Capítulo 2: O Nome Que Ele Não Deu

A consulta começa às dez horas da manhã. Leito, um consultório particular que alugo de hora em hora no mesmo prédio de consultórios médicos na Rua Pinheiros. O lugar tem móveis de madeira clara, uma estante com livros que nunca são abertos e uma janela que dá para um corredor escuro. É o tipo de lugar que faz você esquecer onde está, o que é conveniente quando você vai destruir a reputação de alguém sem dar o nome.

Letícia está sentada na sala de espera, como de praxe. Ela não participa da consulta. Faz o papel de quem está disponível para emergências e não aparece, a menos que seja necessário.

O homem chega pontualmente. O mesmo terno cinza, a mesma bolsa de couro marrom, o mesmo cheiro de almofada e couro. Ele senta na poltrona de couro bege e abre o caderno.

— Boa manhã — ele diz.

— Boa manhã. Antes de começar, eu preciso avisar que tudo o que for dito aqui é confidencial. A menos que haja risco de dano físico ou legal, nada sai desta sala.

Ele anota. Claro. Ele anota tudo.

— Eu comecei a ter dúvidas sobre o relacionamento com quatro meses. As dúvidas cresceram, não diminuíram. Eu quero saber por quê.

— De qual relacionamento você está falando?

— De um relacionamento profissional que virou pessoal. — Ele faz uma pausa. — Não vou entrar em detalhes específicos agora. Quero entender o padrão. A pessoa com quem estou envolvido tem certas características que me atraem de uma forma que eu não consigo explicar. E essas mesmas características me preocupam.

Isso é diferente. A maioria dos clientes vem com uma história linear: "Ele me mentiu", "Ela me traiu". Ele vem com uma confusão estrutural. Não sabe o que está sentindo. Sabe que não deveria estar sentindo, e ainda assim está.

— Me fale mais sobre essas características.

— Ele é discreto. Não tem presença digital. Não aparece em eventos. Não posta fotos. Não faz entrevistas. Ele vive num silêncio que, no meu caso, é atraente. Mas também é assustador. Como eu posso confiar em alguém que não existe publicamente?

Eu deixo o silêncio crescer. Dezoito segundos. Os olhos dele descem para o caderno. Ele não sabe o que anotar.

— Você disse que o relacionamento virou pessoal — eu repito. — O que significa que, inicialmente, era só profissional. Quando isso mudou?

— Não sei exatamente. Foi gradual. Ele fez algo que só quem está interessado faz. Não algo grande. Algo pequeno. Uma pequena atenção que, para quem não está interessado, não significa nada.

— E para quem está, significa tudo.

Ele sorri. É um sorriso fraco, contido, o sorriso de quem sabe que está sendo diagnosticado e não gosta.

— Exatamente.

Eu levo uns minutos anotando. Não no caderno, mas na minha cabeça. As mãos estão limpas, o corte de cabelo é natural, a ausência de logotipo é estratégica. Alguém que construiu uma vida longe do microscópio. Alguém que, por acaso ou por opção, não foi exposto ao mesmo tipo de escrutínio que a maioria das pessoas que ele conhece.

— Eu tenho uma pergunta — eu digo. — A pessoa que você está envolvido, ela é importante?

— Depende do que você considera importante.

— Para mim, importante é quem tem poder de influência. Quem afeta mercados, quem move dinheiro, quem constrói algo que outras pessoas precisam.

Ele não responde de imediato. O silêncio se estende. Eu observo a maneira como ele se comporta: a postura, o jeito de segurar a caneta, o olhar que vai da janela para o caderno e de volta para mim, três vezes, sempre no mesmo ritmo. Alguém que se comunica por padrão. Que segue rotinas. Que tem controle sobre o que não tem controle.

— Você não precisa me dizer o nome — eu digo. — Mas me diga: você trabalha com ele ou ao redor dele?

— Eu trabalho com ele.

— De que forma?

