Capítulo 13: O Que se Vende

Antônia postou às onze da manhã.

Não foi no Oráculo. O Oráculo era de Valentina, e Valentina não tinha mais dinheiro pra pagar a plataforma. Antônia usava um site novo que tinha criado em dois dias, e que já tinha nome: "O Novo Oráculo". O nome era óbvio demais. Mas quem se importa com bom gosto numa guerra?

O post não era vídeo, não era clipe. Era texto. Três parágrafos. E o primeiro parágrafo ia direto no que todo mundo já sabia por fofoca: a mãe de Valentina, Sophie Montserrat-de-Luca, tinha sido fotografada num aeroporto de Istambul, de mãos dadas com um homem que não era o marido. A data da fotografia era de seis meses antes. A localização, verificada. A prova, incontestável.

O segundo parágrafo ia além. Anunciava que o marido de Sophie estava processando o amante, e que os documentos do processo seriam publicados em breve. Três parágrafos. Fim.

O painel do hall principal mudou em minutos. Seguidores de Valentina caíam. Seguidores de Antônia subiam. O gráfico era uma montanha-russa que todo mundo no corredor parava pra ver.

Valentina apareceu no refeitório às onze e quinze. Eu já estava lá. Sentado numa mesa qualquer. O tipo de mesa que ninguém ocupa de propósito. A única livre depois que Pilar empurrou uma cadeira pra eu sentar.

Valentina não veio pro refeitório. Ela veio pra a minha mesa.

"Você sabia." Não era pergunta.

"Eu sei que você não lê os sites concorrentes." Eu comia pão. Não tinha manteiga. Não tinha jeito de esconder.

Ela sentou. A cadeira rangeu. Ela não cuidou da cadeira. De alguma coisa em Valentina estava quebrada de verdade hoje. Não o estilo. Algo mais profundo.

"Apague isso."

"Não tenho acesso."

"Eu sei que você não tem acesso. Mas você conhece a Antônia. Você tem jeito. Você tem... o que tiver."

O jeito que ela falava me incomodava. Não era pedido. Era ordem. Era o mesmo tom que ela usava com Lulu quando Lulu não entregava uma foto a tempo. Mas era o mesmo tom de quem está desesperada. A diferença é que Valentina nunca admitia isso em voz alta.

"Valentina, eu não conheço a Antônia como você conhece. Eu mal sei quem ela é."

"Você sabe que ela grava tudo. Que ela vive de expor. Que ela é uma aranha que tece a teia dela nos vestiários."

"Eu sei. E mesmo assim eu não sei o que fazer."

Valentina olhou pra mim. Ajeitou o cabelo. Não precisava ajeitar o cabelo. Mas fazia isso como respirava. Era automático. Era instinto.

"Tenta."

"Tenta o quê?"

"Tenta algo. Eu não sei. Eu não sei fazer mais nada."

A voz falhou. Não muito. Mas o suficiente. O último resto de Valentina, a Rainha da Colina, a que controlava tudo com três posts e um filtro, estava falando em primeira pessoa, sem calcular ângulo, sem gravar. O que era mais assustador do que qualquer post no Oráculo.

Eu devolvi o pão. Não consegui comer mais.

"Pelo menos meia hora", disse. "Até o almoço. Eu faço o que consigo."

Valentina levantou e saiu. A mesa ficou sozinha. Pilar olhou pra mim. Zeca olhou pra mim. Tomás, que tinha chegado atrasado por causa do treino extra, levantou a sobrancelha.

"Porra, Bento. A Antônia não é uma garota que te dá um favor e vira amigo. É uma empresa."

Eu não respondi. Tinha uma hora pra descobrir como apagar um post de alguém que eu mal conhecia.


A antônia era acessível. Era o que eu tinha. Ela estava sentada no banco de trás da biblioteca, o único lugar da escola onde a hierarquia não valia. A biblioteca era neutra. Ninguém filmava na biblioteca. Era uma das poucas regras que todo mundo respeitava.

Eu sentei na mesa ao lado. Sem falar. Sem pedir permissão. A biblioteca punia conversas, não presença.

Antônia olhou pra mim. O celular estava na mesa. O novo site aberto. As visualizações do post já passavam de cem mil.

"Você é a nova rainha?", disse.

Ela soltou uma risada curta. "A nova rainha não senta na mesa dos bolsistas."

"Estava pensando em me mudar."

"Não é bem assim."

"Então explique como é."

