Capítulo 9: Sem Marca

A chácara fica em Piracicaba, duas horas e vinte minutos de carro do centro de São Paulo. A Sônia escolheu o lugar para o ensaio da quinta semana. Quinto mês. Quinto marco. Números que a Sônia não escolhe por acaso.

O lugar tem um casebre de pedra no centro, com uma cerca de madeira que parece ter sido instalada ali quando os Veloso ainda eram uma família comum e não uma marca global. O resto é campo aberto. Grama baixa. Céu sem obstáculos. Sem fios elétricos. Sem postes. Sem nada que quebre a linha do horizonte.

Rodrigo chega às oito da manhã com a mesma silenciosa eficiência de sempre. O motorista o deixa na estrada de terra. Rodrigo caminha até o casebre. Não tem pressa. Caminha devagar, como se a distância já fizesse parte do roteiro.

Eu levo um malet com roupas. Quatro trocas de roupa para mim. Duas para ele. A Sônia foi explícita: cada peça tem um significado narrativo. A primeira troca é formal, como quem chega num lugar e ainda não sabe para onde está. A segunda é casual, como quem se soltou. A terceira é íntima, como quem já se soltou. A quarta é nenhuma, como quem não precisa mais de roupa.

A Sônia não incluiu a quarta troca no malet. Ela mesmo, no último minuto, disse: "A quarta é a que ele decide."


Rodrigo está do outro lado do casebre. Não está se trocando. Está esperando. Eu abro o malet e a primeira peça já está separada: um vestido de linho cor de areia, sem logotipo, sem corte dramático. A peça que Rodrigo escolheria para si mesmo, se pudesse.

A primeira sessão dura noventa minutos. As fotos são neutras. Nós dois sentados na varanda do casebre, sem conversar, sem se tocar. A câmera captura o que a Sônia chama de "presença compartilhada." É um termo de fotografia que significa dois indivíduos que ocupam o mesmo espaço sem a necessidade de justificar essa ocupação.

É o que Rodrigo faz há anos. É o que ele faz o tempo todo. É só.


Durante a segunda sessão, no campo aberto, eu noto algo que já sabia mas nunca tinha nomeado com clareza. O guarda-roupa de Rodrigo não tem marca. Nenhuma. Desde o primeiro dia do contrato, no estúdio da Veloso, eu vi o que hoje vejo na prática: cada peça que ele veste é costurada sob medida, sem etiqueta, sem logotipo, sem identificação. A costura é invisível. O corte é preciso. A roupa não declara nada. É o que não há nela que é o ponto.

Rodrigo está sentado num toco de tronco seco, olhando para o campo. Eu me sento a dois metros dele, o que dá espaço o suficiente para que a câmera não me capture no mesmo frame. Mas as câmeras não estão ativas. Este é um momento entre sessões. O fotógrafo está ajustando a luz. A equipe está em pausa. O silêncio é o que sobra.

Eu olho para ele. Ele olha para o campo. Eu vejo a camisa dele. Algodão orgânico, corte largo, sem logomarca. Eu vi esse modelo duas vezes antes, nos bastidores do museu, nos corredores do escritório dele, no jantar do D.O.M. Cada vez, a mesma peça. Ou uma idêntica. A mesma silhueta. O mesmo corte. A mesma ausência.

"Você nunca usa marca", eu digo.

Não é uma pergunta. É uma observação. Eu já disse isso na minha cabeça uma centena de vezes, mas nunca em voz alta. Em voz alta, as palavras têm peso.

Ele se vira. Não é rápido. É só. "Não."

Eu espero. Ele não fala mais. Mas o "não" é diferente do "não" do primeiro dia, no escritório da Veloso, quando eu cheguei para assinar o contrato. Aquele "não" foi um portão. Este é uma porta. Leve, como se pudesse ser empurrada.