— Em várias. — Ele suspira. — Isso é o suficiente?

— Não. Mas é o suficiente para eu fazer uma hipótese.

Ele me olha fixamente. Eu sei que está escorregando. Mas é tarde demais para parar. A curiosidade profissional é um vício e ele não tem remédio.

— Você está envolvido com um homem que é o CEO de uma empresa grande. Não uma empresa que você consegue ouvir no seu carro. Uma empresa que você precisa de um site e de um corretor de valores para encontrar. — Eu paro. — Ele não tem perfil no Rede. Não tem LinkedIn. Não tem nada. Isso é raro para um CEO de empresa grande. Significa que ele não quer ser encontrado. Ou que ele já foi encontrado e decidiu se esconder.

Ele fecha o caderno.

— Eu não pedi para você adivinhar quem eu sou.

— Você não pediu. Mas eu sou paga para adivinhar.

Ele se levanta da poltrona. A conversa terminou.

— Gostaria que a consulta fosse completa — eu digo. — Eu preciso de mais informações. Se quiser marcar uma segunda sessão, o número é da Letícia.

Ele não responde. Sai do consultório. A porta se fecha.

Fico sozinha. Sinto o cheiro de almofada e couro se dissipando no ar condicionado. Abro a janela. O corredor escuro não melhora, mas o ar entra e sai.

Dezoito minutos. Eu gastei dezoito minutos num consultório de consultórios médicos fazendo diagnóstico e adivinhação, e não sei se foi uma sessão ou uma performance. Mas sei o seguinte: eu acertei em tudo. Ou quase tudo.

Voltar ao estúdio demora quinze minutos. O trânsito está lento. Alguém está fazendo protesto na Marginal e todos os carros desviam para a Rua Pinheiros. Eu viro por uma rua lateral e acabo num beco que não existe no meu mapa mental. O GPS não me reconhece. É engraçado. São Paulo é uma cidade de cem milhões de habitantes e o GPS ainda não sabe me encontrar.

Deixo o carro e subo as escadas do estúdio. Letícia está na recepção, com duas canecas de café e uma planilha no tablet.

— Foi bem? — pergunta.

— Foi. O homem tem um padrão. Ele é de quem já foi exposto e escolheu não mais se expor. Isso é uma defesa. Ele está usando isso como vantagem. E o padrão, para quem é vulnerável, é o mesmo que atrai.

Letícia anota algo no tablet.

— Você não vai fazer isso num vídeo? — ela pergunta.

— Não. Isso é confidencial.

— Você sabe que é a mesma coisa.

— Não é a mesma coisa. Num vídeo eu não daria o nome. Num vídeo eu não daria nenhum dado que permitisse a identificação.

Ela me olha. O olhar dela diz o que eu já sei: que não é a mesma coisa, mas é a mesma coisa.

— A reunião com os três clientes é às onze — eu digo. — Eu preciso preparar o pitch.

Ela vai embora. Eu sento na minha cadeira, abro o notebook e começo a escrever. O pitch do suplemento pede uma frase de impacto, uma estrutura de vídeo, e a promise central que vai converter os três. Eu escrevo trinta e duas linhas. Duas delas são úteis. Eu apago as trinta. E começo de novo.

Às onze, estou na sala de reunião com os três potenciais clientes. Dois são de São Paulo, um é de Porto Alegre e participa por videoconferência. O cliente de Porto Alegre tem a câmera desligada e só aparece a voz. Todos os três são interessados reais. Eles sabem quem eu sou. Sabem o que eu vendo. E estão dispostos a pagar por isso.

O cliente de meditação me oferece o melhor deal. Três vídeos ao mês, duas lives, menção em stories. O pagamento é por performance, mas o valor base já cobre o aluguel do estúdio e os salários dos funcionários.

— Eu fecho — eu digo.

O cliente de farmácia fecha também. O de suplemento pede mais tempo. Eu não me importo. Dois contratos já são melhor do que o que eu tinha ontem.

