Capítulo 17: O Túnel
Pilar não dormiu. Fiquei sabendo por uma mensagem dela às três da manhã: "Ele tá ali de novo."
O "ali" era o túnel. O mesmo lugar onde Lulu tinha sido vista no capítulo anterior. Eu já tava ciente de que Hugo e Lulu andavam por aquele corredor subterrâneo que conectava o Mont Blanc à Escola Riva, mas "ali de novo" significava que o repetente estava repetindo o padrão. E um padrão repetido três vezes não era coincidência.
Fiz o caminho no escuro. Os túneis do Mont Blanc não tinham iluminação por uma razão que ninguém me explicava direito. O manual dizia "manutenção elétrica pendente". Mas o que eu via era um lugar que não queria ser visto. Paredes de concreto úmido, chão de terra batida, o cheiro de água parada que vinha de alguma fenda na fundação. Eu ia a pé desde a porta do subsolo, que não tinha trancar, até o trecho que se abria em baixo da ala leste do prédio principal.
Do lado de lá, Lulu estava sentada contra a parede.
Ela não ia ao encontro de ninguém. Estava esperando que alguém viesse buscar, como quem sabe que precisa ser encontrada. Tinha a mochila dela, a mesma grande demais que Zeca tinha notado, mas agora ela não tentava esconder. A mochila ficava aberta ao lado dela. O zíper desfechado. Nada lá dentro se importava mais com disfarce.
"Fui atrás de você," eu disse. "O que aconteceu?"
Lulu me olhou como quem vê alguém que chegou tarde demais. "Ele me pegou. Lá embaixo. Na curva."
"Hugo."
"O mesmo. Ele não tava no teleférico hoje. Não tava em nenhuma aula. Quando eu passei pelo túnel depois do jantar, ele tava no meio do caminho. Não disse nada. Só me bloqueou. Ficou parado."
"E o que você fez?"
"Não fiz nada. Fui embora. Mas ele me alcançou."
Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, o que viu era diferente. "Ele me disse o que. Disseram que minha missão me diz. Que eu sou um risco de contenção. Eu não sei o que isso significa. Eu tava tremendo e ele tava parado como uma parede."
"Fiquei quieta."
Ele disse que se eu continuasse indo por ali, ia ter um problema. Aconteceu. Um problema. Não específico. O tipo de ameaça que funciona pelo que não é dito.
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Eu a peguei no túnel e disse pra ela ir. Não para o túnel de volta. Para o subsolo.
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Não.
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Ela me seguiu. Caminhamos em silêncio por trinta metros de túnel, com as paredes molhadas pingando em intervalos regulares, como o lugar inteiro tivesse pulmão. Lulu ia na minha frente. A mochila grande arrastava no chão e fazia um barulho que soava como respiração.
No subsolo, o ar era o mesmo. O mesmo concreto descascando. O mesmo silêncio que todo mundo fingia não ouvir. Pilar me esperava do lado de fora do meu quarto. Não do lado de dentro. Do lado de fora. Como quem sabe que o que viria a seguir exigia testemunha.
"Ela tá aqui," eu disse.
Pilar entendeu antes que eu terminasse. Não perguntou nada. Sinalizou pra Lulu entrar. Eu entrei por último e fechei a porta. Não travei. Trancar portados abertas no subsolo era o mesmo que pedir pra ser encontrado.
Lulu sentou na minha cama. As mãos tremiam. Ela tava pálida. Não do frio. Do medo. Não o medo de apanhar. O medo de não saber o que realmente a ameaçava. "Eu não posso voltar pra casa," ela disse. "Eu não posso ir ao dormitório. Eu não sei onde ele tá. Ele não tá no teleférico hoje. Ele não tá em nada. Ele só tá aqui."
"Dormi aqui," eu disse. "Vou te dar a cama. Durma."
Ela não dormiu. Eu não dormi. Ficarão sentados lado a lado no escuro, ouvindo o vento dos Alpes bater contra as paredes do subsolo.
Pilar apareceu às seis da manhã, com um café que não existia no subsolo. "Onde você arranhou isso?" eu perguntei. "Eu não tenho acesso a café antes das sete."
"O café não é o problema. O problema é o que você tá fazendo com Lulu escondida no seu quarto às seis da manhã."