"O seu pai usava marca", eu digo. Não pensei antes de falar. As palavras saem antes do cálculo, e quando eu percebo que já disse é tarde demais. Ele está olhando para mim. Não com raiva. Com atenção. Algo que ele reserva para pessoas que ele ainda não decidiu se pode ou não confiar.

"Sim."

"Ele foi o motivo de você não usar."

Ele não responde de imediato. O campo está em volta, silencioso, com um vento que vem de norte e só move a grama. "Sim."

Eu me calço. Não sei como ele fez essa descoberta. Como leu o que eu escrevi sem ter lido o que escrevi. Ou como o processo é simples assim e eu estou apenas complicando. De qualquer jeito, ele sabe que eu sei. E ele não se defendeu.


Rodrigo explica. Não é longo. Não é dramático. Ele fala de um jeito que parece ter ensaiado isso mil vezes, mas nunca disse para ninguém. Que o pai dele foi, nos anos noventa, uma celebridade de negócios. Aparecia em capas de revista, pautava entrevistas, fazia palestras. O pai de Rodrigo foi público. O tempo todo. Por vinte e dois anos. E a exposição destruiu o que ele tinha de mais precioso.

"Ele não morreu, né?"

Eu assento de vez. "Não."

"Meu pai vive em uma fazenda no interior de Minas Gerais. Tem um nome diferente. Uma vida diferente. A família toda sabe. Ninguém fala. Ninguém pergunta. E meu pai não quer que ninguém fale nem pergunte. O motivo é simples. Ele foi consumido. A exposição que ele escolheu o comeu vivo."

Ele faz uma pausa. A grama se move com o vento. "Eu vi. Com doze anos, eu vi o que acontece quando você abre a porta para o mundo e o mundo não sabe o que é respeito."

A frase pousa no chão. Eu a deixo ali por um momento. Dezoito anos sem exposição. Sem logotipo. Sem imagem. Sem marca. Toda a vida construída para não precisar se explicar. A vida de Rodrigo é a vida de quem escolheu o silêncio antes de ser obrigado a ele.

E a minha. A minha é o inverso exato. Eu construí tudo para ser vista. Para ser ouvida. Para ser comentada. A exposição é o que me mantém. A exposição é o que me sustenta. Sem exposição, sou igual àquele pai. Um nome que ninguém mais pronuncia. Uma pessoa que existiu e agora só existe nas páginas de um feed que alguém rola para o próximo.

"Você não está no mercado de ser tocado", eu digo. As palavras de Mariana. Eu as digo agora para Rodrigo. Não como confronto. Como reconhecimento.

Ele não responde. Mas não se afasta. O silêncio entre nós não é vazio. É ocupado.


A sessão de tarde é diferente. A Sônia pede que a equipe retire tudo. Câmeras. Refletores. Equipamento de som. Só a câmera principal permanece, a que a Sônia opera pessoalmente. "Quero algo que não parece ensaio", ela diz. "Quero algo que parece ter acontecido."

Rodrigo se levanta. Caminha até a cerca de madeira. Senta-se no degrau de cima. Eu me sentando ao lado dele. Não me posiciono. A Sônia não diz onde eu devo sentar. A ausência de instrução é a instrução.

Nós sentamos. O sol está baixo. A luz é dourada e não precisa de ajuste. O campo se estende até o horizonte. Sem prédios. Sem fios. Sem nada.

Rodrigo vira o rosto para o campo. Eu viro o meu também. As câmeras captam os dois. Mas o que importa não é a câmera.

Ninguém fala. O silêncio dura o tempo suficiente para que o momento pareça verdadeiro. Não é roteiro. Não é calculado. Ninguém marcou. Ninguém ensaiou. A Sônia, do outro lado do campo, ajusta o ângulo com a calma de quem sabe que está capturando algo que não pode ser repetido.

Eu não me mexo. Não penso em ângulo. Não penso em frame. Não penso em engajamento ou métrica ou vídeo ou roteiro. Penso em nada. Ou em tudo. Ou em nada do que posso nomear.