Às duas da tarde, letícia me liga. Ela disse que ia para o almoço. Em vez de almoço, ela está em três ligações consecutivas com gerentes de relacionamento de marcas que patrocinavam o estúdio.

— Dois deles congelaram — ela me diz. — A rede de farmácia ainda não respondeu. O de suplemento também.

— Por que congelaram?

— Eles não sabem. O gerente de farmácia disse que recebeu um aviso de que "o contrato está sob revisão contratual por questões de imagem". O de suplemento não atendeu. Deixei recado.

Isso é novo. Não foi eu que toquei. Não foi o estúdio. Alguém de fora, algum ator que ainda não sei, entrou e fez o primeiro movimento. E a reação é padrão: congelar contratos sem explicar o motivo, esperar que a tempestade passe.

Às quatro, vou ao consultório mais uma vez. O homem já está lá. A mesma poltrona, o mesmo caderno, o mesmo cheiro.

— Hoje eu vou dizer o nome — ele diz antes de eu abrir a boca.

— O que?

— Eu vou dizer o nome. Se você quer adivinhar quem eu sou, pelo menos eu vou facilitar. É Rodrigo Veloso.

O nome cai como uma pedra num lago. Não faz barulho. Mas as ondas se espalham.

Rodrigo Veloso. CEO da Veloso Group. Fundador e diretor de uma das maiores marcas de moda do Brasil. Ele não aparece nas redes. Ele nunca apareceu. E agora, sentada numa poltrona de consultório médico, eu ouço o nome que eu já tinha adivinhado sem querer.

— Eu sabia — eu digo.

— Você adivinhou.

— É a mesma coisa.

Ele me olha. O olhar é estranho. Não é raiva. Não é surpresa. É o olhar de quem está sendo lido por alguém que nunca deveria ter lido.

— Eu não vim aqui para me destruir — ele diz. — Eu vim aqui para entender.

— Então entenda. O que você tem não é um problema. É uma escolha. E a escolha é a parte mais perigosa.

— O que você quer dizer com isso?

— Querer entender é a escolha mais perigosa que existe. É quando você decide que a confusão é interessante o suficiente para merecer atenção. O que está errado em você não é a pessoa que você escolheu. É a vontade de ficar.

Ele anota. Eu vi. Ele anota cada palavra como se fosse uma receita. Cada frase é um ingrediente. Ele está construindo algo. Não uma defesa. Um diagnóstico. Ou o oposto. Não sei.

Ele sai. A consulta acabou. E eu fico com o silêncio do consultório e a sensação de ter acabado de fazer uma coisa que não deveria ter sido feita.

Mas é mais tarde. A tempestade começa às seis e meia.

É uma tempestade típica de verão em São Paulo. O céu escurece sem aviso, e em dez minutos a rua já está alagada. As lâmpadas do estúdio piscam. O ar-condicionado desliga. O calor entra como se a janela estivesse aberta, mesmo que esteja fechada.

Estou editando os vídeos para os stories quando o celular vibra. Uma notificação. Depois outra. Depois mais duas. São os mesmos, mas de origens diferentes.

A primeira notificação é de uma advogada. "Srta. Negrão, entre em contato com o escritório assim que possível. Urgente."

A segunda é de um dos patrocinadores. "Pedimos que suspenda a gravação dos dois vídeos agendados para esta semana. Não temos mais detalhes, mas recebemos instruções diretas."

A terceira notificação é do banco. "Débito de R$ 47.800,00. Saldo atual: R$ 12.450,00."

O estúdio está quase vazio. Dezoito funcionários já foram embora. Letícia não respondeu às três mensagens que mandei às sete.

Às oito, a porta do escritório se abre. Não é Letícia. É Hugo Vane. Ele está de terno, sem gravata, com uma pasta de couro marrom idêntica à do cliente anônimo. Quase a mesma marca. Quase o mesmo tamanho.

— Você não deveria estar aqui — eu digo.