Antônia fechou o celular. O gesto foi calculado. Ela não ia me dar a atenção de graça. Ou pelo menos não ia parecer.

"Eu tenho o conteúdo. O Oráculo tinha o alcance. Aí o dinheiro de Valentina secou, o alcance secou junto, e eu aproveitei."

"Você construiu o novo site em dois dias."

"Quatro dias. A programação foi do Gael."

Gael. O cara que não jogava futebol mas tinha um talento que ninguém entendia. Programador. Eu não imaginava Gael programando. Talvez isso explicasse por que ele tinha aquele ar de quem sabe algo que ninguém mais sabe.

"Apague o post", disse.

"Por quê?"

"Porque a mãe dela não vai agradecer."

"Não precisa agradecer. Precisa ter o post."

"O quê que você vai fazer com um post sobre uma mãe divorciada?"

Antônia me olhou. Pela primeira vez, não tinha o sorriso venenoso. Tinha calculismo. O mesmo tipo que eu via em Vicente antes de jogar.

"Posto a próxima semana que vem."

"E a próxima?"

"A próxima é o que você não quer ver."

O tom era firme. A mensagem era clara. Apaguem agora. O que vier depois é coisa minha.

"Porque quem é vocês, o que você sabe sobre ela?"

"Eu sei o bastante. Eu sei que o pai de Valentina não é o único que tem segredos. Você também tem, Bento. Só que os seus são mais difíceis de encontrar."

Isso não era ameaça. Era aviso. Antônia estava dizendo: eu posso te derrubar. Mas ainda não sei como. E não quero saber agora. Eu quero o topo. E eu vou ficar no topo.

"O post sai até as duas."

"Às duas. Ou o próximo é pior."

Eu saí da biblioteca. Às uma e quarenta e três minutos. A cada minuto eu pensava na mesma coisa: Valentina sentada naquela mesa, a voz quebrando, o cabelo ajeitando automaticamente. Eu não conhecia Valentina. Conhecia a versão que ela mostrava. A versão sem seguidores era alguém que eu não tinha nome pra definir.

O post saiu às uma e cinquenta e dois. Sumiu. A tela do novo Oráculo mostrou: "Conteúdo removido." O painel do hall parou de mudar. Os seguidores de Antônia estabilizaram.

Valentina não agradeceu. Quando nos cruzamos no corredor, depois do almoço, ela nem olhou pra mim. Não era raiva. Era vergonha. Ela não queria que eu tivesse visto o desespero.


A Casa do Diretor ficava no extremo norte da propriedade. Distância de quinze minutos a pé pelo caminho de cascalho que ninguém usava. Eu não ia de trem. Não queria ser visto entrando no palacete de Sturm.

Sturm abriu a porta antes de eu bater. Como se estivesse esperando.

"Entre."

A sala de Sturm era diferente da de Valentina. Valentina tinha espelhos. Sturm tinha livros. Não livros de decoração. Livros de verdade, encadernados em couro, organizados por categoria: diplomacia, estratégia, história, política. Havia uma estante que ia do chão ao teto. Duas estantes completas.

"Sentar."

Eu sentei. Sturm não sentou. Ficou em pé perto da janela, olhando pro gramado. A janela era grande. Ocupava toda a parede. O gramado de treino era visível. Três drones voavam baixo, como pássaros.

"O post de Antônia."

"Eu fechei o acordo."

"O acordo não é o problema. O problema é que Antônia vai postar outra vez. E a próxima não será sobre a mãe de Valentina."

"Não será sobre a mãe da Valentina. Mas você não sabe o que será."

"Você sabe."

Eu não sabia. Mas não disse isso.

"Sturm, o que você sabe sobre Antônia que ninguém mais sabe?"

Sturm sentou. Pela primeira vez. Sentou na cadeira dele. As mãos no colo. Igual ao pai de Vicente na reunião que eu vi pela janela. A posição era a mesma. A mesma calma. A mesma certeza de quem sabe mais do que deveria.

"Antônia Ferreira é filha de Hugo Ferreira, proprietário do grupo Ferreira & Filhos, uma holding imobiliária que opera em onze países. O grupo tem dívidas. Dívidas que não aparecem nos relatórios que os alunos veem. Mas que aparecem nos relatórios que eu vejo. Cada post que Antônia faz no seu novo blog gera atenção. E atenção, nesse caso, é o último recurso de uma empresa que está se afogando."

Eu absorvi. A matemática era simples. Antônia não era só uma garota com um celular e ambição. Era a ferramenta de alguém. Ou de uma empresa.