Quando a sessão acabar, eu vou voltar a pensar. Vou voltar a calcular. Mas neste momento, neste segundo exato, não há nada disso.


À noite, no carro de volta para São Paulo, Letícia me liga. Às vinte e duas horas. Letícia não liga às vinte e duas horas. O horário é uma mensagem por si só.

"Ela tá bem? Tá vendo o que tá acontecendo? O engajamento do último vídeo subiu quarenta e dois por cento."

Eu estou no banco do passageiro. Rodrigo está dirigindo. Não sabe do que a Letícia está falando. Para ele, a noite terminou. Para mim, ela está apenas começando.

"O próximo vídeo", Letícia continua, "tem que incluir uma confissão. Não pode ser no roteiro. Tem que ser espontâneo. Eu sei que você tem técnica para isso."

"Qual confissão?", eu pergunto.

"Nenhum vídeo que eu vi até agora mostrou a profundidade que o público quer. O povo não quer noivado. O povo quer confissão. Que você sente que é real."

A frase é clara. A instrução é clara. A diferença entre as duas é o que eu devo ou não devo fazer.

"Não tá no roteiro", eu digo.

"Eu sei que não tá no roteiro. É por isso que precisa ser espontâneo. Se tá no roteiro, é roteiro. Se não tá no roteiro, é a Isabella de verdade dizendo o que a Isabella de verdade sente. Que é diferente de tudo que o público já viu."

"Mas se eu não sinto...", eu começo.

E não termino a frase. Não porque não seja verdade. Mas porque a pergunta correta não é essa. A pergunta é: eu sei o que sinto? E a resposta é: não sei. E não sei desde quando? Desde o museu. Ou desde o D.O.M. Ou desde o primeiro dia no estúdio da Veloso, quando Rodrigo me disse que eu era a melhor.

Letícia não espera resposta. "Prepare o que você precisa preparar. Amanhã nós gravamos."

A ligação termina. O celular escurece. Rodrigo está no outro lado do carro, com os olhos na estrada. O motor zumbir de forma constante. As árvores do interior passam rápido. A cidade vai aparecer em vinte minutos.

Eu guardo o celular. Encosto a cabeça no vidro. O vidro é frio. O ar-condicionado está ligado. O carro é silencioso. O silêncio é seguro.


Em casa, às zero horas, eu fecho a porta. Dezoito graus. O apartamento é o mesmo de sempre. Os móveis são os mesmos. A iluminação é a mesma. Mas algo mudou. Não sei o quê. Talvez nada. Talvez tudo.

Vou ao guarda-roupa. As quatro trocas da chácara estão penduradas no gancho da porta. O vestido de linho cor de areia da primeira sessão. A camisa de algodão de segunda. As duas últimas peças não estão mais. Estão com a equipe.

Eu pego o primeiro vestido. Linho. Cor de areia. Sem marca. Eu o seguro e encerro. O tecido é leve. A costura é invisível. O corte é largo. É uma peça que não diz nada. Uma peça que é o que não tem.

Eu o penduro. Depois o segundo. Depois o terceiro. Cada peça sem logotipo. Cada peça que não precisa de nome para existir. Cada peça que Rodrigo escolheria para si. Cada peça que eu nunca teria escolhido.

Pego o quarto e último vestido. É o único do meu malet que tem marca. Um pequeno "I.N." bordado no punho esquerdo. Minha marca. Minha assinatura. Minha armadura.

Eu o despenso. O penduro. E então o guardo. Guardo no fundo do armário, atrás das outras roupas, onde ninguém vê e onde eu também não preciso ver todos os dias. Não preciso destruí-lo. Apenas guardá-lo. Deixá-lo de lado. Deixá-lo esperar.

O vestido que não é mais de armadura.

Fecho o armário. Apago a luz. O apartamento escuro não é vazio. É só. É o que sobra quando eu paro de calcular.

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