém sabendo quem a gente é."

"Real como é."

"Real como é."

Tomamos os cafés. A cidade lá fora seguia o mesmo ritmo. Carros, pessoas, ruído. Tudo continuava funcionando sem precisar de câmera. Tudo continuava existindo sem necessidade de público.

Eu olhei pelo janela. Não para calcular o ângulo. Para ver. Apenas ver. A luz do fim de tarde penetrava entre os prédios e iluminava a rua vazia de quem já tinha terminado o dia.

Ao lado, Rodrigo também olhava. Não para mim. Para a rua. Para a cidade. Para o mesmo ponto que eu estava olhando. Sem que eu precisasse pedir. Sem que eu precisasse indicar. Apenas os dois, olhando o mesmo lugar.

E aquele era o primeiro post que eu fazia depois de tudo. Uma foto de nós dois. Sem filtro. Sem legenda. O coração que ninguém precisa ver para ser real.

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