Capítulo 4: Sanção

O carro não liga. Fico sentada no banco do motorista com as mãos no colo, tentando decidir o que fazer com o resto da madrugada. A bateria está seca. Não sei há quanto tempo. Uma hora? Três? Horas suficientes para o sol nascer e para eu continuar na mesma posição, sentada num carro que não liga, num estacionamento de Vila Madalena que não conhece o meu nome.

Ao amanhecer, passo a mão no rosto. Os dedos deixam manchas de oleosidade na pele. Não lavo. Não sei onde. Não há motivo para lavar. Estou num estacionamento público, no meio do nada, e ninguém me conhece aqui.

O estacionamento é de um shopping que fecha às vinte e três e abre às sete. Entre essas duas horas e trinta minutos, é o meu. Fecho o carro. Caminho até a saída. A calçada está seca. A rua, vazia. Vou andando. De Vila Madalena até a estação de metrô, um quilômetro e meio. Caminho sem pressa. Não há pressa.

No metrô, ninguém me olha. São vinte e dois passageiros na composição. Doze olham para o celular. Três cochilam. Um lê um jornal impresso. Só eu não olho para nada. Encaro o fundo do vagão, o anúncio de uma clínica de estética que promete "rejuvenescimento com laser", e penso que talvez seja isso que eu preciso: laser. Cortar tudo o que está sobrando.

Chego em casa às seis e quarenta. Tomo um banho de dez minutos. Não lavo o cabelo. Seco as roupas que coloquei ontem. O celular continua desligado. Não ligo. Deixo a tela preta virada para cima, como quem coloca um espelho que não reflete nada.

Durmo três horas. Acordo às nove. O apartamento está no mesmo estado em que o deixei. A cama feita. A cozinha limpa. A gaveta da mesa de cabeceira com três pilhas de cartas de seguidoras que nunca li. As cartas estão empoeiradas. As pilhas estão tortas. O pó é a única coisa que se move neste apartamento.

Ligo o celular. O carregador está na gaveta, do lado dos carregadores antigos e dos cabos que não funcionam mais. Encostei a ponta Lightning na base e esperei. A tela piscou. Depois, o logotipo da Apple. Depois, a barra de carregamento. Trinta segundos. Quatroenta. Um minuto. A tela acende.

Há 47 notificações. 12 e-mails. 8 mensagens de Letícia. 3 de Hugo. 1 de um número que não reconheço. E 24 notificações de push. Nenhuma específica. Todas genéricas. "Novo vídeo", "Atualização", "Aviso de segurança". O que elas significam? Nada. Só o fato de haver 47 notificações já é um sinal. Alguém está pensando em mim. Mesmo que ninguém tenha escrito.

Deixo o celular ligado. Não abro nada. Vou à cozinha. Abro a geladeira. Há leite. Há pão. Há margarina. Nada mais. O pão está seco. Como de qualquer modo.

Às dez, Letícia liga.

"— Alô."

"— Você viu as marcas? O contrato de meditação caiu. O de farmácia caiu. O de suplemento caiu. E agora caíram mais três. Já são oito no total."

"Oito."

"Isa, são doze. Eu contei. Doze marcas congelaram. Só duas responderam com silêncio ativo."

"Silêncio ativo é um conceito de vocês."

"Eu sei. Mas é preciso. Elas não dizem não. Dizem nada. E nada é a mesma coisa que não. Só que, para todo efeito prático, é a mesma coisa que não."

Estou de pé na cozinha. Comendo o terceiro pedaço de pão seco.

"— Letícia, o que você sugere?"

"Eu sugiro você ligar para o Rodrigo."

"Não."

"Por quê?"

"Por quê por quê. Eu não ligo para o homem que me processou."

"Não ligo como amante. Como advogada. Como profissional."

"Profissional não existe mais. A última marca me congelou. O estúdio está sendo desmontado. A única profissional que me resta é eu."

Ela faz silêncio. Sabe que tenho razão. Sabe também que não tenho razão.

"— O que eu vou fazer até as setenta e duas horas acabarem?"

"— Esperar. E se alguma coisa aparecer, aceitar."

"Se aparecer."

"Sim. Alguma coisa pode aparecer. Não sei o quê. Mas pode."

Ela desliga. Eu desligo. O pão acabou. Fico de pé na cozinha, olhando para o armário vazio. A gaveta de temperos tem sal, pimenta e uma colher de ervas que não sei o que é. Abro o armário e pego a lata de ervas. Abro. Dentro, um pó verde marrom. Cheiro. Cheira a nada. Ou a tudo, se você quiser que cheira a tudo. Guardo de volta.

