Capítulo 12: O Que se Joga

A noite anterior não deixava rastro. A neve cobria tudo em minutos. Mas o reflexo na janela do palacete permanecia. Meus olhos não apagam o que viram. Minha mente também não.

Dois homens de um lado da mesma mesa. Meu pai com os cotovelos apoiados. O pai de Vicente com as mãos no colo. Sturm no meio, ou não, porque o escritório era dele e ele estava presente como quem está presente sem estar presente. O homem que organiza a mesa para os outros.

Passei o resto da noite sem dormir. Não no subsolo. No gramado atrás do dormitório, onde a neve parava no joelho e o frio cortava o lado direito do rosto. Deitei na neve. Olhei para o céu. As estrelas eram as mesmas que eu via no Rio. Mesmas estrelas. Mesma altitude. Só que lá elas pertenciam a todo mundo.

De manhã, cheguei ao campo com duas horas de atraso. Vicente não disse nada. Não precisou. A ausência de comentário dele era um comentário. E eu já sabia a lição: o silêncio de Vicente significa que ele está decidindo algo. O silêncio de Vicente nunca é neutro.


O campo de treino tinha os três drones sobrevoando. O gramado aquecido exalava o cheiro de grama nova que eu já conhecia. Mas algo era diferente hoje. Ou melhor: alguém era diferente.

Pilar não estava no banco. Zeca estava sentado sozinho, com o açaí que só ele carregava. Maitê não corria nos aquecimentos. Gael estava na arquibancada, de fone, como sempre. Mas Sol, que sempre estava com o tablet, estava sentada no banco de reserva, de mãos vazias.

"Onde é a Sol?" perguntei.

"Com a Antônia", disse Zeca. "Semana toda. A Sol opera o algoritmo de apostas, mas a Antônia quer o conteúdo. Elas fizeram uma trocação. Sol dá odds em tempo real. Antônia dá o que gera as odds."

Entendi. A aliança era lógica. Antônia precisava de dados para alimentar o novo Oráculo. Sol precisava de conteúdo para manter as apostas vivas. Juntas, eram mais perigosas que Valentina quando Valentina tinha tudo.

O treino começou. Tomás trouxe o plano. Um 4-3-3 com pressão alta no meio-campo. O plano era bonito. Bonito de papel. O problema é que o plano não considerava uma coisa: o time tinha se dividido.

Não em palavras. Em gestos. Quando Tomás passou a bola para Vicente, Vicente controlou e voltou pro fundo. Quando passou para mim, eu desarmava e avançava. Três passes meus viraram quatro. Três dribles de Vicente viraram perda de bola. Os novos do time, os que tinham entrado no semestre passado, olhavam pra mim. Não com obediência. Com identificação.

Tomás parou o treino. Achei que fosse uma lesão. Não era.

"Preciso falar com todos", disse. Não era um pedido. Era o aviso de quem vê o campo se rearranjar.

Todos se sentaram. Até Vicente. Vicente sempre sentava quando Tomás falava. Não por respeito. Por calculo. Ele sabia que Tomás era o cérebro e que, sem o cérebro, o corpo não funciona.

"O sistema táctico de hoje", Tomás começou, "não funciona mais. Eu vi os treinos. O time se dividiu."

Silêncio. Os dois lados se olharam. Os veteranos viraram para Vicente. Os novos viraram para mim. Nenhum movimento. Nenhuma palavra.

"O 4-3-3 é morto", continuou Tomás. "Vicente joga por si. O resto joga por si. A interligação entre os dois lados desapareceu. O problema não é tático. É de lealdade."

Lealdade era a palavra errada. O problema não era lealdade. Era sobrevivência. Cada grupo protegia o seu. E o meu grupo era maior do que o de Vicente. Três novos. Pilar, que sempre votava contra a hierarquia. Zeca, que só queria passar. Gael, que não jogava mas não jogava contra ninguém.

Vicente foi o primeiro a falar. "Proposta: amistoso interno. Hoje. Aquele campo de trás, o de terra batida. Sem drones. Sem observadores. Sem Sturm. Ganhador escolhe o sistema."

Proposta de duelo. A mais antiga forma de resolver divergências num clube de futebol. Os antigos treinadores de Europa do Leste faziam isso nos anos noventa. "Quem é melhor joga como manda o melhor."

"Eu aceito", eu disse.

A resposta veio antes do pensamento. Eu sabia que Vicente não ia recuar. Eu sabia que um duelo me daria poder no vestiário. Mas também sabia que um duelo me daria um inimigo declarado. E inimigos declarados são mais fáceis de defender do que inimigos disfarçados.

Tomás não opinou. Ele sabia que o campo resolve o que a sala não resolve. Tomás era xadrez. Campo era futebol. E futebol não tinha empate.