— Eu sei. Mas não posso deixar você dormir com essa informação.

Ele senta na cadeira que eu não uso, a que é dos estagiários. Deixa a pasta sobre a mesa. Não abre.

— Rodrigo Veloso te processou por difamação. O processo foiProtocolo, hoje de manhã. As horas seguintes à consulta foram suficientes para que ele preparasse tudo. A equipe jurídica dele trabalha rápido. Muito rápido.

— O que exatamente?

— O vídeo de hoje. Eles argumentam que, ao identificar padrões que fazem referência inconfundível a uma pessoa específica e pública, você violou sigilo profissional e causou dano moral. Não é o primeiro. Mas é o mais caro.

— Eu não dei o nome.

— Você não precisou. O vídeo inteiro foi construído em torno de um perfil que só um CEO de uma marca de moda poderia ter. O silêncio público, as mãos cuidadas, a bolsa de couro marrom. Ninguém precisa de nome. A audiência decifra. E a audiência decifrou.

Ele fala como quem lê um relatório. Sem emoção. Sem juízo. Apenas informação. A informação que ele tem, que é tudo que ele tem.

— E os contratos?

— Todos. O de meditação, o de farmácia, o de suplemento. Todos suspensos. A rede de farmácia já cancelou o agendamento. O de suplemento está em "revisão". O de meditação é o que mais assusta. Você sabia que o fundo de mediação é da família Veloso?

Não sabia. Mas faz sentido. Rodrigo não se expõe. Mas tem dinheiro. E dinheiro tem dono. E os donos têm nomes.

— Tudo em setenta e duas horas.

— Setenta e duas horas. Esse é o prazo.

— O que você está fazendo aqui, Hugo?

Ele me olha. A expressão é a mesma de sempre: controle absoluto. Um homem que não perde o controle nunca.

— Eu vi o vídeo. — Ele pausa. — Eu vi o vídeo e pensei: é a primeira vez que você erra de verdade. Não é um erro que se conserta com um vídeo. É um erro que se conserta com um erro de cálculo.

— Você calculou isso?

— Eu não calculei. Eu apenas não impedi. Mas agora que você me pergunta, eu também não fiz nada para impedir.

A frase cai no silêncio do escritório que não está mais funcionando, com o ar-condicionado desligado, com o calor do verão entrando pelas janelas e as luzes piscando. O celular em minha mão mostra a bateria em 7%.

— O que mais você sabe? — eu pergunto.

— Que em quatro dias você terá zero clientes. Que seu estúdio está em débito de R$ 47.800,00. Que Letícia está tentando ligar para seis empresas e nenhuma atende. Que Bia está no escritório, sozinha, esperando instruções que ela não sabe que pedir. Que você tem 2,3 milhões de seguidores e nenhuma marca quer mais aparecer ao lado de você.

A bateria cai para 6%.

— Por que você está me contando isso? — eu pergunto.

— Porque eu sei que você vai ler tudo sozinho em casa. E eu prefiro que seja em minha mesa, com o calor entrando pelas janelas e o ar-condicionado desligado, do que na sua cama, com a bateria morrendo e as notificações chegando uma atrás da outra.

Ele se levanta. Sobe a escada do estúdio e sai pelo portão dos fundos. Não olha para trás. Não precisa olhar.

Fico sentada. A bateria cai para 5%. As notificações continuam chegando. Uma após a outra. Uma marca cancela. Um cliente retira. Um jornalista liga sem atender. O banco informa uma nova transação. Alguém no estúdio, um estagiário, me manda uma mensagem no WhatsApp: "Isa, o que está acontecendo? Estou aqui sozinha."

A bateria cai para 4%. Eu leio a mensagem. Não respondo. A tela escurece.

3%. 2%. 1%.

O celular apaga. A última notificação que aparece antes da tela ficar preta é do aplicativo de mensagens: "Hugo Vane enviou uma mensagem". A tela escurece. E o celular morre.

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