Capítulo 14: O Que Resta

O silêncio do auditório durou talvez quatro segundos. Então veio o barulho.

Não foi um barulho de reação, mas um barulho de equipamento. Câmeras desalinhando, microfones sendo ajustados, repórteres conversando uns com os outros. O silêncio acabou. A coletiva seguiu. As perguntas continuaram. Mas o que importava já tinha acontecido.

Eu disse a verdade. Sem roteiro. Sem estratégia. Sem o que fazer a seguir.


Às doze e vinte, meu contador de seguidores começou a cair.

Não de forma dramática. Não uma queda em cascata com números vermelhos piscando como em filme de Hollywood. Foi um sangramento lento. Primeiro mil. Dois mil. Cinco mil. O algoritmo não perdoa quem não controla a narrativa. Quem não posta, quem não interage, quem não se adapta em tempo real. O algoritmo te abandona. Rápido. Sem aviso. Sem piedade.

Ao meio-dia e trinta, eu tinha perdido cento e sessenta mil seguidores.

Dezoito horas depois, eu tinha perdido mais duzentas e vinte mil.

O total não era apenas um número. Era o som de pessoas saindo. Saindo de uma vida inteira que eu construí para ser vista. E eu estava, literalmente, sendo vista. Só que não da forma que eu controlava.

Letícia chegou ao auditório às doze e quarenta. Não com planilha, não com relatórios, não com estratégias de contenção. Só com um celular na mão e uma expressão que eu não reconhecia.

"Você perdeu o dobro de seguidores esta manhã."

"Eu sei."

"Você vai perder o resto."

"Eu sei."

Letícia sentou. Não do lado de mim. Sentou no assento vazado da repórter que eu tinha ignorado no final da coletiva. Cruzou as pernas. Esperei que ela disses algo sobre o que perderíamos, sobre o que fazer, sobre o que a Veloso Group ia reclamar do nosso desempenho.

"Era a primeira vez", Letícia disse. "A primeira vez que você escolheu algo que não podia ser monetizado."

A frase ficou no ar. Eu a repiti mentalmente. A primeira vez. O que significava que todas as outras vezes eram o inverso. Todas as vezes antes eram monetizáveis. Toda escolha que eu fiz antes tinha um preço, um retorno, um cálculo de custo-benefício. E esta. Esta era a primeira escolha que não tinha nenhum desses elementos.

"Estou furiosa", Letícia disse. "O estúdio perde três contratos hoje. A agência de relações públicas que nos pagava por gestão de crise vai cancelar na próxima semana. O aluguel do espaço é o próximo mês. Nós temos sessenta e nove dias de caixa, e se mantivermos esse ritmo --"

"O que você quer dizer com esse ritmo?"

"Esse ritmo de quem está em processo de suicídio profissional."

Deu na mesma.


A queda dos contratos começou no final da manhã. Letícia enviou as mensagens. As respostas vieram em sequências diferentes. A L'Oréal Brasil cancelou às doze e quarenta e cinco. A Natura congelou. A O Boticário não respondeu. A Natura mandou uma nota institucional em vez de resposta. A O Boticário mandou nada.

Às duas da tarde, Letícia parou de enviar mensagens.

"Deixa de enviar", eu disse.

"E se eu continuar?"

"Não tem nenhum contrato pra vender."

Letícia me olhou. Não de julgamento. De avaliação. Como quem calcula o que resta para ser calculado. "O que você tem agora?"

"O que eu tinha antes de você me contratar."

"Você não tinha nada antes."

"Eu tinha o que eu tenho agora. Nada. Só que de forma honesta."

Letícia fez uma pausa. Deu tempo de perceber que a diferença entre as duas versões do "nada" é a diferença entre o fim de algo e o começo de algo.


Mariana mandou mensagem às três da tarde.

Não no WhatsApp. Não nos stories. Num e-mail. Formal. O que significava que Mariana estava escrevendo como quem está escrevendo pela primeira vez.

"Isabella, eu não vou publicar o material. Não por você. Por mim. Eu estou montando uma consultoria. De verdade. Não a mesma coisa que você fazia. As pessoas não querem saber como sair. Elas querem saber como ficar. Eu vou fazer esse trabalho. E eu não posso fazer esse trabalho se eu usar o mesmo instrumento que destrói. Então fica. Mas fica de verdade."