Falei tudo. Cada detalhe. Do túnel à ameaça de Hugo. De óculos escuros no interior a jargões de segurança. Pilar não interrompeu. Escutou como quem escuta uma lista de suspeitas de crime. Ou de segurança nacional. Ou de ambas.
"Pilar olhou para mim. "Esse não é um aluno."
"A gente já sabia disso."
"Não. Você já suspeitava. Eu já vi. A diferença é que eu já vi, e agora é confirmado. Ninguém repete 'protocolo de contenção' e 'alvo primário' a não ser quem recebe treinamento. Isso não é adolescente. Isso é algo pior."
Lulu escutava tudo de pé, encostada na parede. "Ele me disse que tinha alguém pra proteger," ela falou. "Um alvo. Alguém que pode estar sendo usada contra a Colina."
"Quem é a filha?"
Lulu não sabia. Nem eu. Nem Pilar. Mas a informação era real. Hugo era agente de segurança e sua missão incluía proteger alguém cujos inimigos poderiam estar aqui, no Mont Blanc. Ou na Escola Riva.
"Ele disse que minha presença no túnel era uma variável não controlada. Que eu tava alterando o protocolo."
"Protocolo." Pilar repetiu a palavra como quem prova veneno. "Esse não é o português de adolescente que eu conheço."
O vestiário das sete da manhã já estava cheio quando chegamos. A maioria dos alunos dos Níveis 1 e 2 iam direto pra sala de jantar. Os Níveis 3 e 4 iam pro gramado. Os Kings iam pro vestiário antes de qualquer treino.
Vicente não foi pro gramado. Ficou no vestiário. De pé no meio do chão de madeira, com a bola debaixo do braço, o uniforme já vestindo e os cabelos loiros alheios a qualquer tipo de gravidade. Tomás, Gael, Hugo e Stael estavam ao redor. Eu esperava que Hugo me visse e fizesse algo. Não fez. Ficou parado, óculos escuros no rosto, imóvel como quem vigia.
Vicente me viu.
"Ei, Carvalho." A voz não era alta. Era suficiente. Todo mundo no vestiário parou o que estava fazendo. "Você andou falando besteira sobre a planilha da Sol."
Isso não era sobre a planilha. A planilha era pretexto.
"Não falei nada," eu disse.
"Falou. Ou alguém falou por você. O resultado é o mesmo. E eu tô aqui pra deixar claro." Ele olhou ao redor. Para Tomás. Para Gael. Para Hugo. Para Stael. Para mim. "Meu pai não precisa de ninguém. Entendeu? Ele não precisa de você, não precisa do Mont Blanc, não precisa de Sturm. O que esse garoto faz aqui é um empréstimo. Dele. Da escola. De vocês. E empréstimo se devolve."
Ninguém se moveu. O vestiário inteiro, uns quinze jogadores, ficaram parados. O som das torneiras pingando era o único ruído. Vicente continuou. "Ele joga hoje à noite. Se ganhar, bom. Se perder, a devolução acontece. E eu não tô falando de bola, Carvalho. Tô falando de tudo. Do que você é aqui. E do que você vai deixar de ser se continuar achando que tem direito a alguma coisa."
"Hugo." Vicente virou. "Você tá aí."
O repetente de óculos escuros não se moveu. Não respondeu. Ficou ali, parado no canto do vestiário como um poste. Como uma câmera. Como quem não é pra ser visto.
Eu disse: "Meu pai não precisa de ninguém também. E eu não sou empréstimo de ninguém."
Vicente me olhou. O sorriso era largo. "Aí é que tá. O problema é que seu pai precisa de mim."
A frase foi um tiro. Não porque doesse. Porque era verdadeira de um jeito que só quem já viu a planilha de Sol entendia. Cinco famílias apostando que o Mont Blanc ia perder. O contrato do D'Angelo no topo de tudo. Meu pai e o pai de Vicente na mesma mesa. Tudo aquilo, tudo o que eu via na planilha e no reflection no escritório de Sturm, vinha pra cá. Para este momento. Para esta palavra: "empréstimo."
Ninguém se moveu. O vestiário inteiro ficou imóvel. Tomás olhava pro chão. Gael, pros sapatos. Stael, pra parede. Hugo, pra mim.
Vicente pegou a bola e foi pro gramado. O vestiário se dissolveu depois dele. Cada um foi por seu caminho, como água que volta a correr após uma represa ser aberta.