Às onze, uma limusine estaciona na frente do meu prédio. É uma Mercedes negra com vidros fumê. Não conheço o motorista, mas conheço o tipo. Motoristas de marca. O motorista me vê na janela e acena. Não sorri. Acena.

Desço. Não levanto o celular para filmar. Não ajusto o cabelo no espelho do portão. Abro a porta do carro e entro. O banco é de couro. O couro cheira a novo. O carro tem ar-condicionado próprio. Frio. Frio demais.

"— Para onde, senhora?"

"Para o Jardim Europa."

Ele sabe o caminho.

O trajeto leva cinquenta e dois minutos. Eu conto os minutos no relógio de pulso, o mesmo que uso desde 2019. O mostrador tem um arranhão diagonal que não me incomoda. É o preço de ter usado o mesmo relógio por seis anos. Se eu tiver dinheiro, troco. Se não tiver, uso até o ponteiro deparar.

O escritório da Veloso fica numa torre de vidro no Jardim Europa, entre um escritório de advocacia e um fundo de investimento. O chão é mármore. As paredes são vidro. As paredes de vidro significam transparência, ou a falta dela, o que for mais cômodo para quem construiu o prédio. As escadas rolantes estão paradas. Ninguém usa. Ninguém vai a nenhum andar. O prédio de dezessete andares parece um aquário sem água.

Um homem de terno bege me espera no lobby. Não me cumprimenta. Olha para o celular. Ele não sabe quem eu sou. Ou sabe e escolheu não saber. Ambos são possíveis.

Ele olha para o relógio.

"— Ela está atrasada?"

Eu leio os lábios. Não respondo.

O homem do terno bege se vira para o elevador. Aperta o botão. O elevador sobe do térreo. Chega no primeiro segundo. Ele entra. Eu entro. Não há mais ninguém.

O elevador sobe. O chão do lobby desaparece. O andar dois passa. O andar três. O andar quatro. No andar oito, as portas se abrem. Não há ninguém. As portas fecham. Subimos.

No décimo quarto andar, as portas abrem. Um corredor de mármore branco. Duas portas. Uma aberta. A outra fechada. O homem do terno bege entra na aberta e me faz sinal.

A sala é pequena. Duas mesas de conferência. Duas cadeiras de couro preto. Um quadro na parede com o logotipo da Veloso em cinza sobre fundo branco. Não há logotipo. Há apenas o nome "Veloso" em uma fonte que eu não reconheço. A fonte é discreta. A ausência de logotipo é a marca.

"Dois advogados," diz o homem do terno bege. "Não sou advogado. Sou assistente jurídico. Meu nome é Fábio."

Fábio se senta numa das cadeiras. Eu me sento na outra. A mesa entre nós é de vidro. Através do vidro, vejo o chão do escritório. Alguém caminha. As pessoas no escritório têm o mesmo comportamento de quem está em um aquário. Movem-se sem fazer barulho.

Os advogados entram.

Eles são dois. O primeiro é um homem de cinquenta anos, mais ou menos, com óculos de aro fino e uma gravata que não combina com a camisa. O segundo é uma mulher de quarenta e poucos, cabelos presos em um coque baixo, sem joias. Apenas um relógio fino no pulso esquerdo.

"Ela é a Isabella Negrão," diz Fábio. "Ela está aqui desde as onze e dez."

Os advogados se sentam. Eu me sento. A mesa de vidro é fria. A cadeira de couro é dura. O assento se ajusta ao corpo, mas o couro não cede.

"— Bom dia, senhora Negrão. Eu sou o doutor Campos. Esta é a doutora Mendes."

Campos. Mendes. Sobrenomes que não significam nada para mim. Mas significa tudo para quem assinou o processo que está destruindo minha vida.

"— Sente-se à mesa?"

"Sim."

Campos abre uma pasta. A pasta é de couro marrom. Ele retira três documentos. O primeiro é uma folha de papel timbrado com o carimbo da marca. O segundo é um contrato. O terceiro é uma carta.

"— A senhora já conhece a marca Veloso."

"Não conheço."

Campos me olha por dois segundos. Não é uma olhada de julgamento. É uma olhada de quem está verificando se o paciente está consciente.

