Capítulo 22: O Último Treino

O gramado estava verde demais. Bento reparou nisso enquanto caminhava do vestiário ao campo pela segunda vez aquela manhã. Verde artificial, mantido por um sistema de irrigação que consumia litros de água por metro quadrado. O verde era perfeito. O gramado não tinha as manchas de terra que existiam nos campos de areia do Rio.

Dois dias antes do Torneio. A arquibancada já estava montada. Famílias inteiras desembarcavam do teleférico no início da manhã com seus casacos de lã, seus protetores solares de cinco centos o frasco, seus sorrisos que só mostravam a metade superior do rosto. Diplomatas franceses, magnatas alemães, herdeiros de impérios que existiam antes da escola existir. O Torneio Transalpeno não era só futebol. Era uma gala ao ar livre, e Bento precisava saber o que estava vestindo.

O uniforme dos Kings estava no cabide. O mesmo de sempre. Os três listras do patrocinador principal ocupavam todo o peito. O número de Bento, 22, vinha costurado à mão, já que ele tinha recusado a opção de comprar o uniforme personalizado de um Nível 1.

O campo estava vazio. O treino tinha sido cancelado por Sturm duas horas antes. O diretor tinha dito, no hall principal, que a equipe tática tinha uma reunião. Ninguém questionou. Ninguém podia.

Bento entrou no campo. A neve derretida deixava o gramado úmido. Havia marcas de botas em tudo, e ele andou em círculos no centro da linha do meio, como quem tenta encontrar o equilíbrio antes de tudo.

Os drones ainda não haviam ligado. Havia, pela primeira vez desde que ele chegou ao Mont Blanc, um espaço de silêncio que pertencia só a ele.


A primeira vez que Vicente falou com Bento nos últimos três dias foi na sala de estudos do Meio, às oito da manhã. Bento estava lendo um livro sobre formação de jogadores que encontrara na Biblioteca Restrita. Vicente sentou-se à mesa ao lado. Sem olhar. Sem palavra. Ficou trinta minutos assim.

Foi só às oito e trinta que ele falou.

"Passe pra mim na segunda fase." A voz era baixa. Não era uma ordem. Nem uma pergunta. Era uma constatação.

Bento fechou o livro. "Depende de onde eu estiver."

Vicente sorriu. Não o sorriso de sempre, o que mostrava só a metade superior dos dentes. Um sorriso que ia até os olhos. "Eu sei."

E saiu. O caminho que fez foi diferente do normal. Ao invés de cortar pelo corredor principal, passou pelo corredor lateral, que levava ao vestiário. Um caminho que ninguém usava. Provavelmente de propósito. Talvez para que ninguém visse que ele tinha entrado. Ou saído.


Às doze, no refeitório, a situação era outra. A mesa dos Nível 1 estava ocupada, é claro. Tomás estava sentado ao lado de Gael, que olhava para o prato como se o prato tivesse lhe faltado com respeito. A Maitê já estava lá. Pilar, também. Sol, também.

O Zeca apareceu do lado de Bento e sentou sem pedir licença. "Mano, o Tomás disse que o esquema tá pronto."

"Qual esquema."

"Aquele que ele desenhou no quadro branco ontem à noite. Ele não mostrou pra ninguém. Só pra mim e pro Gael. Disse que era o esquema que nunca existiu antes."

Bento comeu arroz. Não perguntou. Não precisava. Quando Tomás decidia fazer algo à mão, como desenho à mão num quadro branco, significava que o que estava ali não era uma cópia de manual. Significava ideia original. E Tomás, quando desenava à mão, era o mais perigoso dos rivais.

O Zeca comeu o próprio arroz em silêncio. A Maitê chegou e sentou do outro lado. Sem olhar para ninguém. Sem falar. Só estava presente.


Às duas da tarde, Tomás chamou Bento para a Sala dos Ancestrais. A sala estava vazia. Os retratos das famílias fundadoras pendiam nas paredes emolduradas douradas, cada um com o nome e a data de fundação gravados abaixo. Uma delas pertencia à família Sturm. A outra, à família Montferrand-Dell'Orto, de onde descendia Valentina. Não havia nenhum Mendes, nenhum D'Angelo. Nenhum André. Nenhum Raffaello.