No gramado, o treino começou às oito. A bola passava por mim e não chegava. Vicente e os veteranos mantinham o mesmo sistema de exclusão que o Tomás tinha descrito: nenhum passe para o "excluído". Eu corria. Recebia ou não recebia. A diferença era só o resultado final.
Mas algo tinha mudado. A conversa no vestiário tinha aberto algo. Não era raiva. Era mais perto de clareza. Eu sabia o que Vicente estava dizendo. E o que ele não disse era que eu já sabia. O pai de Vicente e o meu estavam sentados juntos. A planilha de Sol provava isso. A reunião no escritório de Sturm, que eu vi pelo reflexo, confirmava. Tudo já sabia. A única diferença entre o que Vicente falava e o que eu entendia era que ele achava que me estava humilhando e eu achava que só estava declarando o óbvio.
O treino seguiu. Os drones filmavam. A bola ia de um lado pro outro. O placar nunca aparecia. O treino tinha que parecer real mesmo quando era teatro. Eu sabia. Vicente sabia. Os veteranos sabiam. Até o gramado sabia, talvez.
Às dez, Sturm apareceu. Não no gramado. Na arquibancada de vidro, visível por cima de tudo. Ele observava sem se mexer. Sem falar. Sem registrar nada no tablet. Só olhava. A postura era a mesma de quem já sabia o resultado do jogo três dias antes.
Ao meio-dia, no refeitório, Lulu não veio. Nem eu me surpreendi. "Ela tá no subsolo," eu disse a Sol, que tinha se sentado do meu lado na mesa dos Nível 3.
Sol levantou a sobrancelha. "Desde quando você guarda reféns no subsolo?"
"Não é refém. É proteção. Hugo a ameaçou no túnel. Ele não é quem diz que é. Ele tá num protocolo. Protegendo alguém. E Lulu é variável nesse protocolo."
Sol anotou algo no tablet. "Hugo Castellani. 19 anos. Repetente de propósito. Óculos escuros que ele nunca tira. Fala como soldado. E agora ele tá ameaçando Lulu no túnel. Sol anotou mais. "Isso precisa ser investigado."
"Já tá. Pilar também sabe."
"Quanto tempo você planeja manter ela lá?"
"Até eu saber o que Hugo tá protegendo. E pra quem."
Sol fechou o tablet. "Você tá arriscando muito por uma garota que você mal conhece."
"Não é isso."
"O que é."
"É que se Hugo está ameaçando Lulu por estar num lugar onde não deveria estar, isso significa que Lulu tem informação. E informação é perigosa. E quem tem informação perigosa precisa de proteção. E eu, por acaso, tenho uma porta sem trancas."
Sol não disse nada. Apoiou o queixo na mão e me olhou. "Você sabe que Vicente te humilhou hoje. Todo mundo viu. E você não reagiu."
"Reagir era o que ele queria. Ele queria que eu perdesse o controle. Que eu ficasse bravo. Que eu fizesse o que os veteranos esperavam que eu fizesse: me sentisse humilhado e reagisse de forma boba. A melhor resposta pra humilhação pública é não dar a eles o que esperam."
Sol riu. Não de graça. "Você é doente."
"Talvez."
"Ou talvez seja estratégia. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo."
A tarde foi lenta. Aula de Ética Aplicada com Sturm. Sturm não ensinou nada. Sentou-se na cadeira do fundo, como sempre fazia. Deixou o silêncio falar. Deu pra gente ler no silêncio: ele sabia que a planilha de Sol existia. Talvez a planilha de Sol existisse por causa de Sturm. Ele sabia que Hugo estava ameaçando Lulu. Isso era óbvio pra quem prestava atenção. Ele sabia que Vicente havia humilhado Bento publicamente. E eu também.
Quando a aula acabou, ele me olhou. Só eu. Não disse nada. Ajeitou o relógio no pulso. O mesmo relógio que custava mais que o carro de todo pessoal de limpeza. O gesto era calibrado. Ele queria que eu visse.
À noite, já no subsolo, eu tava deitado na cama quando ouvi passos no corredor. Não eram os passos pesados de Pilar ou de Sol. Eram mais leves. Uma silhueta apareceu na porta. Valentina.