O campo de terra batida ficava no limite sul da propriedade. Não era o campo oficial. Era o campo dos treinos extras, aquele que Sturm só abria quando precisava de privacidade. Sem drones. Sem câmeras. Sem público. Só o gramado e a montanha por trás.

Vicente escolheu o horário. Três horas da tarde. A neve estava derretendo nos cantos do campo. O gramado tinha buracos. Buracos de verdade. Não aqueles que a equipe de manutenção preenchia com areia importada. Buracos feitos por pedras e inverno.

Vicente chegou primeiro. Sem uniforme. Com uma camisa comum, das que ele vestia fora do campo. A camisa não era cara. Era o tipo de camisa que um garoto normal vestiria. Ele tinha trocado o uniforme por propósito.

Eu cheguei com o uniforme. Vicente não. A primeira lição.

"Você quer que eu jogue com o uniforme", eu disse.

"Eu quero que você jogue."

A bola era uma bola comum. Não aquela que usávamos nos treinos, a Mitae de alta pressão com válvula de borracha. Era uma bola barata, das que a equipe de manutenção usava nos campos secundários. Bola que pesa um pouco mais e não voa tão longe.

Vicente não convocou os outros. Eu também não. Fomos dois contra dois. Ele, eu, Pilar e Zeca como laterais. Pilar não era lateral. Zeca era goleiro, mas no campo de terra ele era tudo. Goleiro, lateral, atacante. Ele jogava onde não doía.

O jogo começou. Vicente tocou primeiro. Um toque seco pra frente. Eu desarmei. Pilar cobriu o espaço. Zeca saiu pra ajudar. Vicente recuou. E o jogo virou.

Não era um amistoso. Era uma declaração. Vicente queria mostrar quem mandava no campo. Eu queria mostrar o mesmo. Mas o campo não quer declarações. O campo quer resultado.

Vicente errou o primeiro passe. Eu cobrei a falta e marquei. Zeca não pôde fazer nada. O gol foi de calcanhar. Zeca sorriu. Ele não ia deixar Vicente ganhar fácil.

No segundo lance, Vicente tentou um drible. Errado. Eu roubei a bola. Toque pra Pilar. Pilar cruzou pros fundos. Zeca, que não ia se conter, cortou de cabeça. 2 a 0.

Vicente não ficou bravo. Ficou em silêncio. Mas não o silêncio de quem está furioso. Era o silêncio de quem está calculando. Eu conhecia esse silêncio. Eu o usava antes de cobrar pênaltis.

"Meu turno", disse Vicente.

Ele pegou a bola. Caminhou até o meio-campo. Tocou pros pés de Vicente. E ali, no buraco que o gramado fazia no centro do campo, Vicente rodou. Giro completo. De um goleiro de futebol que não existia. Eu estava atrás de Vicente e não senti o drible. Senti o toque. A bola mudou de direção como se tivesse um motor. Vicente passou. Cruzou. Pilar, que não conseguia se recuperar, foi atingida.

3 a 1.

O segundo gol de Vicente foi o que me fez parar. Não o gol em si. O jeito como ele olhou pra mim depois do gol. Não foi triunfo. Não foi deboche. Foi algo que eu não tinha visto antes.

Ele estava rindo. Rindo de verdade. Rindo como se tivesse se divertido. Não era a risada de Vicente, aquela que era arma, sorriso de quem quer mostrar poder. Era uma risada solta. Uma risada que escapava por acidente. E eu sabia o que isso significava. Significava que o jogo, por um minuto, era só jogo. Que as armaduras, por um minuto, caíam.

Eu peguei a bola. Marvei no canto. Toquei pra Vicente.

"Dobre", disse eu. "Pra valer."

Ele sorriu. Um sorriso que não era veneno. "Vale."


O segundo tempo foi diferente. Vicente parou de jogar pra vencer e começou a jogar pra jogar. E quando Vicente joga pra jogar, ele é perigoso. Não como antes. Diferente. Mais fluido. Menos calculado.

Vicente me passou a bola no segundo tempo. De verdade. Não um passe forçado. Um passe que eu ia fazer gol. Eu controlei de peito, virei e chutei. Vicente não tentou o drible. Ele cobriu o espaço. Deu cobertura. Foi o que um companheiro faz.

O que aconteceu depois não estava no plano de ninguém. Nem de Tomás, que não estava lá. Nem de Vicente, que estava jogando como se tivesse esquecido a hierarquia. Nem de mim.

Eu tinha a bola na área. Vicente não estava marcado. Eu vi o espaço. Passei. Vicente controlou com o primeiro toque e chutou. Gol.

3 a 2.

Vicente olhou pra mim. Sorriu de novo. Desta vez, um sorriso que eu reconheci. Um sorriso que eu já tinha visto em outro lugar. Num campo de areia, anos antes, antes do Rio, antes de tudo. Meu pai fazia esse sorriso depois de um gol. Era um sorriso que não pertencia à Colina. Pertencia a um lugar onde gol era só gol. Onde o resultado era o que importava.