No centro da sala, sobre uma mesa longa, o quadro branco que Tomás transportava sempre consigo. Estava limpo. Branco. Esperando.

Tomás sentou. Abriu uma caneta. Pegou um pedaço de papel e escreveu: Esquema Mont Blanc 2025.

"Bento, sente."

Bento sentou.

"Eu não tenho tática de futebol. Eu tenho xadrez. E o que você precisa entender é que o que eu desenhei ontem não é um esquema de jogo. É uma resposta."

"Resposta a quê."

"Ao fato de que Vicente passou a bola pro seu jogador, que não passa pro seu jogador. Ao fato de que os italianos atacam a direita e a direita é o Zeca. Ao fato de que a Escola Riva conhece o esquema do Mont Blanc de 2024 melhor do que o próprio Sturm. E ao fato de que, se a gente jogar o esquema de sempre, a gente perde."

Tomás desenhou uma linha no quadro. Não era linha de passe. Era linha de movimento. "Aqui é o espaço que ninguém usa. O meio entre o meia e o lateral-direito. O espaço que o Zeca não alcança e o meio-campista do Riva não quer atravessar. Esse espaço existe desde 2019, quando o Riva mudou de treinador."

"Você tá desenhando um buraco."

"Eu tô desenhando um espaço. Buraco é o que o Riva não sabe defender. Se o Vicente jogar por fora e você recuar, e o Zeca subir, a gente cria um triângulo que o Riva não mapeia. O Vicente quer a bola. Você quer espaço. E eu tô desenhando um caminho que satisfaz os dois sem que o Sturm precise aprovar."

Bento olhou pro quadro. O desenho era simples. Linhas retas, cruzamentos, setas. Não era bonito. Não era bonito mesmo. Mas era funcional. O tipo de coisa que alguém que estuda o inimigo por anos consegue desenhar.

"Quando vocês vão usar isso."

"Agora. Eu escrevi num papel e dei pro Zeca. Ele vai entregar pro Vicente no vestiário. E o Vicente vai entender. Ou não. Mas a escolha é dele."

Tomás guardou o quadro. Fez o mesmo gesto de sempre, apertar a caneta entre os dedos e guardar na pasta. "Bento. A Sol calculou as probabilidades."

Ela tinha calculado. Claro que tinha. Sol não perdia nada.

"91% de chance de vitória se o Vicente e você jogarem em sincronia. 12% se jogarem separados."

12%. A diferença era o mesmo entre ser um time e ser duas pessoas num campo.

"Bento, eu sei que você não confia em ninguém aqui. Mas o Vicente... ele não é o inimigo. Ele é o capitão. Capitão que passa bola pro adversário não é traidor. É tonto."

Bento não respondeu. A pergunta era certa demais. E a resposta não existia.


A noite anterior ao jogo, o Zeca encontrou Bento no gramado. Era tarde. As luzes do campo estavam acesas, mas não havia ninguém. Os Alpes estavam visíveis ao fundo, escuros, sólidos.

"Tem algo que eu preciso te entregar." Zeca estendeu as mãos. Nas palmas, um par de chuteiras. Verdes. Desgastadas. O tecido do cabedal já tinha mudado de cor por causa do suor e da lama acumulada por anos. O tamanho era grande. 44, talvez 45.

"De quem são."

"Do teu pai." A voz do Zeca estava calma. Tranquila. O jeito que o Zeca falava sempre. "Eu encontrei no subsolo. Na ala dos bolsistas. O zelador me mostrou. Eles guardam coisas aqui. Chuteiras, bolas, uniformes de ex-bolsistas. O teu pai deixou essas quando te matriculou."

Bento olhou pro par de chuteiras. Verde. Desgastado. As soletas eram de couro, duras, já rachadas nos ponteiros. Não eram chuteiras de marca. Eram chuteiras que alguém tinha feito reparar várias vezes. Cada costura visível era uma prova de que alguém se recusava a trocá-las.

"Eu não posso aceitar isso."