"A Veloso Group é uma das maiores marcas de vestuário do Brasil. Fundada em 1987 pela dona Helena Veloso. Hoje opera em quarenta e dois estados e tem faturamento anual de 1,2 bilhão de reais."

"Eu sei."

"Sabe?"

"Sim. Todo mundo sabe."

Ele continua. Não se ofende. A informação foi dada.

"O contrato que tenho a honra de apresentar à senhora é um acordo de cooperação de nove semanas. A senhora se apresentará como noiva de Rodrigo Veloso durante o período de lançamento da nova coleção."

Dois. Segundos. Depois falo.

"— Noiva de quem?"

"— De Rodrigo Veloso."

Fico em pé. Não sei por que. O corpo reage antes da mente. Levanto da cadeira. A cadeira arrasta no chão de mármore.

"— Você está me oferecendo um noivado com o homem que me processou."

"— Não estou oferecendo."

Campos fecha a pasta.

"— Estou comunicando. O processo contra a senhora será arquivado como condição para a assinatura deste acordo. Em troca, a senhora se compromete a uma presença pública de nove semanas como parte do lançamento. A narrativa será inteiramente controlada pela marca. Nenhum conteúdo será publicado sem aprovação prévia. A senhora não terá direito de interpretação criativa. E não terá direito de falar sobre o contrato a ninguém."

Eu me sento. A cadeira volta ao lugar.

"— E se eu recusar?"

"O processo segue seu curso natural. A senhora sabe que isso significa, no mínimo, um ano de litígio. Com possibilidade de condenação em danos morais que ultrapassam R$ 2 milhões."

Dois milhões. O valor do débito do estúdio é quarenta e sete mil. Dois milhões é a diferença entre uma dívida e um fim.

"— De quem é a proposta?"

"É da família Veloso. Mais especificamente da dona Helena."

A porta do fundo da sala se abre. Helena entra.

Ela é baixa. Magra. Tem sessenta e poucos anos, mais ou menos. A roupa é um terninho bege com o mesmo corte preciso da marca. A roupa não tem logotipo. Helena tem um relógio. Um colar de pérolas. Um anel de solitário. Nada mais. A ausência de jóias demais é a marca. Helena não usa mais do que precisa.

"Falemos de forma clara, dona Isabella. Eu sei quem a senhora é. A senhora me conhece. Eu sei que a senhora é competente. Sei que a senhora é perigosa. Sei que a senhora é a melhor de tudo quanto é tipo de influenciadora que já vi."

Ela senta. Senta do mesmo jeito que os advogados sentaram. O mesmo ritmo. A mesma postura.

"A senhora me destruiu."

Não é uma acusação. É um fato. Helena fala como quem lê uma nota de rodapé de um livro técnico.

"O vídeo da senhora me descreveu como alguém que manipula o próprio marido. Que é fria. Que é calculista. Que é a mulher que destrói a família."

Ela faz uma pausa. Não uma pausa dramática. Uma pausa técnica. Ela está contando os argumentos.

"Eu não sou nenhuma dessas coisas. Rodrigo é um filho. Ele não me destrói. Não manipula ninguém. E, ao contrário do que a senhora disse, eu não sou fria. Sou discreta. Há diferença."

"O que a senhora fez não foi um erro de análise. Foi um ataque. Um ataque contra um indivíduo que nunca pediu exposição. Um ataque que destruiu três anos de reputação construída com cuidado e que, se não fosse contida, destruiria a empresa."

Ela se inclina para frente. As mãos sobre a mesa de vidro.

"Então aqui está a sanção. A senhora vai fingir que ama o meu filho por nove semanas. Vai aparecer em fotos. Vai sorrir. Vai segurar a mão dele. E tudo isso será documentado. Cada palavra, cada gesto, cada imagem será aprovada por mim. A senhora não fala sem minha permissão. A senhora não pensa sem minha permissão. A senhora não existe."

Eu a olho. Helena é implacável. Não é malvada. É implacável.

"— E se eu assinar? Que valor?"

"O valor é de R$ 450 mil. Pagamento único. O valor cobre todas as dívidas do estúdio e deixa a senhora com um saldo positivo. Mas a senhora não receberá o dinheiro até o final do contrato."

Até o final. Ou seja: se eu desistir, perco tudo. O dinheiro não existe. É uma isca. Helena me oferece um peixe que ainda está vivo. E eu não posso tocá-lo.

"— Por que não me mata de uma vez?"

Helena sorri. Não é um sorriso gentil. É um sorriso funcional.