"Boa passe", disse Vicente. Não com arrogância. Com sinceridade.

E eu entendi. O sorriso dele. Não era de rival. Era de alguém que tinha visto o mesmo brilho nos meus olhos.


Sala de aula na tarde seguinte. Ética Aplicada. Sturm. A disciplina que ninguém tem aula marcada, mas que existe sempre. Sturm não ensina matéria. Sturm ensina como se tornar alguém que não precisa de matéria.

A sala estava cheia. Todos os jogadores presentes. Zeca, que sempre dormia nessas aulas, estava acordado. Tomás, que sempre trazia anotações, estava de caderno fechado.

Sturm entrou. Vestia o mesmo impecável que sempre. Camisa branca, gravata azul-marinho, relógio que custava mais que um apartamento no Leblon. Sentou. Esperou.

"O amistoso interno", disse. "Quem assistiu?"

Ninguém se mexeu. Sturm não esperava resposta.

"Bento. Vicente. Bom trabalho."

A elogiosa de Sturm era rara. Quando ele elogiava, era porque tinha mais a ganhar do que a perder. E ele estava elogiando. O que significava que o amistoso tinha produzido o resultado que ele queria.

Depois de falar com a turma toda, Sturm chamou. "Bento, um momento. Na porta."

Eu fui. A porta da sala se fechou. Sturm não levantou. Ficou sentado. Me olhou de cima da mesa.

"Torneio contra a Escola Riva", ele começou. "Você sabe que não é um torneio."

Eu sabia. Sturm já tinha me explicado isso antes. Mas ele não explicou o que eu precisava ouvir agora.

"Não é sobre futebol", disse Sturm. Ele fez uma pausa. Eu esperei. "É sobre herança."

A palavra "herança" ecoou na sala fechada. Herança. Algo que se recebe. Algo que se transfere. Algo que define quem você é antes de você definir quem você é.

"E o que você sabe sobre herança, Bento?"

A pergunta era armadilha. Eu não respondia armadilhas. Mas Sturm não queria resposta. Ele queria que eu ouvisse.

"Há famílias que mantêm presença aqui há quatro gerações. Há famílias que entram por mérito. Há famílias que saem por erro. E há famílias que não existem mais, mas que vivem nos nomes que carregam seus filhos."

Ele se levantou da cadeira. Caminhou até a janela. O janela dava pro campo de terra batida. Do lado de fora, o gramado vazio do amistoso. Os buracos que o inverno fizera.

"Vicente D'Angelo. O nome é italiano. A família é brasileira. O dinheiro é europeu. A história é complexa." Ele virou pra mim. "E Bento Carvalho Mendes. O nome é português. A origem é brasileira. O futuro..."

Ele não terminou. Não precisava. Sturm não terminava frases que podiam ser lidas de duas formas.

"Estude para o torneio", disse. "E estude o que vem antes do torneio."

Eu saí da sala. Sturm já estava sentado de novo. O caderno aberto. A caneta na mão. Como se eu nunca tivesse existido.


O resto da tarde eu passei no campo. Não o de treino. O de terra batida, onde o amistoso aconteceu. Sozinho. Sentado no meio-campo, num buraco que a neve não cobria.

O que Sturm me dissera tinha um peso. Herança. Herança é o que se herda. Mas também é o que se carrega sem saber. Meu pai e o pai de Vicente. Juntos num escritório às nove da noite. Sturm sabendo. Sturm planejando. Sturm elogiando o resultado.

A herança que Sturm mencionou não era de dinheiro. Dinheiro eu já sabia que existia. A herança era de algo que eu ainda não podia ver. Algo que estava na mesa do escritório, nos cotovelos de um homem e nas mãos de outro, no silêncio que separava os dois.

Vicente me encontrou no campo de terra batida. Sentou do outro lado do buraco.

"Você é bom", disse ele.

"Você também."

"Eu sei."

Silêncio. O vento dos Alpes soprava. A neve derretia. Os buracos do gramado estavam visíveis. O campo de terra era um campo de verdade. Não o campo de grama artificial que a elite usava. O campo de verdade tinha buracos. E buraco era onde a bola ia e não voltava. Era o que tornava o jogo justo.

"Sturm te disse algo?" perguntei.

"Ele me disse que o torneio não é sobre futebol."

"Ele disse que não é sobre herança."

Vicente assentiu. "Herança é o que a gente carrega sem pedir."

E eu percebi. Vicente também sabia. Vicente também tinha sido chamado. Vicente também tinha sido avisado. A diferença é que Vicente já vivia a herança. Eu ainda ia descobrir.

Vicente se levantou e saiu. Eu fiquei. O buraco no campo de terra batida. O silêncio. E a certeza de que o que estava por vir era muito maior do que um torneio de futebol.

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