O e-mail tem onze linhas. A última linha é a mais longa. As duas primeiras são curtas. A terceira é a que me importa. "Não por você. Por mim."

Mariana está me devolvendo o que eu ensinei, mas de forma que eu nunca ensinei. E o mais engraçado é que, pela primeira vez, eu entendo por que é diferente.

Eu ensinei que o poder é a saída. A saída é o controle. A saída é o que te faz livre. Mariana ensinou, por não seguir minha escola, que o poder é o que te faz permanecer. E que permanecer de verdade não é o mesmo que permanecer por medo.


Hugo Vane não mandou mensagem. Mas à tarde, Letícia recebeu um aviso da imprensa: Hugo havia cancelado a reunião com a editora que ia publicar o meu livro.

A reunião era na próxima semana. Era o próximo contrato de R$ 1,2 milhão. O livro que ia confirmar minha relevância mesmo sem conteúdo patrocinado. Sem isso, o livro morre. Sem o livro, o livro morre. Sem o livro, Isabella Negrão continua sendo o que é. Sem relevância. Sem visibilidade. Sem poder.

Estrategicamente, o movimento de Hugo é impecável. Se eu estivesse jogando no nível dele, eu teria reestruturado toda a minha estratégia de relações públicas nas próximas seis horas. Teria ligado para a editora, teria falado com os advogados, teria preparado uma declaração de última hora que girasse a queda de seguidores em oportunidade de autenticação.

Não fiz nenhuma dessas coisas.

Hugo está esperando que eu faça. Que eu volte a jogar. Que eu tente reverter a queda. Que eu mostre que ainda estou no tabuleiro. E o silêncio é a minha resposta.


Bia ligou às quatro e dez da tarde.

"Eu não vou publicar o roteiro."

"Bia, não tem roteiro mais."

"Mesmo que tivesse. Eu não ia publicar."

"Bia, o estudo vai acabar."

"O estúdio vai acabar. Eu vou ficar."

"Por quê?"

Silêncio. Não o silêncio estratégico de Bia. Não o silêncio calculado. Um silêncio real, como quem está escolhendo palavras que ainda não encontrou.

"Porque eu vi você hoje. Eu vi você falar sem ler nada. E eu nunca tinha visto você fazer isso antes. E eu acho que eu gostaria de ver mais."

O pedido de Bia é o primeiro gesto no livro que não é motivado por interesse próprio. Ela não está dizendo que vai ficar por dinheiro. Não está dizendo que vai ficar por aprendizado profissional. Está dizendo que vai ficar por curiosidade. Por interesse genuíno. Pelo que acontece agora.

Letícia também ficou. Quando o telefone tocou e eu estava prestes a desligar, Bia disse "deixa eu atender". Era o advogado do estúdio querendo encerrar contratos. Letícia atendeu. "Não vamos encerrar nada hoje. Vamos esperar."

Esperar é diferente de agir. Esperar é o que se faz quando não existe mais nenhuma jogada. Não é a mesma coisa que desistir. Mas é o mais perto que dá de se sentir sem controle.


A noite chegou. O auditório esvaziou. As câmeras foram embalcadas. As mesas de imprensa foram desmontadas. O que restou foi o que restou.

Eu e Rodrigo ficamos. A imprensa já tinha ido. Letícia foi embora. Bia foi embora. O auditório estava vazio. As cadeiras estavam viradas. Os microfones, desligados.

Rodrigo não se mexeu. Eu não me mexi. Estávamos sentados lado a lado no mesmo palquinho onde, oito horas antes, havíamos dito ao mundo que éramos noivos. A diferença é que agora não havia câmeras. Não havia repórteres. Não havia nada além de duas pessoas que acabaram de destruir tudo o que tinham construído, e que não sabiam o que fazer agora.

"O que acontece agora?" eu disse.

"Eu não sei."

"A mesma coisa."

"É."

Ninguém disse "deixa a imprensa decidir". Ninguém disse "vamos esperar o próximo movimento". Ninguém disse "precisamos manter a imagem". Nenhuma palavra de estratégia.

"Eu perdi cento e oitenta mil seguidores hoje", eu disse.