"Pode. O teu pai não vai saber. Ninguém sabe. Eu sei. Tu sabes. É isso."

Bento pegou as chuteiras. O couro ainda tinha cheiro de campo. Cheiro de grama molhada e suor e terra. O cheiro dos campos de areia. O cheiro do Rio.

As mãos tremiam. Não muito. O suficiente pra ver. Ele apertou o couro e esperou. O tremor parou.

"Obrigado."

O Zeca deu de ombros. "O teu pai ia querer que tu jogasse de bom. Ele ia querer que tu jogasse com as chuteiras que ele usava. Ele ia querer que tu lembrasse de onde veio. Ele não ia querer que tu esquecesse o que o teu pai fez por ti."

Bento calçou as chuteiras no campo úmido. Ficaram apertadas nos ponteiros, como sempre. Dois números maiores. O mesmo tamanho de sempre. A diferença era só a marca. Não tinha marca. Nunca tinha tido.

Ele deu um chute num montinho de neve. A bola voou. O couro apertou e soltou. O pé sentiu o impacto como sentia de sempre. Como se as chuteiras nunca tivessem saído.


Na manhã do Torneio, o Cume estava cinza. Neblina. Aquele tipo de neblina que encobre a Colina inteira e que Sturm já tinha usado uma vez pra cancelar uma reunião. Hoje, a neblina era diferente. Era o pano de fundo. O que acontecia aqui não importava pra quem estava fora. Para quem estava fora, os Alpes eram bonitos. Os Alpes eram majestosos. Os Alpes não tinham gente.

A arquibancada já estava cheia. Famílias reais sentavam na fileira de trás, em assentos estofados com almofadas. Diplomatas sentavam no meio. Os jovens, filhos, sobrinhos e afilhados sentavam na frente. O uniforme oficial dos espectadores era o mesmo de cada ano: casaco azul-marinho com o logo do Mont Blanc bordado. Bento viu três trajes iguais, e quatro trajes ligeiramente diferentes.

No vestiário, antes do jogo, Tomás colou o esquema de ontem à tarde num painel de cortiça. As setas estavam desenhadas à mão, como no quadro branco. O esquema não tinha nome. Não precisava.

Vicente estava sentado na última fileira de bancos. Ajeitava os cadarços. Não olhou pra ninguém. Não olhou pro Bento. Ajeitava os cadarços.

O Zeca entrou com a bola debaixo do braço. "Mano, tô nervoso."

"Beto também." O Zeca olhou pra Bento. "Tu não tá nervoso, né. Tu tá... não sei. Calmo demais."

"Eu tô calmo porque o campo é o mesmo campo. O gramado é o mesmo. A bola é a mesma. Só muda quem tá do outro lado."

"Isso é o que tu diz pra se acalmar ou o que tu sente de verdade."

"Não sei. Talvez seja os dois."

Tomás apareceu na porta do vestiário. "Cinco minutos."

Bento se levantou. As chuteiras verdes ainda estavam estranhas. O couro novo ainda não tinha se moldado. O Zeca tinha razão: elas eram do pai. E o pai delas sabia o que era o pé de alguém que corria de verdade.

Vicente se levantou também. Olhou pra Bento. Não sorriu. Não disse nada. Caminhou em direção à porta. Passou por Bento. O ombro passou perto do ombro. O contato foi de três centímetros.

No corredor que levava ao campo, os Kings iam em fila. Vicente na frente. Tomás depois. Gael. Hugo. Stael. O Zeca. Bento. A ordem não era hierárquica. Era tática. Tomás tinha desenhado isso.

A porta do vestiário se abriu. O campo estava lá embaixo. Verde. Brilhante. Sob a neblina, a luz dos refletores cortava em dois. O gramado parecia flutuar. Como se o resto do mundo não existisse.

Bento pisou no gramado. O couro apertou. As chuteiras verdes se moldaram ao pé. O campo não era de areia. Mas o gramado era o mesmo. A bola era a mesma. O campo era o mesmo.

A neblina descia dos Alpes. Os drones de filmagem já pairavam acima do campo, lentos, observadores. A arquibancada aplaudia. O juiz apitou.

E o Torneio Transalpeno começou.

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