"Sturm, por que você não me avisa antes?"

"Você não pediu. E eu não devo nada a ninguém que não esteja pagando a conta."

A frase era precisa. Crua. Sturm não explicava por bondade. Explicava por cálculo. E o cálculo dele sempre incluía mais do que eu.

"O que você sugere?"

"Eu sugiro que a Antônia receba uma proposta formal. De mim. Dele. Do conselho. O que vier depois depende de quem aceita."

"Cade é a proposta?"

"Isso não é o seu negócio, Bento. É a sua responsabilidade."

A diferença entre negócio e responsabilidade era tudo. Negócio era troca. Responsabilidade era fardo. Sturm me empurrava de volta pro buraco. Não era acidental. Era método.

Eu saí da Casa do Diretor com a cabeça pesada. O caminho de cascalho me levou direto pro subsolo.


O subsolo era o lugar onde a Colina se escondia. Os bolsistas não eram escondidos. Eram ignorados. A Ala dos Bolsistas ficava num subsolo que era parte das fundações do prédio principal. As paredes eram de concreto. As janelas davam pro jardim das esculturas dos Nível 1. De lá de baixo, as esculturas pareciam fantasmas. Bonitas. Inacessíveis. Fria.

Zeca me esperava na mesa do fundo. A mesa era da equipe. Zeca, Tomás, Pilar, Gael, Sol e eu. Mesa comprida, cadeiras rearranjadas quando faltava lugar. Sempre.

"O que você acha que eu vi?" Zeca não começou com saudação. Direto. Como sempre.

"Depende. O que você viu?"

"Lulu."

"Lula do quê?"

"Lulu. A Lulu. A melhor amiga da Valentina. A que vendia informações pros pais dos alunos. A que eu falei pro Tomás que tinha sumido semana passada."

"Sumiu. E agora?"

"Agora foi vista. Hoje. No subsolo."

"O subsolo não tem saída pro túnel."

"Não. Mas ela saiu pelo lado de fora. Eu vi ela pela janela do refeitório do subsolo. O refeitório do subsolo dá pro jardim lateral. E o jardim lateral dá pro caminho que leva ao túnel."

Túnel. O túnel que ligava o Mont Blanc à Escola Riva. Não era um túnel de água. Era um túnel de conexão. As nove Escolas dos Alpes tinham túneis. Era segredo de Polichinelo entre os professores. Era segredo inquestionável entre os alunos. O túnel era a única coisa que nenhum adulto admitia.

"Porque que Lulu tá indo pro túnel?"

"Não sei. Mas Lulu não é boba. E boba não entra num túnel que liga à escola rival sem motivo."

"Você viu ela com alguém?"

Zeca balançou a cabeça. "Sozinha. Com a mochila. Mas a mochila era grande. Grande demais pra só um caderno."

"A mochila grande. O que você acha que Lulu tá carregando?"

Zeca olhou pra Pilar. Pilar olhou pra Tomás. Tomás olhou pra mesa. Todos nós sabíamos o que o túnel significava. Não era só acesso a outra escola. Era acesso a informações. A escola rival tinha os mesmos segredos. E se Lulu estava levando algo, era porque tinha algo pra trocar.

A Guerra dos Blogs não era entre Antônia e Valentina. Era entre o Mont Blanc e a Escola Riva. E Lulu, a melhor amiga de Valentina, a que era leal até o fim, a que ninguém desconfiava, estava cruzando o túnel com uma mochila grande.

"Precisamos falar com o Sturm."

"Sturm não vai acreditar."

"Sturm vai acreditar no que eu mostrar."

"O que você vai mostrar? Nada. Ninguém viu Lulu. Eu vi. Mas eu não posso provar."

O silêncio no subsolo foi o tipo de silêncio que só existe quando todos os presentes entendem o mesmo perigo e nenhum está disposto a ser o primeiro a admitir. Eu não falei. Pilar não falou. Zeca não falou. Tomás fechou o caderno. Gael tocou o baixo na arquibancada de qualquer jeito. Sol olhou o tablet.

"O projeto de caridade", disse Pilar. "Acabou."

Ela estava certa. O projeto de caridade era a única coisa que mantinha Bento e Valentina juntos. A única coisa que mantinha o time unido. A única coisa que mantinha os blogs em silêncio. Tudo aquilo estava acabado. E a prova não estava num post nem numa queda de seguidores. Estava numa mochila grande que atravessava um túnel no subsolo da Colina.

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