"Eu percebi."

"O estúdio acabou."

"Sim."

"Meu contador vai ter que encerrar a empresa."

"Sim."

"Eu não tenho mais contrato com a Veloso Group."

"O contrato acaba amanhã."

"E a partir de amanhã, o que?"

Rodrigo olhou para frente. Para o auditório vazio. Para as cadeiras viradas. Para o palco.

"A partir de amanhã, eu não sei."

As palavras foram ditas em voz baixa. Não por recuo. Por precisão. Rodrigo não sabe. Ele, que controla tudo, que opera em silêncio, que construiu uma vida sem exposição, não sabe o que acontece amanhã. E isso é estranho. Para ele, não saber é o que é mais raro.

Para mim, é o que é mais comum.


Eu saí do auditório primeiro. Não por decisão. Por instinto. Algo me puxava para fora. Para fora do espaço montado, para fora do palco, para fora de tudo que era planejado.

Rodrigo me seguiu. Não falou. Não se apressou. Andou ao meu lado até a saída.

Na rua, o barulho de São Paulo. Carros, ônibus, pessoas andando. A cidade que não parou com a minha queda. A cidade que segue indiferente. Eu e Rodrigo andamos sem destino. Sem plano. Sem roteiro.

"Para de andar", eu disse.

Ele parou.

Eu parei.

Estávamos no meio de uma calçada. Não havia motivo para parar aqui. Não havia motivo para continuar. Havia apenas isso. Duas pessoas em pé, sem saber o que fazer.

"Eu não sei se é isso que eu quero", eu disse.

"E o que é isso?"

"Isso. Não saber. Não ter um próximo passo. Não ter um plano B. Não ter um plano C. Não ter nada."

"E se você não tem nada?"

"Então eu não tenho nada."

Rodrigo olhou para mim. Não como quem avalia. Não como quem calcula. Como quem está vendo algo que ainda não tem nome.

"Eu não tenho nada também", ele disse.

A frase é a primeira vez que ele diz "eu" de uma forma que não é estratégia. Não é uma declaração de poder. Não é uma afirmação de controle. É uma declaração de fato. Ele não tem nada. Assim como eu.


Voltamos para o apartamento dele. Não havia ninguém. Não havia ninguém. Não havia estúdio. Não havia equipe. Não havia mais 40 funcionários, não havia estúdio, não havia 17 pessoas, não havia Bia, não havia Letícia, não havia Sônia, não havia Sônia, não havia o auditório, não havia o museu.

Rodrigo sentou na poltrona. Eu sentei na outra. Não nos tocamos. Não precisávamos. A distância entre as duas poltronas era de dois metros. Era o espaço mais vazio que eu já tinha ocupado.

"O contrato de nove semanas termina amanhã", ele disse.

"Sim."

"E depois?"

"Depois?"

"Depois do contrato."

"Depois do contrato, eu não sei."

"Eu também não."

Mais silêncio. Desta vez não era vazio. Era o silêncio de quem está parado e não sabe para onde ir. Eu já vivi esse silêncio. No vigésimo primeiro dia, no apartamento dele, durante a queda de energia. A diferença é que hoje eu não estava presa. Estava parada por escolha.

"Acho que amanhã eu vou começar a procurar um escritório novo", eu disse.

"Onde?"

"Aonde o dinheiro chegar."

"Você ainda tem dinheiro?"

"O que sobrou. Não muito."

Ele não sorriu. Mas houve algo no rosto que foi diferente do que eu conhecia. Algo que não era cálculo. Algo que eu não tinha nome, ainda. Talvez empatia. Talvez reconhecimento. Talvez apenas a presença de outra pessoa que também não sabe o que vai acontecer amanhã.

"Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã", ele disse.

"É."

"E é tudo o que a gente tem."

Eu olhei para ele. Para o homem que eu destruí. Para o homem que me destruiu de volta. Para o homem que, ao menos, no final da coletiva, não me pediu que eu interpretasse nada.

"É tudo o que a gente tem", eu disse.

E não foi uma frase de roteiro. Não foi uma frase de estratégia. Não foi uma frase de marketing. Era apenas o que estava.

Comments (0)

No comments yet. Be the first to share your thoughts!

Sign In

Please sign in to continue.