"Porque a morte é permanente. O contrato é temporário. E eu prefiro que a senhora continue viva, de olho, e lembrando de mim. De nove semanas. O tempo que a senhora tem para lembrar quem a mandou aqui."

Eu assinto. Não estou pronta. Mas também não tenho opção.

Enquanto isso, nas redes, Tomás Veloso já começou.


Tomás é o irmão mais novo de Rodrigo. Tem vinte e nove anos. Segue 1.200 pessoas no Instagram e tem 800 mil seguidores. Ele posta três vezes por semana, geralmente de viagem ou de alguma festa que não foi convidado. Ele é a cara exposta da família Veloso. Rodrigo é o silêncio. Tomás é o barulho.

Às dez e vinte da manhã, Tomás posta um story. A foto mostra ele, um copo de gin e alguma coisa que parece ser o escritório da Veloso ao fundo. A legenda: "Minha mãe me convidou para ver o que ela aprontou no escritório. Dizem que a Isabella Negrão vai aparecer em alguma coisa. Fica a dica: se aparecerem as duas juntas, não se surpreenda. 😂"

O story tem 12 mil visualizações em trinta minutos. Os comentários são rápidos. "Sério? A Isabella e o Rodrigo?" "Espera, a Veloso contratou a Isabella?" "A Isabella Negrão e o Rodrigo Veloso? Eu não estou entendendo." "A velha inimiga e o homem que ela destruiu? Tá maluca ou o quê."

Tomás responde. Um emoji de palhaço. Nada mais.

O hype começa.


Volto ao carro às duas e quarenta. Fábio me acompanha até a saída. Não diz nada. Aperta o botão da porta do passageiro. O carro está quente. O ar-condicionado está desligado. O banco de couro queimou durante as quatro horas que estive na sala de Helena.

O motorista é o mesmo. Não me olha. Entra no banco. Liga o ar-condicionado. Frio. Frio instantâneo.

"— Para onde, senhora?"

"Para a cidade."

Ele sabe. O carro entra na pista. O Jardim Europa escorre pelo lado de fora. Torres. Vidros. Pessoas de terno. Pessoas de tênis. Pessoas que não sabem que uma mulher de trinta anos está sentada num carro negro com um contrato de nove semanas no bolso da bolsa.

No carro, abro a bolsa. Retiro o contrato. São onze páginas. Ele está em papel timbrado da marca. A primeira página diz "Acordo de Cooperação Institucional". A última página diz "Assinatura da Parte Adquirente".

Leio.

Nove semanas. Presença pública controlada. Narrativa sob controle da marca. Aprovação prévia de cada conteúdo. Proibição de qualquer menção ao contrato a qualquer pessoa. Cláusula de confidencialidade. Cláusula de não-interferência. Cláusula de exclusividade.

A cláusula de exclusividade me faz parar. Significa que, por nove semanas, eu não posso fazer nada. Não posso aparecer em nenhum outro conteúdo. Não posso atender nenhum cliente. Não posso gravar nenhum vídeo. Não posso postar nada. A minha vida digital é congelada. As minhas 2,3 milhões de seguidores são mantidos como um ativo adormecido.

Nove semanas. O tempo que o contrato exige.

Passo as páginas. Ao final, há duas linhas para assinatura. A primeira para Helena. A segunda para mim.

Fecho o contrato. Guardo na bolsa. Olho pela janela. A cidade de São Paulo desliza. Edifícios. Viadutos. Carros. Pessoas. Tudo é movimento. E eu sou a única coisa que está parada.

O motorista desvia de um buraco na pista. O carro balança. Eu me inclino. O contrato escorrega do colo e cai no chão do passageiro.

Ele para o carro. Abre a porta do passageiro. Tira o contrato do chão. Fecha a porta. Devolve o contrato.

"— A senhora precisa de água?"

A pergunta cai no carro. O ar-condicionado sopra no meu rosto. Frio. Artificial.

Eu olho para o motorista. Ele não espera resposta. Segue em frente.

Preciso de água. Preciso de água? Preciso de tudo. Mas a pergunta é específica. Ele quer saber se eu estou desidratada. Ou se estou nervosa. Ou se apenas quero algo para fazer enquanto o carro anda.

Não sei se estou rindo. Não sei se estou chorando. As duas coisas. Ambas ao mesmo tempo. A garganta apertada. O rosto desconhecido.

"— Não preciso de água. Pode seguir."

Ele assente. O carro segue. A cidade passa. Eu passo com a cidade.

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