O coração apertou. Não de susto. De reconhecimento. Ela tava parada na soleira, sem o sorriso venenoso de costume, sem o calculamento dos olhos verdes. Só a mulher. A mesma que eu tinha visto no gramado nevado, no palacete, na Festa de Máscara. A mesma que não me perdoava.
"Ela está aqui?"
"Ela?"
"Minha amiga. A que desapareceu. A que eu procurei. A que ninguém vê há semanas."
"Lulu."
Valentina assentiu. "Você sabe onde ela tá."
"Eu sei."
"Leva-me."
Eu me levantei. Lulu tava na cama, sentada, com a mochila no chão. Ela olhou pra Valentina e o que eu vi foi um alívio que não era fingimento. Lulu não fingia nada. Era a única pessoa no Mont Blanc que eu tinha certeza disso.
"Valentina," Lulu disse. "Eu tava..."
"Eu sei. Eu sei o que Hugo fez. Pilar me mandou mensagem. Eu sei que ele é perigoso." Valentina sentou do outro lado da cama. "Eu não sou mais a Rainha da Colina. Mas eu sei coisas. Se Hugo tá aqui por alguma missão, ele precisa de uma razão pra estar aqui. E eu sei onde achar essa razão."
Lulu apertou as mãos. "O quê você sabe?"
"Eu sei que Hugo não tá aqui por mim. Ele tá aqui por outra pessoa. Por alguém que ele tá protegendo. E essa pessoa tá sendo usada contra a Colina. Isso eu ouvi dele. Eu não entendi tudo. Mas entendi o suficiente."
Valentina fez uma pausa. "Se ele tá protegendo alguém, então ele não pode agir à vontade. Ele tem regras. Ele tem protocolo. E protocolo é como planilha. Se você achar a planilha, você acha as regras. E se você acha as regras, você encontra o ponto fraco."
Lulu olhava pra Valentina com uma mistura de gratidão e medo. "O que você vai fazer?"
"Vou fazer o que eu sempre fiz. Vou usar o que eu sei. O Oráculo pode ter sumido. Mas o que eu sei não sumiu. E o que eu sei sobre Hugo Castellani é que ele é um funcionário de segurança que inventou uma vida aqui e que ele tá mais perdido do que você."
Lulu riu. Não muito. Um riso curto. "Eu não sabia que você ia ser tão útil sem o Oráculo."
"E você não sabia que eu ia precisar de alguém pra me proteger sem que ninguém me protegesse. Agora a conta tá equilibrada."
Eu fui pro gramado às onze. O frio dos Alpes entrava pelos buracos da cerca e cortava a pele. Mas eu não ia ao gramado pra sentir o frio. Iam ao gramado pra pensar. E a noite era a única hora que ninguém vinha. Nem Vicente. Nem os veteranos. Nem Sturm, que dormia no palacete.
Eu me sentei na grama gelada. A bola debaixo do braço. O mesmo gesto de sempre, mas agora com um peso diferente. Vicente tinha me humilhado no vestiário e eu não tinha reagido. Mas a humilhação não tinha sumido. Ela tava lá. Guardada. Como quem guarda uma carta que vai ler de novo.
O que me perturbava não era a humilhação. Era a verdade por trás dela. "Meu pai não precisa de ninguém." Essa frase tinha sido um escudo. Mas escudo de quê? De quê Vicente tava protegendo o pai dele? De quê meu pai precisava dele? Da planilha? Do contrato? Da mesma mesa que eu vi pelo reflexo no escritório de Sturm?
Tudo isso tava ligado. Eu sabia. E o que eu não sabia era o que tava no ponto mais fundo dessa corrente.
Algo me chamou. Não o gramado nevado de antes. Algo mais específico. Algo que eu tinha sentido antes, mas que agora era mais forte. O túnel. O mesmo túnel onde Hugo havia ameaçado Lulu. Eu me levantei e caminhei até a entrada. A porta de concreto, sempre entreaberta, como o subsolo.
De dentro, o túnel respirava um ar mais quente que o de fora. Não tinha luz. Mas eu conhecia o caminho. Trinta metros de escuro até a curva onde Lulu tinha sido interceptada. Eu sabia. Eu ia até lá. E no meio do caminho, eu ia encontrar o que não queria.
Um barulho. Passos. Alguém caminhando do outro lado do túnel.
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